O segredo de ser muitos

Em nova peça, Marcelo Médici volta a aparecer na pele de vários personagens

Maria Eugênia de Menezes, O Estado de S.Paulo

16 de setembro de 2011 | 00h00

Ninguém é um só. Todo indivíduo é capaz de transformar-se em outros, de ser muitos ao mesmo tempo. Mas poucos conseguem fazer dessa possibilidade uma arte. Ou um bom negócio. Marcelo Médici fez os dois. Em Eu Era Tudo para Ela e Ela me Deixou, o ator volta a mostrar sua habilidade de encarnar vários personagens. A peça, que tem estreia marcada para amanhã no Teatro Faap, traz Médici revezando-se entre nove papéis. Retoma, ainda que em formato diverso, a verve camaleônica que fez o sucesso de Cada Um com Seus Pobrema.

Desde que entrou em cartaz - há cerca de seis anos -, o monólogo cômico já arrastou multidões ao teatro. Os planos para uma continuação, um Cada Um com Seus Pobrema parte 2, existem e podem ganhar corpo em breve. Agora, porém, a ideia de Médici é fazer o que ele chama de "teatro de verdade". Distante do modelo do stand-up, ele encara uma produção com cenário, figurino e enredo.

Escrita por Emílio Boechat, Eu Era Tudo para Ela... conta a história de um homem que vê seu casamento de dez anos chegar ao fim. Com um trombone, uma mala e um jabuti de estimação a tiracolo, ele é expulso de casa e não tem para onde ir. Os percalços que enfrenta nesse périplo em busca de um novo lar movimentam a trama. E servem de pretexto para as tiradas cômicas de Médici.

No papel de marido abandonado está Ricardo Ratsham, que foi diretor de Cada Um com Seus Pobrema. Já a Médici cabe a incumbência de aparecer na pele de sua mulher, Dóris, e também de outros oito coadjuvantes. Figuras tipificadas e prontas para provocar o riso: uma prostituta gaúcha, um bandido carioca, o colega de escritório que esconde sua vida dupla como travesti. "Essa história é, para mim, como uma Alice no País das Maravilhas, no qual esse personagem está perdido e vai se deparando com uma série de figuras estranhas", diz Médici. Com dezenas de trocas de figurinos, o tour de force lembra o que o ator já fazia em O Mistério de Irma Vap, quando contracenou com Cássio Scapin, sob direção de Marília Pêra.

Em Eu Era Tudo Para Ela..., é Mira Haar quem assina a encenação. Uma das fundadoras do Pod Minoga - cia. teatral que marcou a comédia paulistana dos anos 1970 -, Mira vale-se das diferenças que existem entre os dois intérpretes para reforçar a comicidade. "Eles têm estilos muito diferentes, mas que se complementam e funcionam bem em cena. Ricardo tem um humor ensimesmado, quase ingênuo. Já o Médici tem esse estilo histriônico."

Não é a primeira vez que Marcelo Médici encena esta peça. Durante os anos 1990, chegou a participar de uma montagem do texto. À época, a versão contava com cinco atores. Ele, porém, já brincava de se revezar entre personagens. "Mas antes eram só três", ele lembra.

Foi justamente a possibilidade de se travestir em tantas figuras o que seduziu o ator para que produzisse uma nova encenação da peça. Mesmo com um repertório tão vasto de tipos, o ator garante que continua a ver nessa proposição cênica um desafio. "Não posso nunca repetir o que eu já fiz. Existe canastrice no humor também. Tenho sempre que ir buscar alguma coisa diferente", garante o ator, formado no Centro de Pesquisa Teatral de Antunes Filho.

Tanta busca pelo novo resulta, invariavelmente, em improvisos e piadas criadas no calor do momento. "Dá sempre um pouco de medo, tenho que ficar muito atento porque não sei o que ele vai inventar ali na hora", observa o ator Ricardo Rathsam.

Muitos são os "cacos" que o espectador poderá observar em cena. Referências às redes sociais, que não sonhavam em existir nos anos 1990, e a "celebridades" dos nossos dias, como o polêmico deputado Jair Bolsonaro.

"Comédia é assim mesmo. Os atores se apropriam completamente do texto", endossa o dramaturgo Emílio Boechat.

EU ERA TUDO PARA ELA...E ELA ME DEIXOU!

Teatro Faap. Rua Alagoas, 903, 3662-7233, 6ª, 21h30; sáb., 21h; dom., 18h. R$ 50/ R$ 70. Até 4/12.

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