O sonho de um doido e outras fábulas

1. Cúmplices

Miltom Hatoum, O Estado de S.Paulo

09 Outubro 2015 | 02h00

Estamos perdidos... Ela conseguiu decifrar o enigma.

Como? Quando?

Ontem, num sonho.

E nós?

Nós, cúmplices do sonho, estamos perdidos.

2. Exit

Não há saída, Bardo.

Nem à direita, nem à esquerda?

Nada.

Então vamos fugir pelo centro.

Impossível.

Por quê?

Porque o centro é um labirinto, e dos mais terríveis.

3. Sonho

Sonhei com Franz Kafka, disse a germanista.

Em alemão?

Nada disso.

Vocês não conversaram? O que você sonhou?

Um pesadelo: perdi minha voz e era noiva do jovem Kafka.

4. Liberdade

Vinte e dois anos no cárcere. Agora é um homem livre. Tomou uma cerveja e, longe do pátio da prisão, contemplou pela primeira vez o céu na manhã ensolarada. O mundo parecia um milagre. O ex-presidiário sorriu. De repente uma sombra apagou esse devaneio. E tudo escureceu na cela.

5. Pergunta com resposta

Outro dia perguntei à faxineira do edifício se ela sabia o nome do presidente da Câmara.

Ela leu a manchete de dois jornais e disse: "É esse espertalhão aí... Roubou cinco milhões de dólares e guardou a grana na Suíça. Vai ficar assim? Ele não vai pegar cadeia?"

Não sei, respondi. Você acredita na Justiça?

"Só às vezes, moço".

Obrigado pelo "moço", eu disse.

6. Pergunta de uma leitora

"Onde está a poesia?", perguntou uma senhora. "Só se fala de política e violência..."

A poesia está nos muros, em alguns livros, e talvez no silêncio. A senhora leu O Livro das Semelhanças? Não? É um belo livro de Ana Martins Marques.

Como você sabe?

Li os poemas desse Livro e sei de cor uns versos:

"Há estes dias em que pressentimos na casa / a ruína da casa / e no corpo / a morte do corpo / e no amor / o fim do amor..."

7. política com minúscula

Na política brasileira, os aliados podem ser traidores, e esses traidores, malfeitores. Os sérios (na aparência) podem ser ladinos, e aliados de traidores. No abraço do político que nega seu crime, há o gesto oculto da punhalada; e nos tapas nas costas, a promessa da nomeação do genro para dirigir um órgão público.

8. O sonho de um doido

Encontrei meu amigo na mesma caverna no centro da cidade. Ele e seu cachorro, o Rei, conversavam sobre a mudança de ministros. Meu amigo disse única frase:

"A troca de ministros é um dos capítulos do Manual de Sobrevivência, publicado em 1907".

Depois o Rei falou adoidado, e eu não consegui traduzir os latidos. Pedi ajuda ao dono do cão, que se diz um excelente tradutor do dialeto canino. O homem me encarou com ar sério:

"Se eu traduzir, você não vai publicar. Rei é indecoroso, mas eu mantenho a compostura. O que você trouxe hoje?"

Livros...

"E a ração do Rei, meu cão faminto? E os meus sanduíches de porco-espinho?"

Calma, eu trouxe tudo.

"Sonhei com abacaxis e um circo", ele sorriu. "Três abacaxis dourados despencaram do céu circense e caíram na rede de proteção. De repente, eles se agigantaram, adquiriram feições humanas, saíram da rede e começaram a dançar. Era um casal com uma filha. O circo era suíço, mas a dança era brasileira... O nome da família era comum, mas me esqueci dessa alcunha. Com cinco latidos, Rei me ajuda a lembrar a alcunha e o sonho inteiro. Quer publicá-lo?"

Fica para a próxima crônica, respondi.

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