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O século vermelho

'Uma História Cultural da Rússia' é um monumental estudo do inglês Orlando Figes

Sérgio Augusto, O Estado de S.Paulo

14 Outubro 2017 | 03h00

Alexander Herzen, filósofo e escritor russo do século 19, não só acreditava no advento do socialismo como tinha certeza de que a Rússia o implantaria na Europa. Os alemães Marx e Engels duvidavam da segunda hipótese. Na avaliação da dupla, a Rússia agrária e atrasada não reunia as condições necessárias a uma revolução. De todo modo, Engels, precavido, começou a estudar russo para enfrentar em pé de igualdade a influência crescente do líder anarquista Mikhail Bakunin, que já nascera falando o idioma de Herzen. Depois que a coroação do czar Alexandre II, em 1855, incendiou o campo e incomodou a nobreza, Marx e Engels recuaram de sua descrença. 

Marx ficou surpreso ao descobrir que o primeiro volume de O Capital fora traduzido para o russo e editado em São Petersburgo só um ano depois de seu lançamento por uma editora de Hamburgo. Mais surpreso ficaria se pudesse ter sabido que um jovem russo chamado Vladimir Ilyich Ulyanov elegera O Capital o seu vade-mécum revolucionário, após devorá-lo encarapitado no fogão da casa paterna.

A Rússia ganharia o devido destaque no segundo volume de O Capital. Pois Herzen estava correto: a tirania czarista um dia cairia de podre, abrindo caminho para a implantação dos ideais socialistas, mas não em toda a Europa. Fazia bastante tempo que os russos consideravam a pobreza uma virtude cristã, o excesso de riqueza imoral e o trabalho, a única fonte verdadeira de valor. 

Se era débil o potencial “revolucionário” da população rural e pouco confiável a insatisfação da aristocracia, forte era a tradição de rebeldia da intelligentsia urbana e de perseguição aos seus mais inquietos criadores. O censurado Pushkin participou do levante dezembrista de 1825, que peitou a sucessão de Nicolau I. Gogol satirizou a opressão imposta aos servos pelo feudalismo czarista. Tolstoi combateu o absolutismo. Dostoievski chegou a flertar com o anarcoterrorismo. 

Mesmo escritores apolíticos não conseguiam ocultar seu desgosto com a monarquia czarista. Exemplo clássico: Ivan Goncharov, criador de Oblomov, o suprassumo da inércia, da indolência e do vazio da aristocracia, personagem-título de um romance que se revelou premonitório, pois o oblomovismo contaminou não só a burocracia imperial como os apparatchiks bolcheviques. 

Ocupando o vazio deixado pelo parlamento e a imprensa livre, as artes na Rússia czarista serviram de arena para o debate político, filosófico e religioso. Em lugar nenhum o artista foi mais sobrecarregado com a tarefa de liderança moral de seu povo, nem mais perseguido pelo Estado – e não apenas durante o ancien régime. Alienados das massas rurais pela distância e o analfabetismo (em 1920, três em cada cinco camponeses não sabiam ler), os artistas russos tomaram a si criar uma comunidade de valores e ideias por meio da literatura, do teatro, do cinema, das artes plásticas e da música, beneficiando-se do “espírito patriótico” e do “orgulho nacionalista” dos servos explorados pelos Romanov.

“Vista como guerra contra os privilégios, a ideologia prática da Revolução Russa devia menos a Marx – cujas obras mal era conhecidas pelas massas semianalfabetas – e mais pelos costumes igualitários e anseios utópicos do campesinato”, argumenta o historiador inglês Orlando Figes em seu monumental estudo sobre a cultura russa, recém-traduzido pela Record. 

Com 880 páginas, Uma História Cultural da Rússia não é um “livro de hepatite”, mas de tendinite no punho. Figes remonta ao início do século 18, mas o que talvez mais interesse aos leitores, às vésperas do centenário da revolução soviética, seja o que se desenrola a partir da página 523, com a chegada da poeta Anna Akhmatova (1889-1966) ao palácio dos Sheremetev, transformado em santuário contra a destruição da guerra e da revolução, em 1918. 

Akhmatova, cujos poemas Trotski desdenhou como “irrelevantes”, no Pravda, sentia mais temores do que esperanças na Revolução. Sustentou-se cuidando da tapeçaria oriental do Museu Hermitage e do acervo de uma biblioteca de Petrogrado, passou necessidades, como, aliás, todos ou quase todos os artistas e intelectuais da época, mas nem quando seu ex-marido, Nicolai Gumilev, foi fuzilado sem julgamento, acusado de conspirar pela volta da monarquia, parou de defender a permanência de seus pares no país. Ela sobreviveu ao sectarismo literário dos comunistas, ao stalinismo, e é, com justiça, uma das figuras de maior destaque no livro. 

Todos os heróis e vilões do Outubro Vermelho lá estão: Vladimir Maiakovski (o “poeta da Revolução”), Eisenstein, Zamiatin, Meyerhold, Babel, Mandelstam, Blok, Shostakovich, Prokofiev, o comissário da cultura Andrei Jdanov, o supercensor de Stalin, além do próprio ditador, que, por incrível que pareça, era ultraletrado e cinéfilo. Sob a sua batuta (ou férula, se assim preferir), a deplorável doutrina do Realismo Socialista foi formulada, em outubro de 1932, numa reunião na casa de Gorki, que mantinha relações amistosas com o Kremlin.

Talvez a mais fulgurante e trágica vítima do revertério stalinista, Maiakovski, que fazia de tudo: poemas, panfletos, slogans, programas radiofônicas, jingles, textos para teatro e roteiros para cinema, suicidou-se ou foi suicidado em 1930. Não sem antes escrever uma sátira futurista (O Percevejo), gozando o modo de vida e a burocracia soviéticos dali a 50 anos. “Somos levados a concluir que a vida social sob o socialismo será muito maçante em 1979”, comentou um crítico da época, consagrando Maiakovski, involuntariamente, como um acurado profeta da era Brejnev. 

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