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Ignácio de Loyola Brandão
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O sonho da casa própria enlouquecendo mulheres

Escritor que prevê o futuro. Se houvesse tal classificação, eu poderia requerê-la junto à crítica literária. Vejam se não tenho razão. Durante a crise da falta d’água em São Paulo, aquela que nunca existiu para o governo, muitos na mídia apontaram referenciais no meu romance Não Verás País Nenhum, no qual a água não existe mais no Brasil, o calor é tremendo, o sol mata. No fim da década de 1970, eu já lia artigos científicos sobre a futura crise da água potável. A mim não foi preciso imaginação, apenas breve dose de exagero.

Ignácio de Loyola Brandão, O Estado de S.Paulo

22 Julho 2016 | 02h00

Agora, reivindico a classificação literária, depois de ver nos jornais as fotos de 3 mil casas do projeto Minha Casa Minha Vida, em Imperatriz, Maranhão. Imóveis mínimos, grudados um no outro, nenhuma praça, nenhuma vegetação, sufoco. No Fórum de Leitores deste jornal, várias cartas fizeram a inevitável comparação com campos de concentração alemães. Imagens de Auschwitz ou Dachau podem ser confundidas com as casinholas de Imperatriz. Foi então que lembrei de meu romance Zero, idealizado em 1964 e concluído em 1973, publicado no Brasil em 1975, depois de uma primeira edição na Itália, em 1974, um caso insólito na literatura brasileira. Quase meio século depois, o que escrevi em Zero se concretizou, tornou-se realidade. No capítulo O Que É Que É, mostrei as donas de casa que saíam para as compras matinais e, ao voltar, se perdiam, não encontravam mais suas casas, milhares de casas idênticas. Confusas, elas entravam na casa dos outros, brigavam, saíam em busca, não havia ainda um único toque pessoal que as ajudasse a voltar para preparar os almoços. E piravam, enlouqueciam, deliravam. Enquanto caminham, mulheres se encontram e trocam receitas. Assim descrevi:

“Rosa ficou parada no largo amarelo. A vista escureceu, ela começou a cair para a frente. Um homem viu, segurou-a pelo braço. Rosa queria voltar para casa. Seria no segundo ou no terceiro quarteirão? Talvez se lembrasse da esquina. Não, eram todas iguais. Nenhum ponto de referência, as casas brancas se sucediam. Deve ser na quadra de baixo. Não era. Dez quadras, vazias. Caía sempre dentro de quarteirões brancos. Estava em pleno miolo da vila, o sol batia nas casas, fazia mal aos olhos. Perguntava, outra mulheres abriam os olhos, surpresas.

Uma dessas casas é minha. Subiu, desceu, contornou, voltou, virou, cruzou, atravessou, desceu, subiu. Calçadas em cimento cinza, lajotas de cimento, espaços de um metro para jardim, janelas azuis, muros de um metro: como espelho infinito em que a vila se reproduzia mil vezes. Então, ela viu duas mulheres: onde estará minha casa, perguntaram.

E as duas eram dez, um grupo de 20, 100 mulheres/ cacarejantes/ gritando-rindo-assustadas/ excitadas: bzzzzzzzzzzz: murmuravam e a minha casinha? E quanto põe de manteiga/ e a minha rua?/ gelatina. Vai muito?/ onde anda minha rua? E os meus vasos?/ vai leite condensado?

Andavam, depois corriam, subiam desciam/ bata bem no liquidificador; dois ovos inteiros, duas gemas, giravam, se encontravam, indagavam, gritavam, uma colher de sopa de conhaque, uma xícara de farinha de trigo peneirada, coloque no copo do liquidificador todos os ingredientes para a massa, coloque um capacho na porta de casa, tão bonito, todo verde, combinando com o azul / e agora onde está a minha casinha? Cebola descascada, pimentão verde, um pepino cortado. As mulheres que ficam nas portas e janelas não querem sair, elas correm, sobem nos telhados, enxergam um deserto de telhados vermelhos-o-vermelhos peneirando ao sol, los, slo. MODO DE FAZER corte as folhas de gelatina e as mulheres que estavam nas janelas entravam correndo com medo de serem levadas pela multidão-dédalo-labirinto-sem-fim, e as mulheres cacarejantes-rindo-gritando-ando-excitadas, e coloque a massa na água fria, casas brancas ao sol, ruas cruzando/ uma casa, mil casas-iguais um fio de linha para dédalo-tontas-tontas, as mulheres formigas doidas em dia de saída de içá-cegas, na tarde em busca de suas casas, lares, doce lares. Dá seis porções”.

Apanhem os jornais de segunda-feira. Busquem na internet o conjunto de Imperatriz e vejam como a vida real vem a reboque da literatura e da imaginação dos escritores que mostram o arcaísmo, a pré-história em que vivem nossos políticos e seus projetos.

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PS: Aos meus leitores aviso que nos dia 27, a partir de 18 h, e 31, a partir de 13 h, deste mês estarei na Livraria Martins Fontes (Av. Paulista, 509), autografando meu novo livro de crônicas, Se É Para Chorar Que Seja de Alegria. No dia 31, domingo, haverá coquetel, autógrafos, uma fala e o show Solidão no Fundo de Agulha liberado geral. Tudo pelos meus 80 anos.

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