O segredo do seu Oscar

Por que o Brasil não consegue? A pergunta inevitável depois da vitória no Oscar do argentino O Segredo dos Seus Olhos exige ressalvas. O cinema brasileiro ou mesmo um filme brasileiro não deve ter como objetivo conquistar o prêmio, pois não há fórmula para isso - James Cameron que o diga - e, quando a criação se guia por critérios alheios, termina com sabor de artificialidade. Mais importante que isso, ganhar um Oscar não é um atestado absoluto de excelência, e nada é mais colonizado do que ficar esperando que o estrangeiro carimbe uma obra nacional para que aí ela passe a ser elogiada. Pois o segredo do filme de Juan José Campanella foi justamente esse, o de não ter segredo: foi pretender, antes e depois de tudo, fazer um filme muito bom. O Oscar foi uma das consequências, e vantajosa; não sua razão de" ser.

Daniel Piza, O Estadao de S.Paulo

14 de março de 2010 | 00h00

O que importa é entender como ele conseguiu fazer esse filme muito bom, ainda que meu preferido na categoria seja A Fita Branca. E isto pode ter duas ou três lições para o cinema brasileiro. Em primeiro lugar, acho que há ali a consciência de que um filme é um trabalho de equipe, no qual o diretor é um autor e não um faz-tudo que trata os outros como simples escadas para sua autodeclarada genialidade. Como se sabe, o cinema brasileiro não tem essa tradição e só tem melhorado nos últimos 15 anos, com o surgimento de alguns roteiristas, fotógrafos e técnicos com uma assinatura mais pessoal. O filme de Campanella tem ótimo roteiro, ótimos atores, boa fotografia e uma notável trilha sonora, composta por um músico argentino de 36 anos radicado na Espanha, Federico Jusid. No resultado final, tudo se soma, organicamente, a tal ponto que não se pode isolar uma qualidade da outra.

Em segundo lugar, Campanella, que dirigiu antes O Filho da Noiva e alguns seriados na TV americana, sabe o que é uma boa história e sabe que contá-la não é meramente encadear fatos de modo convencional, mecanicista, e sim compreender e sugerir sua riqueza de implicações. Pode ser que isso tenha a ver com a forte linhagem de teatro e literatura numa cidade como Buenos Aires, mas por este caminho não se vai longe; afinal, o Brasil tem bons escritores. O fato é que o filme é bem escrito, o enredo é bem tecido: há conflitos, desenvolvimento, surpresas. A levada parece policial, só que com momentos de humor o tempo todo, romance, a combinação de expectativas e evocações. Há um admirável senso de ritmo: as cenas correm onde devem correr e pausam onde devem pausar. Acima de tudo, o filme tem ideias, algo raro aqui.

O maior trunfo da narrativa é não se condicionar à revelação do criminoso. O perito Benjamin Espósito (ao qual Ricardo Darín, ator de muitos recursos, dá ao mesmo tempo um ar determinado e triste) quer descobrir quem estuprou e matou a bela moça e descobre. O que é legal é o como. A cena do estádio de futebol, em que a câmera mergulha lá do alto até seu rosto na multidão, seguindo rapidamente para um plano-sequência de perseguição, em que varia do quadro médio para a câmera subjetiva (em que vemos pelos olhos do ator), já foi devidamente exaltada em todo o mundo da crítica. Mas a cena seguinte, em que a promotora (Soledad Villamil) mexe com o complexo de inferioridade do acusado, digamos assim, é excelente também. Pega a abordagem binária das tramas de detetive e a recheia com conotações morais. Quantos homens violentos não são como aquele, um frustrado sexual que confunde desejo e poder?

Naquele momento, Benjamin estava prestes a usar um procedimento escuso para chegar à verdade. Com isso, vemos que não é um personagem unidimensional, que não é necessariamente um primor de ética 24 horas por dia. Por sinal, sentimos o tempo todo que aquele caso o motiva intimamente, que o leva a pensar em muito mais coisas além de sua solução, inclusive a admirar e de certo modo invejar o amor do estranho viúvo. Tanto é que, em paralelo, corre sua paixão não declarada, que pontua os silêncios do filme com um lirismo bem dosado. Então vem a segunda parte da história, nos 40 minutos finais, um desdobramento do caso que se relaciona com o momento político, a ditadura, e dá outra dimensão ao filme. Roteiro e direção são tão bons que essa segunda parte não deixa cair a atenção do espectador. E saímos do filme pensando no perigo que existe nessa vontade de fazer a justiça que a Justiça não faz.

Personagens ambivalentes, contextualização histórica, ideias sem ideologia - eis os itens principais de que sinto falta na grande maioria dos filmes brasileiros. Outro, relacionado a eles, é a própria escolha dos temas: Campanella filma a classe média urbana, o que alguns de nossos formadores de opinião chamam de "burguesia" (à qual pertencem, como se sabe), e não do ponto de vista da culpa social. Pense no cinema brasileiro desde a retomada de 1994. A grande maioria é sobre mazelas e favelas - Central do Brasil tratou disso como "road movie" e Cidade de Deus como filme de ação, gerando filhos como Tropa de Elite - ou então comédias, rurais como Auto da Compadecida ou televisuais como Se Eu Fosse Você. Quando aparece um dono de negócio, um profissional liberal ou um funcionário público, é por seu medo da violência ou por sua alienação. Denúncia e escapismo dão os tons.

Observe que estou dando exemplos de trabalhos bem realizados, com um padrão mínimo de qualidade. Outros, como Salve Geral, indicação do Brasil para concorrer a esse último Oscar, desperdiçam a ótima história com uma opção pelas facilidades (a protagonista se apaixona subitamente pelo presidiário e na cena seguinte diz que ficaria ali com ele para sempre) e um desdém ao ritmo (o filme só cresce no final, quando a tensão aparece). Isso para não falar de Ches e Lulas filmados como se fossem lendas vivas, ou melhor, santos predestinados... Alguns cineastas estão acima disso, como Hector Babenco, mesmo quando retrata o Carandiru, e alguns filmes que se encaixariam na tola expressão "cinema de arte", como Lavoura Arcaica, de Luiz Fernando Carvalho, e os de Marcelo Gomes e Karim Aïnouz. Não posso deixar de citar filmes empáticos como O Quatrilho, O Ano em Que Meus Pais Saíram de Férias e Estômago. Mas nenhum me parece ter a qualidade consistente de O Segredo dos Seus Olhos. Queiramos grandes filmes, não Oscar.

Cadernos do cinema. O Oscar surpreendeu positivamente ao dar a Guerra ao Terror o prêmio de melhor filme, reservando a Avatar apenas três categorias técnicas (e o de fotografia nem foi merecido, porque a do concorrente e a de A Fita Branca são poderosas). Kathryn Bigelow fez história como primeira diretora premiada em 82 anos. Seu filme é também um exemplo de conjunção de talentos: fotografia, edição, roteiro, atuações. Por mais que seja "produção independente", o cuidado técnico é impecável. Li alguns delírios de que seria pró-guerra - poucas vezes vi em salas de cinema algo que me deixasse tão mal com a rotina caótica e brutal de uma guerra - e, pior, de que Avatar seria uma crítica a ela e ao capitalismo tecnológico, isso de um filme que custou US$ 237 milhões e usou a mais sofisticada computação para contar um conto de fadas cujo herói é um soldado americano convertido à ecologia pelo amor.

Outro fato que contraria o pobre senso comum diz respeito à crítica cultural. Quase todo mundo diz que os críticos não importam, que as resenhas não servem para nada, etc. Mas o que fez Guerra ao Terror ser visto como o filme elaborado que é, a ponto de reverter um Oscar que parecia decidido pela força das bilheterias, foi a crítica especializada, a opinião de quem vê o que há para ver, não o que quer ver. Sim, a inteligência venceu o dinheiro.

Duas lágrimas. Lamentei no blog a morte de Johnny Alf e o fato de que os obituários tenham insistido em reduzi-lo a "precursor da bossa nova". Sim, ele é, e em sua música vemos aquela mesma tonalidade fugidia de Tom Jobim que mais tarde ganharia outra cara com a batida sincopada de João Gilberto. Mas é preciso ver sua música em si mesma, por seu refinamento harmônico, com influências da música clássica francesa e do jazz americano, de Debussy e Gershwin misturados ao samba-canção bem brasileiro. Fica parecendo que tudo que veio antes da bossa se justifica porque levou a música brasileira a esse patamar. Em arte não existe "linha evolutiva", que termina desdenhando o que deveria admirar.

Que horror a morte de Glauco, aos 53 anos, com seu filho de 25, assassinados em casa em Osasco. Glauco, como Angeli e Laerte, nos divertiu durante muitos anos nas páginas da Folha, fazendo um desenho completamente descompromissado, sem frescura nem censura, com uma expressividade feita de poucos e rápidos traços. Uma geração de cartunistas e duas gerações de leitores lamentam juntas.

Por que não me ufano. Enquanto Lula comparava presos políticos em Cuba a bandidos, manchando sua biografia e a de muitos amigos, a imprensa da "zelite" revelava outro esquema dessa companheirada, na cooperativa dos bancários, em que mais uma vez as doações de campanha foram amarradas a drenagens das estatais. O dinheiro público é seu maior preso político.

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