O silêncio dos conscientes

O governo Lula está em seu último ano, mas no pensamento de muita gente parece que o tempo não passou. Quem o idolatrava desde antes se dividiu em dois grupos. O maior é o dos que perdoam tudo por causa de sua popularidade, que seria sustentada basicamente pelos programas sociais, e acham que ele fez mais que podia. O grupo menor é o dos que se sentem frustrados porque ele não fez o que prometeu durante 20 anos e, em especial, viram que a corrupção continua à toda. Nenhum dos dois grupos mudou seu modo de pensar, mesmo diante dos fatos. Os fãs dizem que ele fez o primeiro governo na história a olhar para os pobres. Os traídos resmungam, mas não reconhecem que estavam errados quando diziam que o PT não era nem cínico nem corrupto.

DANIEL PIZA, O Estado de S.Paulo

11 de abril de 2010 | 00h00

A paralisia mental não é só dos antigos apoiadores, que se diziam e ainda se dizem "de esquerda", embora o próprio Lula já não se diga. É também dos que antes o repudiavam. Neste caso, a maioria simplesmente diz que Lula mudou para melhor - ou seja, não incomodou o mercado, até o ajudou bastante - e desdenha a questão ética, afinal todos os políticos são assim mesmo, no Brasil e no mundo. Nesta maioria está a maioria dos brasileiros, que antes só lhe davam 30% dos votos e hoje o aprovam em 73% porque a economia melhorou, o desemprego caiu, a nação tem sido elogiada, etc. E há uma minoria, "de direita", que critica o governo Lula quase sempre de um ponto de vista personalista, que o xinga de analfabeto e autoritário e acha que todo o sucesso de seu governo foi concebido antes dele ou a despeito dele.

Os fatos, como diria lorde Keynes, deveriam ter mudado essas ideias. Intelectuais conhecidos chegaram a dizer que o escândalo do mensalão, por exemplo, era uma crise "sem importância". Mas um sujeito e um partido que constroem sua fama em torno da palavra "ética" devem ser no mínimo cobrados de modo igual. No entanto, a sucessão de falcatruas multipartidárias e a mise-en-scène da Polícia Federal anestesiaram a indignação. O conluio com o PMDB de Sarney et caterva, que na semana passada derrubou a ação popular que queria proibir candidatos com ficha suja, não os leva às tribunas de protesto. A impunidade de Waldomiros e Delúbios não gera manifestos e passeatas. Já os articulistas que sempre pintaram Lula como camarada-mor do socialismo democrático e agora se queixam, como que surpresos, não conseguem entender que não tenha mudado o "modelo econômico".

Lula sempre disse que mudaria o tal modelo, mas o maior trunfo de seu governo foi não ter mudado, ou melhor, foi tê-lo aprimorado. Câmbio flutuante, superávit primário, metas de inflação e aumento das reservas seguiram com apuro ainda maior, para alegria de FMIs e agências de investimentos, graças à autonomia branca concedida ao BC de Henrique Meirelles. E a política de crédito foi tão superior que se converteu num fator de popularidade mais determinante que o Bolsa Família, outro aprimoramento do que existia. Articulistas tucanos que dizem que o governo FHC foi uma ilha de "racionalidade" em nossa história não querem admitir, mas a aprovação do governo Lula, para desgosto de esquerda e direita, tem tudo a ver com isso - inclusive com o empuxo econômico dado pelas privatizações.

O resultado é que temos um governo muito mal analisado, que por isso mesmo navegou sobranceiro no segundo mandato. Os traídos e os detratores foram se cansando, vergados pelas pesquisas. Aqui e ali, diante de um pequeno escândalo ou outro, ou de algumas recaídas populistas contra a "zelite" e a "imprensa burguesa", críticas foram feitas, mas sem efeito. Os anos Lula geraram uma pasmaceira geral, calando até os que se diziam conscientes das mazelas nacionais. Nenhuma reforma séria foi a cabo; a renda apenas recuperou o valor de uma década atrás; a maioria continua sem ensino de qualidade, sem esgoto nem justiça, mas pagando impostos absurdos; a ladroeira em todos os níveis passou a ser tratada como deslizes da natureza humana ou meras praxes como caixa 2; a estatização e a defesa de países autoritários voltaram ao discurso; o presidente desdenha das instituições e leis quase todo dia. E quase nada coerente se ouve. Durma-se com um silêncio destes.

De la musique (1). O trânsito e o cinza de São Paulo se abstraem quando ouvimos o CD dos Noturnos de Chopin por Nelson Freire (Decca). Ele é um intérprete famoso por suas delicadezas, pelas passagens sutis, mas os momentos que pedem estrutura, vigor, estão todos ali. Nos Noturnos 7, 13 e 16, por exemplo, a mão esquerda costura uma rede de graves, um denso rendilhado, que dá profundidade à superfície lírica. Se Mozart levou o canto para a música sinfônica, Chopin o levou para a música de câmara; não por acaso é uma das matrizes das grandes canções populares do século 20.

De la musique (2). Pense, por exemplo, em Bola de Nieve, retratado no documentário de Sanchez Montes exibido no festival In-Edit. Ignacio Villa estudou muitos anos em conservatório antes de começar a tocar em boates e rádios, como as canções do grande Lecuona (estourou no México, acompanhado por Rita Montaner), e se influenciar pelo jazz, por americanos como Gershwin (o que também ocorreu com seu contemporâneo Benny Moré). Disso tudo desenvolveu um estilo próprio de piano e canto, com harmonias sofisticadas e um sabor tristemente alegre, que marca quem o escuta.

De la musique (3). Nos divertimos muito vendo outro documentário musical, Uma Noite em 67, de Renato Terra e Ricardo Calil, na abertura do festival É Tudo Verdade. É sobre o festival da Record que teve como finalistas Ponteio, de Edu Lobo, Roda Viva, de Chico Buarque, Domingo no Parque, de Gilberto Gil, e Alegria, Alegria, de Caetano Veloso - os dois primeiros formais e de violão, os dois segundos de roupas coloridas e guitarras elétricas. O formato é simples, alternando imagens da época com depoimentos recentes dos cantores, mas generoso em detalhes. Vemos como aquilo foi acima de tudo um programa de televisão, com entrevistadores à beira do ridículo, e com o modo blasé como Chico e Caetano - hoje dois milionários senhores - relembram tudo, Chico esquecendo a letra e Caetano se mostrando chateado porque não a considera sua melhor nem mais representativa canção.

Gil se abre mais, contando de sua agonia interna com aquelas torcidas ideológicas (dois meses antes, participou de passeata contra a invasão ianque da guitarra elétrica), e seu pavor de subir ao palco, ele que é ótimo de palco. Só acho que faltou atar algumas pontas, como verificar que as quatro canções se parecem muito, para além das histerias opostas que causaram. Todas têm um ritmo narrativo, com variação de andamentos até acelerar no final e com letras que comentam as próprias melodias. A influência dos Beatles, nos casos de Gil e Caetano, entra mais nas atitudes e nos arranjos. É tudo tão datado e tão vital ao mesmo tempo.

Rodapé. A não-ficção cresce nos cinemas e também nas livrarias. Há muito atraso para tirar ainda, mas a publicação de A Caminho de Wigan Pier, de George Orwell, complementa a edição do melhor de sua não-ficção, a qual se iniciou com Depois da Baleia e foi seguida por Na Pior em Paris e Londres e Homenagem à Catalunha. Não se fala em jornalismo literário sem se falar em Orwell, e é lamentável que trechos imprecisos e opiniões desacertadas sejam vistos como obstáculos graves.

O que Orwell tinha como poucos no jornalismo - nem mesmo Gay Talese o iguala - era o dom da observação, do retrato humanista livre do sentimentalismo e confessionalismo que vemos tanto nas tentativas brasileiras no gênero. Ao relatar o cotidiano de mineiros na região de Manchester, observa ironicamente que, antes de descer, precisavam engatinhar por túneis tão longos quanto "a distância entre a Ponte de Londres e Oxford Circus". Informação com dose sábia de subjetividade não é para qualquer um.

Cadernos do cinema. Se é para ser infanto-juvenil, que seja declaradamente: Como Treinar seu Dragão, da Dreamworks, é mais divertido que Avatar. Há uma qualidade no desenho, uma expressividade nas figuras e paisagens, que o 3D acentua em vez de escantear. A história é trivial, o menino viking que descobre que os dragões podem ser amigos, mas as sequências, em especial os voos, não se bastam no efeito; nada é "over", piegas ou confuso.

Por que não me ufano. Conservadores saudaram a pesquisa que mostrou que os brasileiros acreditam em Deus e Darwin como se isso demonstrasse sabedoria. É razoável dizer que a existência comprovada da evolução das espécies não significa que não se possa crer em Deus. Mas o fato é que Darwin nunca disse isso; disse que a Terra é bem mais antiga do que afirmam as escrituras e que o homem e o macaco têm ancestrais comuns. E isto ofendeu e ainda ofende os religiosos, não a eventual descrença em Deus. Prova disso é esse filme chamado Criação, que, segundo li, põe o biólogo rezando pela filha numa igreja. Não há registro algum. Mas os conservadores ficam aflitos com a ideia de que alguém possa fazer o bem sem crer em forças sobrenaturais.

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