Paulo Liebert/AE
Paulo Liebert/AE

O som da viola cai na rede

Bem-sucedido projeto de Roberto Corrêa revela a expansão do instrumento em diversos estilos

Lauro Lisboa Garcia, O Estado de S.Paulo

17 de dezembro de 2010 | 00h00

Instrumento associado à imagem do campo e ao lamento do matuto, a viola vem se expandindo por diversos gêneros e formas, além da música caipira. Inserida no rock desde que os Mutantes (em parceria com Tom Zé) lançaram 2001, em 1969, ela também está no jazz, no choro, em trilha de balé e, há mais tempo, na música erudita. A novidade é que agora os sons do instrumento, que tem mais 500 anos de história, estão voando mais alto, beneficiando-se da rede social. Roberto Corrêa, uma das maiores autoridades na viola brasileira, lidera um bem-sucedido concurso, o Voa Viola, que foi lançado em junho e apresenta os vencedores hoje em Brasília (leia abaixo).

Pelo edital nacional lançando em junho inscreveram-se 389 violeiros de diversos estilos. Um júri, formado pelos curadores e violeiros Roberto Corrêa e Paulo Freire e os produtores convidados João Carlos Botezelli (Pelão) e Miranda, selecionou 24 trabalhos entre os inscritos de 20 Estados. Destes, o público pôde escolher os 12 finalistas, que se apresentariam no Recife, em Belo Horizonte, São Paulo e Brasília. Os 5 vencedores vão receber R$ 8 mil cada hoje na capital federal. Outros dos 24 ainda concorrem a prêmios especiais, previstos no edital.

"A gente não se pautou apenas pela qualidade, mas pela diversidade também", diz Corrêa. "Dos 24 trabalhos elegemos um para cada categoria: tradição, inovação, dupla, instrumental e canção. Esses 24 foram para a rede social dos violeiros e eles ficaram trabalhando as votações."

Como lembra Corrêa, cada vez mais é quase uma necessidade o artista fazer direto com seu público. "Isso tem se dado de maneira muito mais rápida e mais prática pela internet. Então, a gente quis provocar essas pessoas e ao mesmo tempo fazer com que esses 24 selecionados soubessem que existe essa ferramenta e que ela é importante para os artistas divulgaram seus trabalhos."

Movimento. Os três mais votados inicialmente tocaram no Recife, e assim por diante. Não é um festival de classificação, "mas de panorama", então os trabalhos que levarão os prêmios são os que, entre os inscritos, representam melhor cada categoria. "De alguma forma cada um já tem uma história", diz Corrêa.

"Eu sempre dizia que estava acontecendo um movimento muito grande com a viola no Brasil. Até afirmei que era o que de mais interessante vinha acontecendo na música brasileira. Mas não tinha nenhuma estatística, nenhum parâmetro mais profundo para avaliar o que realmente estava sendo feito com a viola pelo País. A gente tinha notícia de uma coisa ou outra aqui e ali. Com esse projeto, com essa rede social, a gente viu realmente que existe, sim, esse movimento fantástico da viola por todo o Brasil, com criação de orquestras, etc."

Para quem conhece como funcionam orquestras de sanfona e de violão, por exemplo, como diz Corrêa, elas não costumam ser "fabulosas", apenas interessantes. "Com orquestra de viola é diferente. É como se reunisse um ninho de violeiros, de várias gerações. Ali eles formam duplas, trocam experiências, vivências, praticam a cultura deles do interior. A prova disso é a Orquestra Paulistana de Viola Caipira.

Internet. Em quatro meses no ar, o site www.voaviola.com.br ganhou a adesão de 13 mil membros, de 230 cidades brasileiros, que postaram centenas de vídeos e arquivos em áudio de músicas. Nessa movimentação surgiram muitos personagens pitorescos, como um violeiro emo. Houve também adesão de violeiros portugueses, que estão fazendo parcerias com os brasileiros.

Há dois tipos de perfis no site: o de violeiro e o de fã de viola. Quem é músico posta perfil, seu currículo, músicas e vídeos. Os próprios violeiros abrem fóruns de discussão. "Como a viola está conectada com a cultura muito intensa, tangente do que a gente chama de Brasil profundo, então aparecem fóruns como de culinária caipira, dicionário da roça, crenças e imaginário. Tem um muito interessante que Paulo Freire abriu sobre o que é ser violeiro. As pessoas acham que o violeiro tem de estar conectado com a tradição de alguma forma, mas não necessariamente. A viola está transcendendo os contextos culturais em que habitualmente era encontrada."

Com mais de 800 perfis de violeiros no site, Correa temia que os mais tradicionais não aparecessem por estarem off line. "Prevendo isso, enviamos editais para todos os pontos de cultura, prefeituras, porque de algum a forma alguém ligado a essas pessoas estaria conectado."

A ação surtiu efeito e houve o caso de um motoqueiro que faz rali no Jalapão, em Tocantins, que postou um vídeo de uma viagem por lá com um violeiro tocando viola de buriti. Foi o início de uma campanha que acabou envolvendo uma legião de motoqueiros, depois ciclistas e botânicos para promover a dupla Tradição do Jalapão. "Eles que nunca tinham saído do lugar nem para ir até Palmas, acabaram tocando no Palácio das Artes, em Belo Horizonte. Isso é emocionante."

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