O sexto elemento

George Martin foi para os Beatles o que Nigel Godrich é para o Radiohead. A frase é capaz de despertar a ira de puristas e a fé dos fanáticos. E de certo, qualquer comparação entre as duas bandas soa reducionista na era em que grupos de rock são apenas um entre os diversos fatores da equação pop. Mas assim como o quinto Beatle, produtor daqueles discos visionários, o sexto membro do Radiohead tem suas digitais impressas na estética do rock contemporâneo.

ROBERTO NASCIMENTO, O Estado de S.Paulo

19 de novembro de 2012 | 02h07

E deixando de lado as vaidades - e também o fato de que Sir Paul McCartney o escolheu para produzir Chaos and Creation in the Backyard, de 2005 -, seu trabalho em OK Computer e Kid A, os seminais discos do Radiohead, apadrinhou muito do que foi chamado de "art rock" ou "pós-rock" no mainstream da última década: uma estética de canções vestidas em devaneios experimentais, com ritmos quebrados, pitadas de música eletrônica e letras distópicas.

As colaborações com Thom Yorke e Jonny Greenwood certamente encabeçam o currículo de Godrich, mas seus outros projetos, com o próprio Yorke no supergrupo Atoms For Peace e em sua recém-formada banda, Ultraísta, merecem atenção. Este último rendeu um bom disco de estreia, com ecos de krautrock e eletrônica, no mês passado.

"Não posso dizer que sabia o que estava buscando", explica Godrich, por telefone, de Londres, em entrevista ao Estado. "Queria fazer música com meus amigos, entre os períodos de trabalho com o Radiohead. E o disco do Ultraísta acabou sendo um retrato de um pequeno momento produtivo em minha vida. Aqueles períodos em que tudo funciona, criativamente, por um breve espaço de tempo", explica.

Uma faixa padrão do Ultraísta, como Smalltalk, começa com uma levada de bateria nos moldes de Can, os heróis do krautrock, o seminal rock alemão dos anos 70. O ritmo é cíclico, minimalista, suingado. Logo entram alguns detalhes eletrônicos e a voz de Laura Bettinson, pequena, mas cativante, cantando melodias alongadas. Como explica Godrich, ambição não é a força motriz do Ultraísta, e o que transparece é um apanhado de canções despretensiosas, feitas com bom gosto.

"A ideia não era fazer algo baseado em krautrock, como toda crítica tem apontado", conta. "Estávamos pensando em música africana, feita com uma estética eletrônica, baseada em repetição. Era isso o que o Can, o Neu! e outras bandas de krautrock tentavam fazer. Nós trilhamos a mesma estrada, e por coincidência, chegamos em lugares semelhantes, através das mesmas escolhas".

O apreço por influências de música dançante feita com estética eletrônica de vanguarda é responsável pelas influências mais nítidas no som do Radiohead, nos últimos anos. Tanto no disco solo de Thom Yorke, The Eraser, de 2006, quanto no último da banda, King of Limbs, ouvem-se ecos de vertentes de eletrônica autoral, como os beats do produtor de hip hop instrumental, Flying Lotus e as encruzilhadas de pós-dubstep, em que se encontra o trabalho de Four Tet. O Atoms for Peace, supergrupo que tem Godrich, Flea, dos Chili Peppers, Yorke e o percussionista brasileiro Mauro Refosco, e lança seu segundo disco no ano que vem, também se baseia nestes moldes. "Acho que as coisas mais inovadoras de hoje em dia acontecem no trabalho de caras como Fly Lo e Four Tet. Há um limite para o que pode ser feito com guitarras e uma banda. Por isso, não há guitarras no Ultraísta", explica.

Guitarra. Sendo o próprio Godrich um guitarrista, e o Radiohead, a banda de Jonny Greenwood, um dos grandes da guitarra moderna, por que a escolha? "Porque tudo já foi feito com a guitarra. Tanto que tudo o que é tocado hoje em dia é sempre uma recombinação de coisas do passado. No momento, a guitarra simplesmente não me inspira. Talvez ela volte a ser interessante no futuro, mas, por ora, as texturas eletrônicas sem a guitarra são mais interessantes", explica.

Trata-se de um pensamento comum entre produtores que trilham na vanguarda do rock há mais de 15 anos. E mesmo que o Ultraísta - assim como o último álbum do Radiohead e o Atoms For Peace - soe, em parte, como o trabalho de um veterano levemente defasado em busca de uma estética atual, não há como ignorar a qualidade de seu approach. E, ao se ouvir o disco, fica nítido o quanto o seu toque moldou o trabalho do Radiohead.

"Quando eu comecei, a indústria era muito diferente. Você tinha que ir a um estúdio, trabalhar como aprendiz, se quisesse aprender a produzir. Hoje as pessoas fazem isto de casa. Mas foi assim que eu conheci Thom e Jonny. Trabalhei em um estúdio por quatro anos, e eles me pediram para gravar algumas coisas deles", conta.

Como funcionou o processo de gravação de uma banda que tem dois músicos brilhantes, outros competentes e um produtor visionário? "Eu era jovem e ambicioso. E eles me deram corda. Tínhamos a mesma idade, nos empolgávamos com as mesmas coisas. E eu tinha todo o know how tecnológico. Deu certo para todo mundo. Um monte de caras que fizeram um colégio particular e eu, que venho de um background diferente. Foi uma combinação incomum", conta.

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