O sossego de trabalhar em casa

Telefone toca, portaria comunica:

Ignácio de Loyola Brandão, O Estado de S.Paulo

05 Setembro 2014 | 02h07

Avise dona Alzeni que o mercadinho mandou as compras.

Desço e aviso Alzeni, nossa assessora doméstica, que o que ela pediu vai subir pelo elevador.

Telefone toca:

É o senhor Iguinácio?

Pronuncia-se Inácio.

Mas aqui tem um G.

Esqueça o G.

- Aqui é dos filtros etc. e tal, quero comunicar que amanhã nosso técnico vai passar para a manutenção anual! Há quanto tempo o senhor não faz manutenção?

- Não sei. Você que é da central não tem a programação no computador?

- Não tenho. Que tipo é o seu filtro?

- Você não está com minha ficha na mão?

- Não.

- Não tenho a mínima ideia que filtro é.

- Pode ir ver?

- A cozinha está longe, estou num trabalho, agora não posso.

Ela fez várias perguntas, descobriu o tipo de filtro que tenho, o mantenedor virá amanhã. Perdi meia hora e o fio da meada.

Telefone toca, pouco depois:

Senhor Iguinácio?

Inácio.

Mas aqui tem um G.

Não se pronuncia.

- Aqui é da editora etc. e tal, queremos saber se o senhor vai renovar a assinatura da revista etc. e tal?

Não, não vou.

Por quê?

Não me interessa mais.

Por que não interessa?

Porque está ruim, chata, mal escrita.

- Posso passar para meu superintendente, o senhor faz essas reclamações para ele?

Não, simplesmente não quero renovar.

Podemos trocar por outra revista. Uma semanal?

Não.

Por quê? O senhor não quer estar bem informado?

Quero, mas estou desempregado.

Foi demitido?

Sim e vai ser difícil arranjar outro emprego na minha idade.

É? Quantos anos o senhor tem?

108.

A jovem desligou. Uma hora depois, o telefone toca. Preciso atender, sou freelance, pode ser alguém querendo encomendar um trabalho. É uma imobiliária:

- Temos um ótimo lançamento, um apartamento de luxo no bairro etc. e tal. O senhor é um cliente diferenciado.

Sou cliente de vocês?

O senhor é conhecido, relacionado, um comunicador.

Tenho apartamento, moro nele.

Este é para investimento.

Quanto custa?

Oito milhões de reais.

Me interessa, vocês podem esperar?

Quanto?

Até eu ganhar a Mega Sena acumulada?

Desligam. Passa o tempo, o zelador me chama da portaria:

- Seu Inácio, o amolador de facas está aqui. Tem algum trabalho para ele?

Fale com a Alzeni.

Não passa muito, o zelador de novo:

Seu Inácio, o carteiro está aqui, tem um Sedex para o senhor.

Assine e receba.

O senhor é que precisa assinar.

Fazer o quê? Desço, assino. Era de um escritor que conseguiu meu endereço e me enviou um original de 300 páginas. Romance. Quer que eu leia, corrija, arranje editor. Dias depois, o telefone toca:

Aqui é fulano de tal.

Quem?

O escritor que mandou o romance para o senhor. Já leu?

Nem tive tempo de abrir.

Vai ler? Tenho pressa

Quando puder, leio.

- O senhor faça as correções que quiser, é meu mestre admirado, depois pode entregar ao seu editor, aceito todas as condições, não sou pretensioso.

- Não vou ler, não tenho tempo.

- É sempre assim, ficou conhecido, fica convencido. Muito, muito obrigado pela gentileza. Pode pôr no correio de volta? Por Sedex, para que eu não perca tempo.

Não contei os que ligam pedindo auxílio para crianças doentes, para entidades que cuidam de velhinhos, de tuberculosos, aidéticos, drogados, os que precisam de uma cadeira de rodas, uma dentadura (peça à Dilma, aconselhei), querem que eu faça um título de capitalização, e etc., etc. Não dizem por aí que a evolução do homem moderno é trabalhar em casa, usando computadores, celulares, iPods, tablets, rede social? Pois é! Tentem o sossego do lar.

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