Jimmy Katz/Divulgação
Jimmy Katz/Divulgação

O som da surpresa

Ornette Coleman, o homem que quebrou o jazz em mil pedaços, está entre nós

Roberto Muggiati, ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

27 de novembro de 2010 | 00h00

O saxofonista Ornette Coleman corresponde como poucos à definição do jazz como "o som da surpresa" (Whitney Balliett, crítico). Surpresas não faltarão, com certeza, na sua apresentação de hoje, no Sesc Pinheiros (os ingressos esgotaram rapidamente). Inteiro e ativíssimo aos 80 anos (completados em 9 de março), ele comemora também os 50 anos da gravação de Free Jazz, o álbum-manifesto do movimento-estilo que criou com suas primeiras gravações, a partir de 1958. Free Jazz foi gravado exatamente entre as 8 e 12h30 do dia 21 de dezembro de 1960, num estúdio de Nova York, com a duração de 37"03". O subtítulo do LP definia a sua "proposta": A Collective Improvisation By The Ornette Coleman Double Quartet. Registrado em estéreo, trazia no canal esquerdo Ornette (sax alto), Don Cherry (pocket trumpet), Scott LaFaro (baixo), Billy Higgins (bateria); e, no canal direito, Eric Dolphy (clarineta baixo), Freddie Hubbard (trompete), Charlie Haden (baixo) e Ed Blackwell (bateria).

A ideia era duplicar, como numa imagem de espelho, o quarteto original de Coleman (sem piano), e desencadear um processo de improvisação coletiva nos moldes primais do jazz de New Orleans, projetado para a nova concepção sonora de Ornette - ou seja, a adoção de uma linguagem livre, com a abolição de todos os cânones vigentes até então. A própria capa do LP, em folder, trazia a tela White Light do expressionista abstrato Jackson Pollock, insinuando que a música free buscava formas produzidas ao acaso, unindo-se para compor um todo coerente.

Ornette colocou o dedo na ferida. Monstros sagrados protestaram. Monk: "Cara, esse sujeito é doido!" Dizzy: "O que ele toca não é jazz." Miles: "Psicologicamente está todo destroçado por dentro." O saxofonista Dexter Gordon o expulsou sumariamente do palco uma noite. O jazz seguia feliz sua rotina nos anos dourados de 1950 quando surgiu Ornette Coleman - o desmancha-prazeres, o verme na maçã, a mosca na sopa - para acabar com a festa. Enquanto seu saxofone, berrante em todos os sentidos - era um modelo barato, o Grafton britânico, de acrílico branco - desestruturava o jazz por dentro, este era ameaçado externamente por outros sons que lhe roubavam o público: o rock "n" roll de Elvis, o folk-rock de Dylan, o rock dos Beatles e dos Stones, o soul de Ray Charles e Aretha Franklin e a bossa nova de Getz, Gilberto e Jobim.

Os jazzistas que queriam sobreviver partiram para fusões com estes novos estilos, mais comerciais. Os mais radicais aderiram ao free e lhe deram sua própria contribuição, como os tenores "raivosos" dos anos 1960: John Coltrane, em sua incursão político-religiosa; Archie Shepp, Pharoah Sanders e Albert Ayler, viajando em solos indigestos e intermináveis. Até Miles Davis, com a sua fusion, namorou por algum tempo com o free de Ornette.

Desconstrutor. O próprio Ornette quase viu passar a sua hora. Mas, como seu som assumia as estruturas do caos, ele prosseguiu no seu processo de "desconstrução", numa época em que - pardon, Jacques Derrida - nem o conceito nem a palavra estavam na moda.

Começou a diversificar sua música, tocando trompete, violino e saxofone tenor, além do sax alto; compôs trilha sonora para vários filmes experimentais; pesquisou e tocou a música das montanhas do Marrocos, a "joujouka"; absorveu certas influências do rock e eletrificou sua banda, com a guitarra elétrica de James Blood Ulmer e um baixo elétrico; gravou com os guitarristas Jerry Garcia, do Grateful Dead, e Pat Metheny, representante da nova vertente do folk-jazz; tocou e gravou com orquestras de câmara e sinfônicas.

Seu último CD, Sound Grammar, foi eleito o melhor álbum de 2006 pela Jazz Times, premiado com o Lifetime Achievement Award no Grammy de 2007 e lhe valeu o Prêmio Pulitzer de Música. Coleman estabeleceu um novo conceito, a música "harmolódica", que vem explicando detalhadamente nas últimas décadas sem que muita gente a entenda. Em São Paulo tocará com contrabaixo acústico (Tony Falanga), contrabaixo elétrico (Albert MacDowell) e a bateria do filho Denardo, que o acompanha há 44 anos, tendo começado aos dez.

A afirmação da individualidade num mundo massificado talvez seja o conceito-chave para se entender a música de Ornette Coleman. Em suas próprias palavras: "Comunismo, socialismo, capitalismo e monarquia no mundo mudaram e estão mudando em favor de uma relação mais verdadeira da democracia do indivíduo. Toda pessoa que teve uma experiência democrática por nascimento ou passaporte sabe que não existem ódios ou inimigos na democracia, porque todo mundo é um indivíduo. Aprender, fazer, ser - tudo isso faz parte do diálogo para aperfeiçoar, proteger e cuidar da crença da existência como uma individualidade em relação a todos os demais, física, mental e espiritualmente - o conceito do eu."

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