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O sol sem peneira

Não teria sido preciso que houvesse uma data redonda - os 70 anos de sua morte, neste 25 de fevereiro - para que outra vez se renovasse a admiração que tenho por Mário de Andrade.

HUMBERTO WERNECK, O Estado de S.Paulo

22 de fevereiro de 2015 | 02h07

Admiração antiga, pouco menos que sessentenária, do tempo em que, no colégio, dei com aquela voz dissonante numa antologia escolar, empoeirada seleta na qual Mário figurava como benjamim literário, em meio às teias de Graça Aranha e num mato de que, quando saía coelho, era Coelho Neto.

Nem se tratava de um Mário da melhor safra, mas em minha memória ficaram tatuados uns versos de Manhã, poema já de sua alta juventude (de 1928, quando ele andava pelos 35 anos) em que li bizarrias quetais: "A gente se quisesse beijava o chão sem formiga".

Eu ainda não conhecia o achado verbal de Manuel Bandeira, mas julguei ver ali ilustrações do "rúim esquisito" (assim mesmo, carregando a tônica no U), por ele nomeado. Mexeu comigo: então aquilo era poesia? E não é que era? Fiquei que nem João Cabral, ginasiano no Recife, descobrindo-se poeta ao topar com as "esquisitices" de Alguma Poesia, o livro de estreia de Carlos Drummond de Andrade.

Na esteira daquele poema de Mário me vieram modernistas ainda maiores do que ele, a começar por Bandeira e Drummond - e muito, muito mais Mário de Andrade, em verso e prosa. O romancista de Amar, verbo intransitivo e Macunaíma. O contista de Atrás da catedral de Ruão e Frederico Paciência. O ensaísta interessado em tudo. Espantoso que alguém, tendo vivido apenas 51 anos, tenha produzido tanto, o bastante para que, sete décadas depois, volta e meia ainda saltem inéditos de seus arquivos. Joias póstumas como O turista aprendiz, diários de viagens que Mário fez ao Nordeste e ao Norte do País no final dos anos 1920, preciosidade que só pudemos conhecer em 1977 e que por algum inaceitável motivo está há muito esgotadíssima.

Boa parte da imensa produção de Mário de Andrade, aliás, é hoje inencontrável, e este é o caso da maioria das coletâneas de sua correspondência. São uns vinte volumes, por aí - e nem de longe abarcam toda a escrevinhação postal desse carteador inigualável. Do que já foi publicado, o melhor são as cartas que ele trocou com Bandeira, organizadas por Marcos Antonio de Moraes num catatau de 735 páginas, e com Drummond, postas em outras 613 por Silviano Santiago.

Mas esses dois são apenas os mais graúdos entre miríades de correspondentes. Mário, como Otto Lara Resende mais adiante, não deixava carta sem resposta. Com sacrifício de sua própria obra, conforme disse a Drummond, ele investia tempo e energia num quixotesco apostolado epistolar. Tento imaginar o que seriam, a anos-luz da internet, envelopes a viajar por um Brasil inda bem tosco, nos trilhos de vagaroso, instável e sobretudo incerto serviço de correios.

Aqui e ali, valeu a pena. No início dos anos 1940, por exemplo, chegou a sua casa, na rua Lopes Chaves, em São Paulo, um livro de contos de um adolescente de Belo Horizonte - e o requisitado homem de letras deixou mil afazeres para dar papo, que seria longo, a um tal de Fernando Tavares Sabino, a quem, já na primeira linha da primeira carta, recomendou que abreviasse o nome literário. Sabino publicou suas cartas de Mário. Quantos correspondentes, ou seus herdeiros, ainda não o fizeram?

A boa notícia é que muita coisa de Mário, reeditada e mesmo inédita em livro, poderá sair neste ano em que ele é o homenageado da Flip, a Festa Literária Internacional de Paraty. Outra boa nova: em 1º de janeiro de 2016, toda a sua produção cairá no domínio público, podendo editá-la quem quiser. E quem sabe poderemos finalmente ler uma biografia da figura mais influente da cultura brasileira no século 20, algo que os pudibundos donos de Mário vêm há anos dificultando, temerosos, em pleno século 21, de que se faça luz sobre o segredo de polichinelo que é a homossexualidade do escritor. Ingloriamente escamoteada pelos detentores do cofre, essa componente essencial de sua pessoa, de resto transparente naquilo que ele escreveu, corre assim o risco de se agigantar nas murmurações, numa hipertrofia, esta sim, capaz de falsear e trair o personagem.

Ei, pessoal, que tal desistir de tapar com peneira o grande sol Mário de Andrade?

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