O sonho de Alice

Museu Crystal Bridges nasce com a missão de estabelecer um elo entre arte e natureza

ROBERTA SMITH, THE NEW YORK TIMES, BENTONVILLE, ARKANSAS, O Estado de S.Paulo

01 de janeiro de 2012 | 03h07

Seja qual for o critério escolhido para medir o sucesso, o Museu Crystal Bridges de Arte Norte-Americana, que abriu em novembro na pequena cidade do Arkansas, está tendo um começo meteórico. Sonho de Alice Walton transformado em realidade pela fortuna do Walmart (do qual ela é herdeira), o museu é caracterizado como uma obra em andamento tanto pelos que trabalham nele quanto pelos visitantes, e ainda há bastante espaço para melhorias.

Mas lá está ele: uma nova, grande, séria e confiante instituição com mais de 4,6 mil m² de espaço para exposições e acervo estimado em centenas de milhões de dólares numa região quase desprovida de museus de arte. Mais do que mera demonstração do que o dinheiro pode comprar, ou de uma tentativa de lustrar o sobrenome de uma família rica, o Crystal Bridges deve fazer genuína contribuição cultural, podendo se tornar ponto de peregrinação para os amantes da arte de todo o mundo.

O museu foi transformado de projeto em realidade em tempo recorde: em março de 2005, Alice anunciou a escolha do arquiteto israelense Moshe Safdie, de Boston, e chamando a atenção ao adquirir a famosa pintura de uma paisagem da Escola do Rio Hudson, Kindred Spirits, de Asher B. Durand, pela qual a Biblioteca Pública de NY recebeu cerca de US$ 35 milhões. Essa foi das primeiras de muitas aquisições que inquietou os nervos, inspirou ceticismo e estimulou o mercado da arte.

Hoje, o Crystal Bridges conta com ambiente espaçoso e confortável, instalado num barranco escavado pela fonte Crystal Spring, que dá nome ao lugar. (O terreno fez parte da propriedade dos Walton em Bentonville, onde o pai de Alice, Sam Walton, abriu a primeira loja de artigos variados em 1951). E também com um acervo de obras do período colonial até o presente, substancial o bastante para merecer o termo de obras-primas no título da mostra inaugural.

A exibição de mais de 400 pinturas, esculturas e obras feitas sobre papel traz criações de artistas festejados, como Gilbert Stuart, Thomas Cole e Thomas Eakins, e se revela rica na amostragem do modernismo do início do século 20, com excelentes pinturas de Marsden Hartley e Stuart Davis, além de belas telas de Arthur Dove.

Nos dois primeiros pavilhões, dedicados a obras anteriores a 1900, há quadros do gênero sentimental, alguns excelentes exemplares (como War News From Mexico, pintado por Richard Caton Woodville em 1848); agradáveis paisagens impressionistas; e obras anteriores cuja maneira robusta de lidar com a tinta parecem ser um presságio do impressionismo (Hollyhocks, de John La Farge, dos idos de 1864).

E não faltam obras capazes de deixar qualquer um paralisado: o retrato da mulher de Theodore Atkinson Jr. feito por John Singleton Copley; uma bela paisagem de outono pintada por Thomas Moran; a panorâmica Cena de Inverno do Brooklyn, de Francis Guy; a bela e tempestuosa tela Pôr do Sol no Rio, de George Inness; um conjunto de obras do luminista Martin Johnson Heade; o enigmático retrato do autor Robert Louis Stevenson e sua mulher, pintado por John Singer Sargent; e o reluzente retrato de um acampamento de índios, instalado numa floresta tropical banhada pela luz amarela, pintado por George Catlin.

As galerias que trazem obras do início do século 20 ganham vida com uma saudável oposição de abordagens e sensibilidades conflitantes - parte do que faz delas o maior acerto do museu. Aqui a Escola Ashcan, as pinturas de Cenários Americanos e vários graus de modernismo, tanto abstrato quanto representativo, estão em constante embate. Trata-se de obras menos conhecidas, como The Return of the Useless, de George Bellows, criticando a guerra em 1918, uma chocante cena mostrando soldados alemães e trabalhadores forçados belgas retratados em tons de vermelho; e obras-primas emblemáticas, como a reluzente semiabstração de Dove, Moon and Sea II, de 1923; e o terno retrato de um corpulento boxeador feito por Hartley em 1940.

As galerias dominadas pela arte americana do pós-guerra são as mais confusas e arbitrárias, mas estão também repletas de sensibilidades diferentes. Grandes artistas como Jasper Johns, Roy Lichtenstein, Andy Warhol, Robert Rauschenberg e Jackson Pollock são representados por obras consideradas menores ou superficiais. A energia nessa área vem de inesperadas obras fortes, tanto realistas quanto abstratas, criadas por artistas menores, entre os quais se destacam Grace Hartigan, Will Barnet, Wayne Thiebaud, Joan Mitchell, Gene Davis e Hale Woodruff, além da estranha Janet Sobel, artista autodidata que pintava motivos da arte camponesa, mas que também criou abstrações com pingos de tinta antes de Pollock, que conhecia a obra dela. Aqui ela é representada por um grande quadro no qual faz ambas as coisas ao mesmo tempo.

O museu pode se gabar de uma obra inédita que incorpora com perfeição a sua missão mais ampla: Skyspace, a mais recente obra de James Turrell, uma estrutura circular de pedra dotada de um teto aberto em formato de redoma que permite ver o céu no raiar do dia ou no pôr do sol. Sutis mudanças na iluminação artificial dentro da redoma conspiram com a alteração na luz natural para criar um impressionante espetáculo cromático. Pode soar cafona, mas funciona.

O Crystal Bridges é receptivo aos visitantes nos detalhes e no geral. A entrada é gratuita e possui um ambicioso programa de educação que vai, entre outros objetivos, atender a mais de 80 mil alunos do ensino infantil na região. E, em alguns dos interstícios entre os pavilhões, onde seriam esperadas as típicas lojas de lembranças, o museu conta com áreas equipadas com cadeiras confortáveis e sofás, bem como numerosos livros de arte para serem folheados.

Esses elementos, como o museu do qual fazem parte, transmitem a crença de que a arte, como a música e a literatura, não é um luxo nem privilégio dos ricos. Em vez disso, trata-se de uma ferramenta essencial para a vida à qual todos deveriam ter acesso, porque ajuda a despertar e dirigir o talento individual, cujo desenvolvimento é essencial para a sociedade. Afinal, arte é um dos âmbitos no qual a busca pela felicidade ganha foco e propósito e começa a se expandir para fora, na tentativa de auxiliar e promover aquilo que chamamos de bem maior.

Daniel Piza. O colunista, que escreve aos domingos neste espaço, está em férias

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