O sonho da calça ideal

Como se não bastassem barra, cós e cavalo, ainda é preciso que nossa circunferência caiba também

Ruth Manus, O Estado de S.Paulo

10 Dezembro 2017 | 03h00

Se existe uma coisa da qual eu tenho inveja é de gente que encontrou a calça certa. A calça certa é algo um pouco semelhante ao famoso pote de ouro no fim do arco-íris ou do caminho para El Dorado. São raras, são raríssimas as pessoas que conseguem encontrá-las ao longo da vida.

Sinto que estou criando uma certa fixação com esse assunto e que ganho ares de sociopata quando me dedico à análise minuciosa do caimento da calça alheia. Isso ocorre não apenas nos restaurantes e no ambiente de trabalho, mas também na fila do supermercado e no ponto do ônibus. 

Não entendo nada de moda, mas é fácil identificar uma pessoa que encontrou a calça certa, porque elas têm uma expressão muito rara no rosto, uma certa serenidade misturada com leves pitadas de esnobismo. Nada agressivo, mas trata-se, realmente, de uma expressão absolutamente única.

Estimo que 96% das pessoas têm problemas com o comprimento da calça. Um desavisado poderia dizer, “mas é só fazer a barra”. Mas não, não é. Porque, normalmente, reduzir o comprimento da perna reflete imediatamente no caimento da calça e aí já começa tudo errado. Outro problema é aquele que atinge pessoas altas, como é meu caso, no qual uma calça normal para os demais, nos veste como calça de caçar rã.

Depois, surge o problema do cavalo (ou gancho, como descobri recentemente). Baixo demais. Alto demais. Tá apertado (especialmente para homens, devo me solidarizar). Tá folgado. E o cós, que foi amaldiçoado por essa moda das calças de cintura baixa. Parece que está faltando um terço da calça, cintura acima. A pessoa se senta e a calça desliza até o meio das nádegas, gerando uma cena lamentável, sobretudo em casos de pessoas peludas.

Como se não bastassem barra, cós e cavalo, ainda é preciso que nossa circunferência caiba dentro da calça, o que é a pior parte. Deus abençoe as calças que têm elástico na cintura, bem como os tecidos com elastano. Porque encontrar uma calça que nos caiba, sem que o tecido seja minimamente esticável, é uma tarefa que não devia ser exigida de nenhum ser humano.

E há também esse problema que se chama joelho. Cada pessoa tem o joelho em um lugar. Quero dizer, eles normalmente ficam nas pernas, mas a questão é em que pedaço da perna. Nem todo mundo tem o joelho exatamente no meio, o que faz com que algumas calças fiquem folgadas em partes que deveriam ficar apertadas e apertadas onde deveriam estar folgadas. Lamentável.

Coxa também é algo que dificulta muito as nossas vidas porque frequentemente uma coxa grossa não permite que a calça deslize adequadamente até onde deveria, puxando o cós e o cavalo para baixo. Poucas coisas são mais desconfortáveis do que calça entalada na coxa.

Soma-se a isso o roteiro “bunda demais, bunda de menos”. Eu, como fiel representante da segunda espécie, testemunho que quase todas as calças ficam com tecido sobrando na parte de baixo dos glúteos, o que nos deixa parecendo aqueles bebês de propaganda de fralda. Já as pessoas da fartura de nádegas reclamam que quando a bunda cabe na calça, fica sobrando tecido no cós.

Há outras questões como calças que ficam apertadas nas panturrilhas de pessoas que as têm avantajadas ou como os homens que engordam alguns quilinhos e a calça instantaneamente fica curta por causa do preenchimento maior na área dos glúteos. Parece que ninguém está seguro.

Eu não tenho sonhos muito extravagantes. Nem jatinho, nem prêmio Nobel. Mas me dou o luxo de sonhar com a calça ideal e com a prerrogativa de poder caminhar pelas ruas com a serenidade de quem não precisa ficar puxando a calça pra cima, desengruvinhando o joelho, nem dobrando a barra. Esse seria meu luxo, minha meta, meu sonho de consumo. Pertencer a esse seleto grupo de pessoas que consegue estar feliz e sereno dentro de uma calça.

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