O som de Itamar como você nunca ouviu

Tanto Beto Villares quanto Paulo Lepetit trabalharam sobre gravações (algumas bem precárias) que Itamar Assumpção deixou, fazendo voz-guia e tocando violão, nas 28 composições dos volumes II e III de Pretobrás. Há quase vinhetas, com poucas frases, que se transformam em grandes peças, por força dos arranjos. Há também canções caracterizadas pela repetição minimalista, sem parte B, com letras bem longas, de versos dos mais espirituosos e profundos. É o caso de Je t"Aime Mais Que o Jérome (uma das melhores), Persigo São Paulo, Breu da Noite e Longe de Mim. Os temas variam entre perda, dor, música e amor.

Lauro Lisboa Garcia, O Estado de S.Paulo

11 de setembro de 2010 | 00h00

Lepetit e Villares "trocaram figurinhas", como eles dizem, na realização dos dois discos. Isso inclui a participação de um no disco do outro. Arrigo Barnabé era presença obrigatória e divide os vocais com Itamar numa das faixas mais densas dos dois discos, Persigo São Paulo, toda falada, no volume III. Edgar Scandurra toca guitarra em Visita Suicida e também está no disco de Villares.

Zélia Duncan e Ney Matogrosso, dois dos artistas do mainstream que mais gravam Itamar, não poderiam faltar. E eles surpreendem nas interpretações intrigantes de Grude (Ney) e Devia Ser Proibido (Zélia), ambos no álbum produzido por Lepetit. Efeitos de Naná Vasconcelos com talking drum e a voz em Grude amplificam o bom estranhamento da interpretação de Ney, num tom desafiador, fora do habitual.

O volume II abre com uma colagem de Villares e Anelis Assumpção, com scratches feitos a partir de gravações de vários discos de Itamar. "É uma faixa bem atípica do disco", diz Villares, que ressalta a característica irregular de Breu da Noite (com vocal de Arnaldo Antunes), para a qual chamou Lepetit meio que para "decifrar" a linguagem do Isca de Polícia e os dois criaram o arranjo com Luiz Chagas.

Segundo Anelis, Itamar certa vez manifestou a intenção de trabalhar com Villares. "Isso eu não sabia. Lembrava que quando eu estava produzindo um disco da Zélia Duncan ele ouviu uma coisa e disse que tinha um suingue, mas não definia nenhuma praia específica. Era disso que ele gostava", diz Villares.

Quem conhece sabe que Itamar mistura reggae, samba, soul, blues, rock e outras referências da negritude, sem precisar de definição. Ou seja, já era vanguarda real antecipando o "não estilo" que vigora hoje. "Ele já tinha um pensamento de loop muito antes do sampler", observa o produtor.

É difícil apontar as melhores faixas dos ótimos CDs de Lepetit e Villares. Mas vale destacar do volume II as surpreendentes interpretações de Seu Jorge para O Tempo Todo e de Elza Soares na canção que leva seu nome, com os excessos devidamente limados por Villares. Há excelentes atuações do Duofel, correspondentes ao que Naná fez no volume III, e o tributo de Itamar às Orquídeas em Agora É Que São Elas é uma delícia. Todo Esse Tempo tem duas partes. A primeira é só Itamar com o violão. Na segunda, entra rasgando uma batida de quase drum"n"bass com baião e a voz potente de BNegão, contrastando com o registro original. É Itamar com tecnologia e qualidade técnica como nunca se ouviu. L.L.G.

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