Fabio Motta/AE
Fabio Motta/AE

O som cheio de afeto de Joyce e Tutty

Juntos há 33 anos, a cantora e o baterista falam de amor e do novo CD, o primeiro assinado [br]em dupla

Roberta Pennafort, O Estado de S.Paulo

21 de fevereiro de 2011 | 00h00

Em 1977, a carioca Joyce era uma cantora em ascensão, chamada a fazer uma temporada de seis meses em Nova York. Lá, conheceria Tutty Moreno, baterista baiano do qual muito ouvira falar, que vivia e trabalhava no ambiente jazzístico da cidade e não queria saber de voltar ao Brasil.

Encontraram-se na música, apaixonaram-se, juntaram instrumentos, apresentaram as filhas (duas dela, Clara e Ana, que haviam ficado no Rio, uma dele, Kadi, que morava em Nova York, e tiveram mais uma, Mariana), fixaram residência conjunta no Rio e foram felizes para sempre. De lá para cá, participaram sempre do trabalho do outro - a bateria de Tutty esteve nos discos de Joyce que se seguiriam à volta ao Brasil -, mas o primeiro CD assinado pelos dois só sai agora no Brasil. Foi feito para o selo inglês Far Out, e lançado na Europa em 2007, aos 30 anos de casados.

Joyce & Tutty Moreno - Samba-Jazz e Outras Bossas (Biscoito Fino) é uma confirmação do (bom) gosto musical que uniu, desde os dias de Nova York, os dois garotos que amavam "a bossa nova, o jazz, o samba e toda a música criativa", como escreveram no encarte do CD.

Além de dez faixas assinadas por Joyce, cinco delas sem letra - nestas, seus vocalises certeiros entram como instrumento -, tem Moacir Santos/ Raymond Evans/ Jay Livingstone, em April Child; Tenório Jr., instrumental; Luiz Reis/Haroldo Barbosa, na irresistível Devagar com a Louça; Baden e Vinicius, no clássico Berimbau. Tudo bem suingado, samba com pitada de jazz, como no título do CD. Os arranjos são de Joyce, Dori Caymmi e do saxofonista Nailor Proveta. Contando com Joyce (ao violão) e Tutty (bateria e sax), eram dez músicos no estúdio.

Como parceiros Joyce teve Zé Renato e Paulo César Pinheiro, este na apropriada Compositor, que discute o assunto do momento: a flexibilização dos direitos autorais, da qual Joyce é opositora de primeira hora. Em Bodas de Vinil, ela brinca com os 30 anos juntos: "Bodas de som/ é como um sonho bom".

Referências. Tutty volta a um de seus primeiros instrumentos na instrumental Feijão Com Arroz. Ele era dos sopros (primeiro foi o trompete, depois o sax) até ver Edison Machado tocar. O inventor do samba no prato da bateria é uma das referências do disco.

A ideia inicial nem era exatamente essa, mas acabou saindo um tributo a tudo que eles amavam nos anos 60. Joyce compôs Garoto lembrando de um tempo em que não tinha aparelho de TV em casa, e ouvia o irmão tocando as criações do violonista que deixava "tudo moderno, do choro ao samba-canção". Cita o Trio Surdina, Luiz Bonfá, João Gilberto.

"Na adolescência, tivemos as mesmas influências, então resolvemos homenagear os nossos ídolos, aqueles que consolidaram nossa formação musical", conta Tutty, que tem 63 anos, um a mais do que Joyce.

Ele fala com bastante acurácia das lembranças mais antigas: "O primeiro impacto foi com a música. Achei que ela seria esnobe, aquela coisa de Ipanema, mas nada... Não era uma cantora só, era um músico na minha frente", rememora. "Eu fazia show antes dela e todo mundo ia embora. Eu ficava lá, num cantinho, olhando. Em duas semanas, raptei ela pro meu apartamento."

Joyce tinha dele a imagem de um baterista dos tropicalistas. Tutty havia trabalhado com os baianos anos antes, gravado com Caetano Veloso, Gilberto Gil, Maria Bethânia, Gal Costa. Participara, por exemplo, dos discos Expresso 2222 e Transa. Para ela, já os contatos iniciais foram igualmente desnorteantes - tanto que foi necessário sentar logo o então marido dela, e lhe explicar a situação inusitada (os dois garantem que ele foi "de uma dignidade exemplar" e que todos seguiram amigos).

"Tutty era famosérrimo, tive um super pé atrás", brinca a cantora. "Fiquei louca vendo ele tocar. Era completamente diferente de tudo. Depois vim a saber que ele tinha sido saxofonista antes, o que explicou muita coisa. Eu tinha um pensamento musical bastante claro na minha cabeça que eu não tinha conseguido realizar aqui no Brasil, e ele também. Acabou que ficou uma marca do meu trabalho esse encontro musical da gente."

Atraso. A entrevista foi no confortável apartamento no alto do Humaitá, na zona sul do Rio, sob o Cristo Redentor, onde há 15 anos o casal compõe, canta, toca e recebe amigos, filhas e os hoje seis netos.

Joyce conta que foi preciso esperar para lançar o CD no Brasil não só para não atrapalhar a distribuição no exterior, mas também por conta do sucesso de Slow Music, o último, de 2009, indicado para o Grammy Latino. A turnê rodou Brasil e Europa, para onde o casal volta agora em março.

Como outros que têm mais cartaz fora do Brasil, Joyce, "artista completa" saudada internacionalmente, cantora, violonista e compositora, contabiliza ao menos cinco trabalhos feitos desde os anos 90 para o mercado externo. Vai tirando um a um da estante da sala os CDs vendidos longe daqui, no Japão e em países europeus. Sorte dos gringos, pior para nós.

"FICOU UMA MARCA DO MEU TRABALHO NO ENCONTRO MUSICAL DA GENTE." JOYCE

SAMBA JAZZ E OUTRAS BOSSAS

Biscoito Fino

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