O SEGREDO DE ELTON JOHN

Por quanto tempo uma mesma canção pode ser tocada com prazer? Ele tem a resposta

JULIO MARIA, O Estado de S.Paulo

01 de março de 2013 | 02h13

Uma mesma canção tocada há 40 anos por um senhor de 65 que tem à sua frente 11.500 pessoas obrigatoriamente sentadas tem boas chances de fracassar. O roteiro já é conhecido por quem segue os passos dos dinossauros: eles chegam cansados da estrada, enfadados da mesma sequência de hits que estão para enfrentar em duas horas de show e podem esquecer até do nome da cidade em que pisam. Muitas vezes acionam o piloto automático que faz suas bocas se movimentarem sem alma, certos de que pescarão seus peixes naquela noite apostando apenas no poder da memória afetiva que suas obras do passado despertam. Mentem para si e se recusam a largar o osso.

Mas então, o senhor de 65 anos vai tocar a mesma canção que lançou há 40 anos. Elton John improvisa uma introdução de Rocket Man lírica e cheia de raios de sol cortando nevoeiros. Fecha os olhos, não sorri mais e nem procura pelos onze músicos que estão a seu lado desde que tudo começou, há pouco mais de uma hora. Sua expressão ganha traços de solidão e suas mãos parecem criar uma nova canção. Os telões do Jockey Clube filmam os dedos curtos, sempre colados nas teclas para compensar a falta de abertura entre eles, e um holofote atinge seu paletó fazendo reagir cada gota de glitter. O piano segue um caminho longo até repousar sobre um acorde que prepara a entrada da voz. "She packed my bag last night, preflight..." As pessoas deixam as cadeiras movidas por impulso e os seguranças se desesperam para que elas voltem para seus lugares. Rocket Man vira verdade de novo e Elton John deixa tudo mais claro: ele só está na estrada há tanto tempo tocando as mesmas músicas sem automatizá-las porque consegue fazê-las nascer de novo a cada noite.

A turnê que passa pelo Brasil celebra os 40 anos de Rocket Man, um de seus 50 grandes sucessos, lançada no disco Honky Château, de 1972. O formato do show que fez na noite de quarta-feira quase o colocou em apuros. Muitas das pessoas que pagaram até R$ 1 mil por um ingresso queriam ter a liberdade para sentarem e levantarem de acordo com o que ordenavam suas emoções. Se seguraram até quando uma Philadelphia Freedom e outra Goodbye Yellow Brick Road permitiam. Quando Crocodile Rock e Saturday Night's Alright For Fighting chegaram, uma após a outra, não havia braço de segurança para conter tanta euforia. Show ao ar livre para ser assistido sentado, no Brasil, é um desafio cultural. Mais do que 'ver com os olhos', as pessoas queriam ouvir Elton John com o corpo.

O som no Jockey, impecável no Lollapalooza do ano passado, foi agora o maior inimigo. A voz de Elton ia e vinha como se levada pelo vento que golpeava o descampado do Jockey. E o mesmo acontecia com a guitarra de David Johnstone, que ia dos timbres cortantes ao silêncio durante um mesmo solo. A impressão era de que cada música ganhava uma regulagem diferente, reajustada por um técnico em desespero. Som em pane, plateia adestrada, possível desgaste provocado pela ação do tempo. Se faltasse uma vírgula de verdade na música que o homem de 65 anos toca há quatro décadas como se fosse a primeira vez, o foguete de Elton John cairia logo ali mesmo, no meio do rio Pinheiros.

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