O simples prazer de tocar e ouvir

Les Musiciens de Saint-Julien implodem alguns dos falsos dogmas sobre a interpretação de época

Crítica: João Marcos Coelho, O Estado de S.Paulo

21 Julho 2010 | 00h00

A música clássica só voltará a ser viva e pulsante se os músicos perderem o medo e voltarem a ser não só intérpretes, mas improvisadores e coautores. O respeito excessivo pelos compositores; a reverência quase bíblica às "obras"; a obsessão com as intenções originais do compositor; a prática da música como ritual; e o vício de ouvir repetidamente um pequeno número de obras. Estes são os obstáculos ideológicos para os músicos recuperarem a perdida liberdade ao fazer música. A "ideologia canônica do músico clássico" é denunciada pelo oboísta norte-americano Bruce Haynes em The End of Early Music (Oxford, 2007). E o prazeroso concerto do grupo francês Les Musiciens de Saint-Julien na quarta-feira, dia 14, na Sala São Paulo, é a prova de que dá para sair desta camisa-de-força em que se meteram os músicos e ao mesmo tempo abandonar a obsessão neurótica da música historicamente informada.

Recriando livremente canções populares dos séculos 14 a 18, recolhidas e harmonizadas por nomes ilustres como Chopin, Liszt, Bizet e Ravel, os cinco músicos liderados por François Lazarevitch quebram paradigmas e atingem o público de modo imediato. Todos sentem-se contagiados pela alegria de fazer música, viva, pulsante. E olhem que no palco havia instrumentos estranhos, como a viola de roda e a gaita-de-foles. E ao lado deles, o moderníssimo piano Steinway de concerto e um violino. É isso mesmo. Eles retiram a música do museu e a tornam viva e pulsante porque atuam como intérpretes e também improvisadores e coautores. O espetáculo repete literalmente o ótimo CD lançado na França pelo selo Alpha La Veillée Imaginaire. E joga no lixo questões como fidelidade à obra, incompreensível neste repertório.

A questão é simples: por muito tempo as canções folclóricas foram marginalizadas. No século 19 os acadêmicos as trataram "como se fossem obras escritas", escreve Yvon Guilcher no excelente texto do folheto do CD. Esqueceram que elas eram de natureza oral e quiseram "melhorá-las, aperfeiçoá-las", pretendendo chegar à versão original - algo que não existe.

Estas flores campestres foram transferidas, no século 19, para microjardins de apartamento, digamos. A burguesia trocou as gaitas-de-fole e as violas de roda pelo piano e o violino. Domesticou-as. "Esta gravação", diz Yvon Guilcher, "reflete deliberadamente as ambiguidades do interesse burguês" por estas músicas a partir do ponto de vista de uma "síntese estética". Ou seja: a gaita-de-fole convive numa boa com o piano. "Les Musiciens de Saint-Julien fazem música não para o historiador das sociedades, e sim ao melômano de hoje em dia. E a intenção é gerar o prazer que estas músicas nos dão. Isso é inédito. E de rara qualidade".

Inédito e rara qualidade. Palavras adequadas ao belo espetáculo na Sala São Paulo. Destaque para o virtuosismo de Lazarevitch à gaita-de-foles e para a vibrante Anne-Lise Foy na viola de roda; e, claro, para a expressiva soprano Françoise Fuget.

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