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O sentido da vida

Chinês usa sabedoria oriental para tratar do absurdo da existência

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

02 de setembro de 2011 | 00h00

Dois novos filmes argentinos, e no mesmo dia - o conto chinês interpretado por Ricardo Darín e uma encantadora comédia urbana sobre os desencontros que levam ao amor, Medianeras, de Gustavo Taretto. O público vai identificar em ambos as virtudes que costumam ser atribuídas ao cinema do país do Prata. Diálogos, interpretações, realização, tudo funciona a contento, e os personagens colocam na tela as caras da classe média. Não se trata de uma massa uniforme.

De certos atores, diz-se que eles dão justamente isso, uma cara - seja a um movimento ou a uma cinematografia. Selton Mello, no Brasil, deu a cara ao cinema da chamada "Retomada". Darín é a cara do novo cine argentino. Ele possui um charme viril, sem ser belo. Como ator, é sólido, mas minimalista. Representa, por assim dizer, o mínimo, e não vai nisso nenhuma tentativa de depreciação, pelo contrário. Darín tem sido comparado a Humphrey Bogart, mas se olhar bem, você verá que se assemelha muito mais, no comportamento e até no físico, a outro ícone de Hollywood, Clark Gable.

Um Conto Chinês começa... Onde? Na China, claro, num lugar distante, um lago no qual um homem fala para uma mulher palavras que o espectador não entende, porque não são traduzidas nem precisam, porque a intenção fica clara. Ele está se declarando, faz um movimento para pegar uma caixinha na qual estão as alianças. Um corte brusco muda o ângulo e agora a vista é de cima. Uma vaca cai do céu sobre o barco, justamente na parte em que está sentada a noiva. O absurdo da situação colhe o público de surpresa. Novo corte, agora para Ricardo Darín, que possui uma ferraria, uma loja de ferragens, em Buenos Aires. Ele é rabugento e, logo se percebe, um solitário. Fechado sobre si mesmo, reclama do mundo, não se abre para a mulher que, obviamente, lhe oferece seu afeto. E aí, inesperadamente, o chinês do acidente inicial do filme surge em sua vida.

É a mais improvável das amizades, ou das ligações. Darín sente compaixão pelo pobre chinês que não fala uma palavra de espanhol. Acolhe-o em sua casa. A convivência nem sempre é pacífica, mas um elo termina por se criar. Um Conto Chinês é sobre transformações, não nas grandes mudanças que se operam no mundo, mas aquelas que podem se operar nas pessoas. Darín coleciona recortes de jornais sobre fatos absurdos - e ele nem se dá conta, ou nem sabe, mas entre esses papéis está o que conta o que houve com um certo chinês, atingido por uma vaca que caiu do céu. O absurdo, por princípio, não se explica, mas o chinês tem uma explicação, que não diz qual é. Cabe ao espectador realizar esse movimento.

É um filme feito de observações, de pequenos gestos. O diretor Sebastián Borensztein, apesar de todas as diferenças, está querendo mostrar, como Gustavo Taretto, de Medianeras, que o homem precisa romper seu isolamento e que necessita do outro - da outra. Para o espectador é um prazer, às vezes até um tanto doloroso, assistir a atores como Darín e Ignazio Huang, que faz Jun. As breves aparições de Muriel Santa Ana, como Mari, abrem um espaço muito rico para a averiguação dos sentimentos.

UM CONTO CHINÊS

Título original: Un Cuento Chino. Direção: Sebastián Borensztein (Argentina/ 2011, 93 minutos). Censura: 14 anos.

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