Ivo Lopes Araujo/Divulgação
Ivo Lopes Araujo/Divulgação

O sertão que não para no tempo

Helvécio Marins e Clarissa Campolina falam sobre seu 1º longa, Girimunho

Flavia Guerra, O Estado de S.Paulo

29 de setembro de 2010 | 00h00

"Isso não falo. Não sei mentir. O que vocês quiserem que eu fale da minha vida, falo. Mas mentira não conto. Não fui criada para ser mentirosa", disse Maria do Boi aos diretores de Girimunho, filme que ela protagonizava e que estava em plena fase de filmagens após sete anos de pesquisa e muitos de preparação.

A tal frase, dita com propriedade por Maria do Boi, autoridade nas tradições musicais africanas da pequena e remota São Romão, no Norte de Minas Gerais, não soaria mais que uma bela declaração não fosse um porém: Maria não era personagem de um documentário, mas sim de uma ficção. Escolhida para estrelar o filme ao lado de Bastu, especialista na "arte de ser feliz" de São Romão, Maria do Boi era capaz de fazer de tudo, até tocar tambor aos 83 anos. Mas inventar história, jamais.

Já Bastu, também com 83 anos, é daquelas que acreditam que um peixe dourado a protege. Em conversa com o Estado, disse: "Conheço São Paulo. Ainda não fui de avião, mas já fui em sonho. Vi tudo. E achei lindo. Tanta luz."

Era essa dualidade, rica e desafiadora, que Helvécio Marins e Clarissa Campolina tinham à frente quando começaram a filmar em agosto seu primeiro longa-metragem, agora em fase de montagem. Equilibrar duas personagens tão diferentes e tão representativas de um tempo e um lugar era uma bela pedra no caminho desses dois jovens diretores companheiros de Teia, o coletivo criativo de Belo Horizonte que vem galgando espaço no Brasil e exterior por sua forma peculiar de contar histórias.

A ideia de Girimunho é muito simples. Filmar a trajetória de Bastu e Maria de forma muito realista, quase documental, mas fazer disso uma ficção. Ainda que Maria não fale mentira, que Bastu "embarque na fantasia" e que o tempo do filme tenha sido pautado pelo tempo das personagens, Helvécio e Clarissa fazem questão de ressaltar: "É ficção. Tem curva dramática."

A já "clichê" curva dramática, a que se referem sempre os "fazedores de roteiro", contém o conflito de cada personagem. No caso das duas protagonistas, que vão na contramão da receita de sucesso de bilheterias fáceis, a idade avançada não as impede de continuar buscando novos caminhos. "Maria enfrenta o drama de encontrar um herdeiro para as tradições musicais que aprendeu com os pais. Ela vê um mundo em transformação e precisa deixar seu legado", comenta Clarissa. "Já Bastu encara o drama de ter perdido o marido Feliciano, um ferreiro respeitado na cidade, e precisa dar novo sentido na vida depois desta perda."

Não pense que se trata de um filme sobre o tempo que se vai com duas idosas. É o embate entre o tempo que foi, o que é e o que virá que garante frescor a Girimunho. O dia a dia de Bastu e Maria é constantemente contaminado com o hoje. "Os netos, adolescentes, vivem com ela e representam a vida moderna que se instala, muito rapidamente, em rincões do Brasil em que até pouco tempo tudo parecia parado", diz Helvécio, que conheceu Bastu há oito anos, quando viajava pelo Rio São Francisco com o projeto Cinema no Rio, que exibe filmes em uma tela armada para populações ribeirinhas.

Rosa. Há quem diga que o filme surge para atualizar o sertão de Guimarães Rosa e, mais que isso, projetá-lo na telona. Mas os diretores recusam esse rótulo. "É claro que o universo de Rosa está presente o tempo todo no filme. É o universo que ele retratou. É parte de nós. Quando ouvimos Maria e Bastu, é como se ouvíssemos personagens de Grande Sertão. É linda a forma como o sertanejo cria novas palavras."

Por falar em neologismo, Girimunho é também um deles. "Estava viajando com o Cinema no Rio, gravando vídeos que são exibidos toda noite antes das sessões, quando ouvi um menino dizer: "Olha, um girimunho." Perguntei o que era. E ele: "Uai, é um redemoinho pequeno."

Assim como tantas outras palavras novas, Helvécio escreveu "girimunho" em seu bloco de anotações. "Quando procurávamos um título para o projeto, folheando os bloquinhos, encontrei de novo "girimunho". Disse: "Taí. Temos um nome.""

Assim como as pequenas grandes revoluções de um girimunho, tudo gira e muda rapidamente em um sertão que se recusa a permanecer cristalizado. "É muito bonito o sertão de Rosa, queremos acreditar que estará sempre ali. Mas está mudando. Nem para o bem nem para o mal. Mas para o futuro. Isso não é um drama para essas pessoas. É natural. É este tempo, o novo que encontra o velho, que quisemos filmar, filmamos. Agora é montar e mostrar."

QUEM SÃO

HELVÉCIO MARINS E CLARISSA CAMPOLINA

CINEASTAS

Helvécio Marins, de 37, e Clarissa Campolina, 30, são dois diretores mineiros. Depois de sólida carreira como curta-metragistas, dirigem seu primeiro longa de ficção. Têm prêmios como melhor curta no Festival de Brasília e passagem por festivais como Locarno e Sundance.

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