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O segredo

Daqui a pouco será a data para pensar em entrega, celebração, o Dia dos Namorados

Leandro Karnal, O Estado de S. Paulo

05 de junho de 2019 | 02h00

Vivemos rapidamente e o calendário anuncia: daqui a pouco haverá um novo Dia dos Namorados. Haverá gente irritada e gente feliz, expectativas afetivas e ansiedades comerciais. Um dia que celebre o amor é, sempre, um dia de balanço. Dia dos Namorados é como festa de ano-novo: reflexão e celebração, alegria e algo de ansiedade. É quase impossível ser indiferente ao meio em que vivemos e ao calendário. 

Ignore a frase: “Não precisa me dar nada”. É sempre insidiosa. Todos esperam algo, especialmente os que se defendem da expectativa de nada ganharem com o estoicismo do desprezo de presentes. Quem tem muito desejo de ser presenteado vive tal angústia que inventa o recurso: não quero nada... A frase é falsa, mesmo que seu autor não saiba. O amor existe fora de ofertas, todavia deve apresentar algo simbólico. Necessitamos de sinais. Eles estão na nossa cultura. Deus colocou um arco-íris ao final do dilúvio, mandou marcar as casas com sangue na primeira Páscoa e ordenou a confecção de uma arca com dois querubins (contrariando Sua própria ordem de nada representar). Deus conhece a natureza humana. Ele sabe que o amor pode ser intenso, porém todo sentimento precisa de gestos e objetos que, em algum momento, revelem a natureza da ideia de amor. Você conhece sua mulher ou seu homem? Surpreenda na próxima semana: o maior presente é, sempre, o tempo empregado. Horas gastas procurando algo especial é melhor do que tudo. Porém...você não dá muita atenção para a data? Verifique de forma rigorosa se o sentimento é seu ou da sua/seu companheira/companheiro. Se ambos forem indiferentes a festas, parabéns, a celebração do amor é diária e vocês não se dobram à pressão social e comercial. Isso é raro, porém existe. De novo: tenha certeza de que é uma escolha de ambos, livre e feliz, que traz satisfação aos dois. Fugir de uma obrigação social construindo uma antiobrigação pétrea é uma estratégia equivocada e dobradamente custosa. Parece o esforço de um conhecido meu que luta tanto para ignorar o Natal que seria mais fácil celebrá-lo. Há prazer no esforço de subir uma ladeira íngreme contrariando a inclinação do terreno. Por vezes, também é muito bom descer de bicicleta sem esforço, rampa abaixo, junto a todos. 

Todos os presentes são envolvidos no esforço do seu tempo. Pense pouco em si e muito nela ou nele. A cenografia kitsch é permitida na data. Sim, permitem-se pétalas de rosas vermelhas na cama ou músicas lentas e até espumante meia boca (gele bastante, ajuda a neutralizar o paladar). Há coisas mais originais. Um livro com cartas ou poesias de amor, por exemplo, com você marcando as passagens e comentando algo específico que traga boas lembranças aos dois combina o talento dos grandes escritores com a subjetividade dos amantes anônimos. Um texto seu, seu mesmo, pode ser muito interessante para acompanhar uma coisa ainda que pequena de valor. Uma flor especial comentada por algo só de vocês será muito bem-vinda. Já imaginou algo antigo ao estilo de um piquenique em uma área especial? Sanduíches feitos por você com a bebida preferida de ambos? Há muitas opções boas e baratas. Pasme: a internet vende dezenas de modelos de cestas de piquenique para todos os gostos e orçamentos. Nada impede de levar tudo em ecológica sacola de pano. 

Outra maneira boa de celebrar amor é amando mais. Que tal na noite de 12 de junho, em vez de mais um ramalhete de rosas vermelhas e horas na fila de um motel, fazer algo extraordinário e juntar um grupo de casais com uma ONG e passarem a noite (fria em muitas partes do Brasil) ajudando a distribuir uma sopa a moradores da rua? Haverá algo mais tocante do que afeto de dois virar compaixão para muitos? Há datas nas quais a solidão nos hospitais e asilos pesa mais. Esta é uma delas. Quem sabe a partir do Dia dos Namorados ambos descubram uma atividade social significativa que solidifique um objetivo comum que tornará a relação muito mais sólida. Abra a imaginação. Muita criatividade compensa bolso limitado. 

Reflita: não é desesperador estar sem um amor específico no dia de hoje, especialmente se for opção sua e não dos outros. Solidão é diferente de solitude. A primeira é dolorosa, como já desenvolvi em outras crônicas e em livro. A segunda é uma chance de melhorar como pessoa. Pior seria estar sozinho acompanhado, isso sim é desesperador. Liberte-se de amarras e convenções. Nada é obrigatório. Porém, se você está com alguém, se namora ou casou com uma pessoa especial, se vive uma história de amor, daqui a pouco será a data para pensar em entrega, em soma, em celebração. Viver é um desafio que pode melhorar sendo consciente. Felicidade não é um acidente. Casais mais felizes não têm o gene da alegria, todavia o esforço constante para a batalha quase épica do amor. Faça do Dia dos Namorados parte do esforço. Se preferir, faça outro dia, ou todos os dias, mas faça algo, porque ela ou ele não ficará esperando para sempre que você se torne especial. Esse é o segredo que separa vida comum de vida intensa, tédio de intensidade, existir apenas de viver mesmo, de verdade. O segredo de viver é, curiosamente, querer fazê-lo. Se você pode intensificar a experiência compartilhando existência com uma outra pessoa, aproveite o simbolismo da data que se aproxima. Delete por completo o mundo lá fora, ignore as pressões de gastos, afaste as distrações como o celular e, de forma direta, intensa e clara, apenas diga “eu te amo” olhando nos olhos com todo seu ser presente. Se for difícil dizer, pense: o problema não está no Dia dos Namorados e a solução não estará em ignorar o calendário... É preciso ter esperança. 

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