O som do eterno em 80 minutos mágicos

Pela primeira vez, um compositor desligava o piloto automático da música utilitária para agir como criador livre. Ninguém lhe encomendou uma missa. Beethoven tomou a iniciativa de escrever uma e oferecê-la ao arquiduque Rodolfo, seu mecenas. Pesquisou por três anos a música sacra do passado, de Palestrina, no século 16, a seu contemporâneo Haydn, passando pelos Bach (Johann Sebastian e Carl Philip Emanuel) e Haendel, antes de se aventurar na composição da Missa Solemnis, obra sem equivalente na história da música ("a maior que compus até agora"), estreada no mesmo concerto de maio de 1824 que apresentou em Viena também a Nona Sinfonia, sua irmã gêmea espiritual. Estilos arcaicos e modernos se justapõem.

O Estado de S.Paulo

30 de junho de 2012 | 03h08

Os pesquisadores dividiram-se entre falar de "caminhos novos para velhas ideias" (Kirkendale) e revoltar-se porque "a atitude de Beethoven parece repulsiva, porque a submissão é nele precedida por um combate com as dúvidas: a fé é alcançada através de provação faustiana" (Paul Henry Lang).

Na verdade, como escreveu em carta, seu objetivo foi "despertar o sentimento religioso nos cantores e ouvintes, e torná-lo duradouro". Para entendermos o real significado dos 80 mágicos minutos compartilhados entre músicos, cantores, regente e público anteontem na Sala São Paulo, é preciso atentar para "a fronteira sutil entre música e religião", segundo o teólogo suíço Hans Küng em livro de 2006. "É imenso o poder transformador da música, apto a sublimar e metamorfosear praticamente qualquer experiência. Mas só se alcança intensidade única da vivência quando a música combina sua energia com a da religião em um mesmo sentido e meta. Em determinados momentos o ser humano consegue no som infinitamente belo o som do eterno."

Thomas Dausgaard revelou-se carismático e capaz de distribuir equilibradamente as dinâmicas entre as excelentes vozes solistas, coro e orquestra - alquimia dificílima quando estão no palco centenas de profissionais. Irretocável o coro da Osesp, numa partitura que exige muito (na gigantesca fuga final do Credo); Emmanuele Baldini solou com perfeição o Benedictus, um "andante de concerto" em clima pastoral. E os solistas formaram um grupo estilisticamente coeso.

Em que Beethoven teria pensado ao compor uma missa gigantesca por conta própria? Na imortalidade? É possível, a julgar por estas palavras, escritas em 1803 ao pintor Alexander Macco: "Continue pintando - e eu continuarei juntando notas; e assim viveremos - para sempre? - sim, talvez para sempre." Na Missa, Beethoven conseguiu roçar "o som do eterno" ao criar um "som infinitamente belo". Quem esteve na Sala São Paulo anteontem teve o privilégio de compartilhar esta rara experiência. Você pode conferir assistindo à Missa hoje à noite, com os mesmos intérpretes, pela TV Cultura, ao vivo de Campos do Jordão.

Crítica: João Marcos Coelho

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