O sonho não acabou, segundo Tendler

Cineasta enfoca a História após a 2ª Guerra em Utopia e Barbárie

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

23 de abril de 2010 | 00h00

Eis que ele está de volta, o Sr. Documentário, Sílvio Tendler. Podem existir até documentaristas maiores, do ponto de vista artístico e autoral, e João Moreira Salles e Eduardo Coutinho se impõem, mas Tendler, além da qualidade associada a seu nome (e trabalho), ostenta o título graças a bilheterias nunca igualadas, que dirá superadas. Que outro documentarista brasileiro ultrapassou a marca do milhão de espectadores? É verdade que seu maior sucesso, O Mundo Mágico dos Trapalhões, deve seus quase 2 milhões de espectadores ao grupo, mas o milhão de Jango e os 800 mil de Os Anos JK (leia abaixo) são méritos exclusivos de Sílvio Tendler.

Trailer. Veja trechos de Utopia e Barbárie no site

Ele volta com Utopia e Barbárie, um filme que tem estado em pauta há 20 anos. Na verdade, desde muito antes. É uma coisa geracional. Tendler reconhece que não passou impunemente pelos anos 1960, compartilhando os sonhos revolucionários dos jovens que queriam mudar o mundo. No fim dos anos 1980, o cenário estava devastado. A queda do Muro de Berlim e a derrocada da União Soviética - não que Tendler defendesse o muro; era contra - assinalaram o fim do sonho. "Eles" venceram. Eles quem, cara pálida? As economias neoliberais, o mundo global. Filósofos e pensadores proclamaram o fim da história. Sílvio Tendler, em crise, resolveu repensar o tema da utopia. Depois de muita pesquisa, de recolhimento de material de arquivo e entrevistas filmadas, estava "quase" formatando seu documentário quando ocorreu o cataclismo de 11 de setembro de 2001.

A história não havia acabado. Uma nova, para muitos terrível, utopia surgiu no horizonte, a islâmica. Mais trabalho, quase dez anos e estreia Utopia e Barbárie. Já houve outro filme, do autor, com esse título, mas era parte do projeto, que previa o longa que agora chega ao público. Para refletir sobre utopia e barbárie, Tendler debruça-se sobre a grande História, com maiúscula. Israel, Vietnã, as eleições de Luiz Inácio Lula da Silva (um operário) e Barack Obama (um negro). Imagens de destruição - e reconstrução. A barbárie - e sobre ela, a promessa de uma nova utopia.

Tendler não desistiu da esperança. Professoral - leciona na UFRJ -, ele discorre sobre a história do Brasil e do mundo, teoriza sobre o gênero. Mas pede, rindo, na entrevista realizada por telefone: "Não vá publicar que, como cineasta, sou um bom professor." O sonho, a utopia pessoal de Sílvio Tendler, é ser um bom cineasta, e ele é. Respeitado, inclusive. Utopia e Barbárie discute os grandes movimentos da História no pós 2.ª Guerra Mundial. Tendler utiliza material de arquivo, e o filme que vira filme foi tema da recente Conferência Internacional do Documentário, durante o 15.º Festival É Tudo Verdade.

Vietnã. O diretor rezava pelo catecismo de Emile d"Antonio, cineasta norte-americano autor de um clássico, The Year of the Pig, O Ano do Porco, sobre a Guerra do Vietnã. Antonio se apropria de materiais alheios para fazer documentários autorais. O que importa é o sentido que dá a imagens que não coletou. Em Utopia e Barbárie, Tendler continua usando fontes alheias, mas agora identifica as imagens, dá-lhes crédito. Outro documentário autoral - e, no momento em que Utopia e Barbárie chega às salas, Tendler monta, a todo vapor, o próximo documentário. Sobre Tancredo Neves. A utopia continua - Tancredo fez a passagem da ditadura para a democracia, no Brasil. É mais do que tempo, como pretende Sílvio Tendler, de resgatar o grande mineiro de São João d"El Rei. Utopia e Barbárie vai fazer sucesso? Outro milhão de espectadores? Os tempos são outros. Reabrir o debate já satisfaz Sílvio Tendler, mas ele adoraria ver o público fazer fila para compartilhar sua utopia reencontrada.

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