O segredo que a casa guardou

Entrei no banco para pagar uma conta e, súbito, como um relâmpago, me dei conta de onde eu estava. Aquela casa foi mítica na sociedade e política brasileiras. Será que gerentes e funcionários do Santander, na Rua Estados Unidos, 1.821, esquina da Rua Venezuela, têm ideia de onde trabalham? Não devem ter, são muito novos. Claro que tudo está mudado no interior, paredes brancas, limpas, ausência de decoração, quadros, os bancos são assépticos, um pouco de arte talvez desvie a atenção do cliente. Há um estudo de um sociólogo francês que afirma: bancos, aeroporto, shoppings, hospitais são não lugares. Apenas pontos de passagem, não nos afeiçoamos, apenas entramos, fazemos o que temos a fazer e saímos.

Ignácio de Loyola Brandão, O Estado de S.Paulo

10 de fevereiro de 2012 | 03h10

Ah, essa casa da Rua Estados Unidos. Para começar, a entrada era pela Rua Venezuela. No fim dos anos 50 e começo dos 60, a todo momento essa casa aparecia nas colunas sociais do Tavares de Miranda, da Folha, da Alik Kostakis, da Última Hora, do Mattos Pacheco, dos Diários Associados, no Marcelino de Carvalho (com quem todos aprendiam etiqueta e como se comportar), principalmente na crônica Jovem Guarda do Ricardo Amaral, que dominava aquela tribo inquieta.

Nessa casa morava Eliana Selmi Dei, jovem socialite, magra, elegante, grã-fina na acepção do termo para aquele tempo. Filha de Roberto Selmi Dei, o rei do trigo, o magnata da farinha, um empreendedor milionário. Hoje, se você procura no Google, por exemplo, só vai encontrar Rua Roberto Selmi Dei e nada sobre ele, que foi um empreendedor de vulto. Ou o Jardim Selmi Dei, em Araraquara, onde a família tinha uma fazenda-modelo. Mas, Selmi Dei ajudou a eleger um presidente no Brasil, Jânio Quadros.

Eu via fotos de Eliana nos jornais, rodeada pelo que havia de mais bonito na sociedade paulistana. Era uma sociedade diferente. Via aquela casa frequentada pelo top, Veroca Fontoura, Angelina Muniz, Vera Andraus, um ícone, e imaginava como seria por dentro. Perguntava ao Ricardo Amaral, ele só dizia: é uma casa rica e bonita. Sim, mas como seria uma casa rica e bonita? Eliana namorava um jovem tradicional, o Lair Cochrane, que eu via ao lado do Carlucho Affonseca, Zizinho Papa, Aurinho de Moura Andrade, nas boates da época, Stardust, Zum Zum, Djalma, Vogue. Para mim, era coisa de Scott Fitzgerald.

Um começo de noite, meados dos anos 60, portanto há mais de meio século, o chefe de reportagem me mandou seguir para a Rua Venezuela, esquina com a Estados Unidos. Era Jardim América, lugar distante, isolado, quieto, e não um corredor de passagem intensa de trânsito. As casas não tinham esses muros espessos de hoje, não eram fortalezas, não tinham grades. Havia jardins, gramados, entradas elegantes e suntuosas. Ver casas nos Jardins era programa. Fui para lá. Começou a chover e a escurecer. Havia muitos carros de reportagens.

A notícia é que Jânio Quadros se reuniria com Roberto Selmi Dei naquela casa. Era um momento importante, Jânio precisava daquele apoio financeiro, ou algo assim. Chegavam políticos que a gente reconhecia por serem figuras carimbadas em jornais. Entravam sem dar declarações. Eu me atrevi a apertar a campainha, veio um porteiro, ou mordomo, ou fosse lá o que fosse, e perguntou o que era, o que eu queria. Quando respondi que era jornalista, queria entrar, estava chovendo, ele virou as costas, dizendo: "Espere aí com seus colegas, o encontro aqui é fechado". Não foi mal-educado, não. Apenas deu a entender: ponha-se no seu lugar. Que reunião misteriosa era essa? Jânio já estava lá?

Naquela calçada, debaixo da chuva, porque não havia onde se esconder (o posto de gasolina da esquina ainda não existia, imaginem, um reles posto num bairro da elite!), cada um de nós, jovens jornalistas, queríamos dar um furo, descobrir o tema da reunião. De repente, parou bem na porta da casa de Eliana um carro reluzente, novo, esporte. No que o carro parou, veio lá de dentro o porteiro ou mordomo com um baita guarda-chuva. E Lair Cochrane saiu, num terno impecável, sapato mocassim italiano impecável, cabelos com gel, porque não havia jovem grã-fino que não usasse cabelo puxado para trás com gel.

Seco, ao contrário de todos nós, ele caminhou protegido da tempestade. Aproximei-me, cabelos empastados, sapatos molhados, meia molhada, paletó pingando, um zé qualquer, caneta na mão, disse que eu era do jornal, amigo do Ricardo Amaral, da Alik Kostakis e que precisava saber o que acontecia lá dentro da casa. "Lá dentro é um encontro de política. Tudo o que sei. Mas só vim buscar minha noiva, vamos ao cinema." Despediu-se, fiquei na chuva. Vi quando Lair e Eliana saíram pelo portão dos fundos que dava para a Rua Estados Unidos e se foram, secos, bonitos, ricos. E eu ali, um repórter sem matéria, sem poder sair, um pinto molhado (expressão araraquarense) porque se o Jânio saísse e eu não tivesse uma declaração, perderia o emprego. Se Jânio não costurasse aquele apoio financeiro naquela noite, teria de parar a campanha. O acordo, ou seja lá o que se discutiu naquela noite nessa casa, saiu, Jânio foi eleito. Ou seja, foi uma noite decisiva para a História. O que Jânio pediu, recebeu, o que Selmi Dei deu, recebeu? As concessões, acordos, negociações. Mistério.

Dentro do banco, circulei um pouco. Não muito, os seguranças começaram a me olhar inquietos. Mas fiquei imaginando: o encontro foi aqui? Aqui era uma sala? Ou foi um jantar? Onde? Onde aquele gerente está recebendo um cliente para falar, talvez de CBDs? Não, aqueles bancários não tinham a mínima ideia do que estas paredes souberam. A "mística" da casa continua para mim.

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