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Leandro Karnal
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O sonho lúcido

Salieri tudo negara para pouco ser e Mozart vivia intensamente tanto o campo erótico quanto o prazer da música genial que fluía dos seus dedos como mágica

Leandro Karnal, O Estado de S. Paulo

04 de agosto de 2019 | 02h00

O filme genial de Milos Forman, Amadeus (1984), cria uma fantasia de inveja entre o compositor italiano Antonio Salieri e o austríaco Mozart. A ficção recebeu várias estatuetas do Oscar provando que diretores não são historiadores e que o voto da academia não é uma banca de doutorado. Premia-se mais o brilho da narrativa, o impacto das cenas, o lúdico, a criatividade e o sucesso no mercado; dá-se menos atenção à verossimilhança. 

O ator F. Murray Abraham viveu um Salieri de talento mediano e, no começo, profundamente religioso. O compositor acreditava que, tendo renunciado ao prazer corporal, receberia de Deus o prêmio do talento. Ao conhecer Mozart, o italiano percebe que está diante de alguém que vive intensamente o sexo e a alegria da vida, preocupa-se pouco com moral e com fé e, contraditoriamente, recebe um talento excepcional.

Salieri tudo negara para pouco ser e Mozart vivia intensamente tanto o campo erótico quanto o prazer da música genial que fluía dos seus dedos como mágica. Um achara que o sacrifício era a porta de entrada na glória eterna e se enganou. O outro já era imortal muito cedo. A fantasia de Milos Forman é brilhante. Nada disso ocorreu. 

Essa crônica não é sobre fidelidade cinematográfica. Quero considerar o sonho lúcido de Salieri. Foi um sonho, em primeiro lugar, porque ele projetou um futuro glorioso. Foi um delírio que apostou em um pacto teológico de sacrifício e recompensa: eu Te dou tudo e, em troca, recebo o talento. Foi um sonho. Nem Deus autorizou a negociação nem aceitou a renúncia do músico casto-vaidoso.

Acima de tudo, o preço do resgate não foi entregue. O Salieri fílmico era convencional, repetitivo, destinado ao eclipse ainda em vida. Era um sonho que bebeu pouco do real e apostou em meta elevadíssima de alpinismo da glória sem o corpo que tolerasse altitudes.

Foi aspiração celeste que o filme vai tornando pesadelo ressentido, invejoso, amargo, transmutado em vingança contra o Todo-Poderoso, contra Mozart e contra todos.

O título diz sobre sonhos lúcidos. Aconteceu assim com Salieri porque tudo foi realizado à luz do dia. Não era um devaneio entre um cochilo e outro, porém um projeto de vida concebido em plena lucidez. Lúcido, aqui, remete ao que fazemos em estado de vigília e não ao outro sentido da palavra: clareza mental ou agudeza argumentativa.

Salieri perseguiu um sonho claro de “toma lá, dá cá” com o Altíssimo e foi derrubado da sua torre de Babel pela figura gargalhante de Wolfgang Amadeus Mozart. 

O maior de todos os delírios humanos é o mais compreensível: buscar sentido nas coisas. Faz parte do nosso caráter autorreferente, forte na infância e intacto sob a epiderme da maturidade. O carro quebrou? É porque não era para eu ir a tal lugar. Perdi um emprego? Prepara-se outro mais notável que o substituirá. Sou bom e ético? Receberei do mundo benefícios extraordinários. Entrego-me por completo a Deus? Ele me cobrirá de glórias. Era a lógica de Salieri. Quase nunca é o que ocorre. 

É muito humano desejar ordem lógica e moral nos fatos, especialmente se eu, como quase todo mundo, identifico-me entre os bons e justos, honestos e trabalhadores. O dramático é que o aleatório é a regra. As coisas seguem lógicas distintas dos meus planos. Parece-lhe, querida leitora e estimado leitor, uma ideia de uma mente cética e materialista? Senso comum de almas piedosas: “O homem põe e Deus dispõe”. A lógica divina foge da nossa, como bem o soube o piedoso Jó das Escrituras. 

O Salieri real foi excelente músico com boas composições e ensinou gente muito importante. Ao lado de montanhas assombrosas de picos nevados como Beethoven e Bach, temos montes arredondados com certa graciosidade, como Salieri ou Czerny. Abaixo de todos eles, infinidades de montículos que germinam em todas as épocas e lugares, do Brasil à Rússia.

Os primeiros são divisores de águas, como toda alta montanha. Os segundos tiveram algumas boas ideias e foram bons professores de outros. Os terceiros são frutos de vaidades maternas, orgulho regional ou lamparinas de fogo-fátuo. Não identifico nenhum nome específico na terceira categoria. Já tenho problemas suficientes na vida. 

O que poderia ter feito o Salieri do filme para ser feliz? Ajudado muito o crescimento de Mozart, amparado o jovem na corte de Viena, ensinado com dedicação muitas pessoas e abrir caminho para que muitos talentos promissores despontassem. Teria a felicidade de um pai que se alegra com o sucesso do filho. O que mais? Uma vida afetiva não faz mal a ninguém. Como sabemos, gente feliz não perturba.

Finalmente, se sua fé o dispusesse assim, pediria perdão a Deus por ter feito comércio sacro com a raça divina e teria se entregado ao desejo do Pai-Nosso: faça-se a Sua vontade. O Salieri de F. Murray Abraham enrolou-se no seu veneno. Poderia ser pior? Sim, se aquele compositor tivesse acesso a redes sociais. Não existindo tal opção no século 18, ele só se ocupou da vida de uma pessoa. Hoje, por certo, teria um grupo enorme de seguidores. Boa semana para os poucos Mozarts e os muitos Salieris do nosso Brasil varonil. 

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