Eddy Risch/Efe
Eddy Risch/Efe

O sentimento de estranheza de Gustav Mahler

Claudio Abbado rege a Sinfonia nº 4, momento de transformação na linguagem do compositor austríaco

João Luiz Sampaio, O Estado de S.Paulo

29 de dezembro de 2010 | 00h00

"Minha quarta sinfonia vai parecer estranha a você; nela está aquela parte de mim que você menos compreende, que apenas um pequeno grupo de pessoas será capaz de entender um dia." Mahler sabia bem, como mostra esta carta de dezembro de 1901 a Alma Schindler, sua futura esposa, haver na sua obra elementos que a tornavam estrangeira ao gosto de sua época. E a Sinfonia n.º 4 talvez tenha sido uma das que mais sofreram com certa incompreensão generalizada.

Para um crítico da época, era a única das obras do compositor que poderia ser ouvida pelo simples prazer da boa música, sem preocupações com os conceitos filosóficos que ele costumava acoplar à sua música - o que, para o crítico Norman Lebrecht, seria o mesmo que comer uma salada sem molho, ou seja, diminuir, e muito, a intensidade da experiência da escuta. Mesmo no século 20, Adorno, por exemplo, se referia à sinfonia como um dispensável retrocesso.

Grandes gravações, nesse sentido, oferecem leituras referenciais das possibilidades estruturais e expressivas de uma música - e, ao fazer isso, implodem equívocos históricos, abrem nossa mente em direção a compreensões menos superficiais; nos ajudam a entender melhor um compositor, seu mundo e, por que não, o nosso próprio. É o que faz o maestro Claudio Abbado no registro em DVD da Sinfonia n.º 4 do compositor, com a orquestra sinfônica do Festival de Lucerna e a mezzo soprano Magdalena Kozena (selo Euroarts).

Na sinfonia, Mahler evoca Haydn, Mozart, Beethoven. Retrocesso? A ironia com que ele trabalha esse retorno ao passado diz que não. Rupturas bruscas, repetições aparentemente sem sentido estrutural, citações, alusões - todos esses elementos servem, por meio do humor e da ironia, a um compositor que tenta mostrar, a partir da narrativa de uma vida comum, o preconceito da sociedade, sua relação conflituosa com a natureza e a crueldade e a dor que se escondem por trás da ideia de uma suposta vida no céu.

Às vésperas de completar 80 anos, Abbado rege o que quer - e com a orquestra que escolher. Sua integral de Beethoven com a Filarmônica de Berlim tem poucos rivais entre os registros contemporâneos; e, em Lucerna, ele vem formando uma integral consistente e reveladora das sinfonias de Mahler.

Aqui, busca um todo integrado que surge justamente dos elementos contraditórios dessa música, com atenção especial à clareza e à transparência nas texturas. A sinfonia é um ponto de transformação na linguagem mahleriana - e, nesse sentido, é feliz a escolha do ciclo Ruckert Lieder para completar o DVD. Nas canções, escritas pouco após a sinfonia, Mahler avança ainda mais nesse sentido. E, com uma delas, Ich Bin Der Welt, define o que para muitos é o seu credo artístico e humano ao falar do desapego, do sentimento de estranheza perante o mundo à nossa volta.

Esse desapego, no entanto, pouco tem a ver com resignação. Não se sentir parte do mundo não é negá-lo mas, sim, estabelecer com ele uma relação conturbada e pessoal, por meio da arte. Em outra carta a Alma, o compositor escreve, falando da relação entre música e realidade: "É preciso aceitar que a única realidade verdadeira no mundo é o que está dentro de nós, o que somos - e que o mundo real não é mais que um contorno, uma sombra sem valor." Que relação tão pessoal e individualista de um homem com seu mundo e sua criação seja capaz de falar tanto sobre nós mesmos, é o mistério da arte.

MAHLER:SYMPHONY 4/RÜCKERT LIEDER

Claudio Abbado

Orquestra do Festival de Lucerna

Euroarts, R$ 92

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