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O senhor já leu?

Fiéis devotados identificam na ignorância a única possibilidade do ceticismo

Leandro Karnal, O Estado de S.Paulo

17 Junho 2018 | 02h00

A pergunta é repetida nas minhas redes sociais quase todos os dias: “Professor, o senhor já leu?”. A indagação aumenta quando o assunto é religiões. Aparentemente, quem inquire imagina que a leitura das fontes escritas da sua crença tem força suficiente para conduzir ao bom caminho. Fiéis devotados identificam na ignorância a única possibilidade do ceticismo.

Espíritas costumam incentivar o conhecimento das obras de Hippolyte Léon Denizard Rivail, o famoso Allan Kardec. Fiz um estudo bastante denso de textos como A Gênese, O Livro dos Espíritos, O Livro dos Médiuns, O Que É o Espiritismo e, meu preferido, O Evangelho Segundo o Espiritismo. Em Paris, visitei lugares históricos do kardecismo, dos cenários das mesas que giravam até o túmulo do fundador no cemitério do Père-Lachaise.

Exponho minha experiência de estudos e a pessoa fica entusiasmada: “Então, o que achou, professor?”. Digo que gostei, aprendi muito e que tenho um gosto específico por religiões do século 19. Minha resposta desagrada. O que desejam ouvir é se eu aderi, se virei um espírita. Falo que não. Presumivelmente, a leitura dos clássicos deveria provocar uma iluminação. Sinto que decepciono o interlocutor. Como alguém pode conhecer e não acreditar?

Falei que gosto das religiões do século 19. Há diferenças notáveis entre elas. Os pressupostos espíritas dialogam muito com a formação científica de Kardec e do momento que ele vivia: a ideia de progresso, energia, magnetismo, vibração, mesmerismo, etc. Nada mais século 19 do que energia e evolução. As outras expressões da mesma centúria, como o mormonismo e a fé Bahá’i, são completamente diferentes. Os mórmons só podem ser compreendidos na chave dos Estados Unidos daquele momento. Os seguidores da fé Bahá'i precisam ser lidos com o olhar na Pérsia em choque com o Império Otomano. Cada expressão religiosa traduz seu momento de criação e sua história posterior. Há brumas de Idade Média no Catolicismo e no Islamismo. Há Idade Moderna forte entre luteranos e calvinistas. Há história em toda religião, particularidade que me seduz nelas. Nunca entenderemos as sociedades sem sua pretensão metafísica e sem os imensos esforços dos adeptos para constituir prédios, arte, teologias, caridade, repressão, educação e uma verdadeira gramática de compreensão do universo.

Quando nos afastamos das nossas matrizes religiosas conhecidas, descobrimos ainda mais novidades e temos, em geral, um olhar menos marcado pela nossa subjetividade. Sinto uma neutralidade um pouco maior quando estudo, por exemplo, uma religião vietnamita que se estruturou apenas no século 20: Cao Dai. Mistura de Confucionismo, Taoismo e Budismo com estrutura próxima ao modelo da hierarquia católica, o caodaísmo é fascinante. As roupas coloridas e os templos vistosos atraem turistas. Visitei a “Santa Sé” Cao Dai (Tây Ninh), perto da cidade de Ho Chi Minh (antiga Saigon). Lá, veneram a memória de seres iluminados como Shakespeare, Victor Hugo e Pasteur. Toda fé é sincrética, porém o caodaísmo leva a ideia de múltiplas fontes ao patamar da perfeição. O historiador Quentin Skinner recomendava escolher temas muito distantes do nosso mundo e até antipáticos ao gosto pessoal para criar maior isolamento do objeto.

Volto ao tema do conhecimento. Sei que uma pessoa adepta de uma ideia religiosa tem a convicção de estar certa e que o ato de conhecer suas fontes produziria, automaticamente, entrega do leitor à luz da fé. Acho delicado explicar que eu li muito a Bíblia, Kardec, Corão, O Livro de Mórmon e apreciei imensamente, todavia, não abandonei minha posição. Da mesma forma, suponho, ler clássicos do ateísmo ou do agnosticismo não deveria afastar um crente genuíno da sua fé. Talvez, meu ideal de mundo seja o seguinte: penso diferente de você, respeito a divergência, não considero que eu seja superior ou você menor por acreditar em algo e, por fim, afirmo que somos ambos humanos, falíveis, limitados e incapazes de penetrar na mente alheia. Posso ler tudo sobre sua religião e, mesmo assim, não entender o salto interno que você deu para crer. Sua fé é inacessível para terceiros. Mais do que tolerar, devo pensar que a diversidade é bem-vinda e rica e que, sem você, o mundo seria mais sépia e monótono.

Odeio catequistas exaltados, inclusive catequistas ateus. Observo alguém defendendo sua ideia alimentando sua convicção com fogo nos olhos e mãos crispadas. Sinto que aquela pessoa duvida muito mais do que eu e sua insegurança interna é denegada pelo arrebatamento teatral. Sorrio: sou menos cético do que o interlocutor. Eu sei que sou pó e a ele voltarei, felizmente. A certeza da finitude traz imensa paz e tranquilidade a minha consciência. Ampliando uma velha ideia, os deuses são legais, o fã-clube, às vezes, é um pouco difícil. Bom domingo para os humanos crentes e céticos. 

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