O século 20 nas lentes dos Ferrez

O século 20 nas lentes dos Ferrez

Mostra dos herdeiros de Marc com 400 imagens é como diário de viagens pelo Brasil e por vários outros países

Simonetta Persichetti / ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

05 de abril de 2010 | 00h00

Quatrocentas imagens inéditas do começo do século 20, feitas pelos herdeiros do Marc Ferrez (1843-1923), compõem a exposição Família Ferrez: Novas Realizações, organizada por Pedro Karp Vasquez e Julia Peregrino.

Fotografias que retratam não apenas o Rio, mas Brasil, África, países europeus e ainda nos apresentam álbuns de família, o cotidiano das casas, a vida nas ruas das cidades. Representa um diário de viagem, na aparência com um olhar descompromissado, mas totalmente bem resolvido, e a herança de um dos profissionais mais importantes do século 19, Marc Ferrez. Ele, além de fotógrafo da família imperial, teve um trabalho "solo", viajou pelo Brasil registrando trabalhadores, escravos, a vida no país. Também foi considerado fotógrafo da Marinha imperial por suas imagens em alto-mar. Pioneiro em fotografias de interiores e na forma de retratar, ele é sem dúvida nosso principal fotógrafo.

Essa paixão pela imagem parece ter passado para seus descendentes. Na mostra, registros realizados por seus filhos Julio (1881-1946) e Luciano (1884- 1955) e por seu neto Gilberto Ferrez (1908-2000), que, além de fotógrafo, foi colecionador de foto, historiador e guardião desse imenso arquivo. Os curadores levaram mais de um ano vasculhando 8 mil negativos, além de álbuns e arquivos pessoais, reunidos hoje no Arquivo Nacional do Rio graças a uma doação da família, em 2007. "Queríamos doar para uma instituição pública brasileira. Queríamos a possibilidade de que este material fosse bem guardado e que as pessoas tivessem a chance de vê-lo", conta por telefone Helena Ferrez, filha de Gilberto.

Riqueza. Antes da doação, porém, todo o acervo foi catalogado. Empreitada que levou dois anos para ser cumprida pela produtora Fazer Arte de Julia Peregrino (uma das curadoras da mostra) e pela própria Helena, e contou com o patrocínio da Petrobrás. Foi nessa fase que Julia se deu conta da riqueza do material iconográfico e solicitou a parceira de Pedro Karp Vasquez para a organização da mostra.

O resultado é uma profusão de imagens que foram distribuídas em três eixos principais: Nossa Terra, enfatizando trabalhos que apresentam a geografia brasileira, mas onde aparece em destaque o desmonte do Monte do Castelo no Rio. "O trabalho de documentação feito por Luciano é muito bem organizado", diz por telefone, ao Estado, Pedro Karp Vasquez. "Lembra muito os trabalhos de Augusto Malta (1864- 1957), que foi o fotógrafo oficial da prefeitura do Rio. Como se as imagens de Luciano complementassem as de Malta." E há também registros da Bahia, São Paulo, Alagoas, Pernambuco, Rio Grande do Sul e Minas.

Um segundo eixo é dedicado às viagens ao exterior - Outras Terras -, no qual aparecem fotos feitas por Julio e Luciano. Naquela época, para se chegar à Europa, tinha-se que fazer escala no Senegal. E de lá vêm algumas imagens que nos mostram lugares que dificilmente são fotografados, e ainda de Portugal, da Suíça e França.

Mas é, talvez, no terceiro pilar da exposição que se encontra o que foge de alguma forma da representação mais comum daquele período: Comentário Social. Neste núcleo há os registros da vida da família Ferrez, seu entorno, amigos, a elite, o povo, os negros: "Este trabalho foi realizado com mais intensidade por Julio, que se torna o cronista familiar", explica Vasquez. Uma era em que ainda não existia a visão antropológica e os olhares de Julio e Luciano já antecipavam a busca imagética que seria seguida anos mais tarde por fotógrafos como Pierre Verger e Marcel Gautherot. Neste segmento estão também nove retratos de Marc Ferrez feitos pelos filhos.

Caminho imagético. Segundo Vasquez, a montagem da exposição procurou respeitar e seguir exatamente o caminho imagético criado pela família Ferrez. Para isso, vários álbuns foram pesquisados e alguns deles estão presentes na mostra para evidenciar como eles selecionavam suas imagens, além de seus diários de viagens e correspondências que narram um pouco da história que está sendo mostrada. Como afirma Julia Peregrino: "Esta exposição é um marco na história da fotografia brasileira."

Gilberto Ferrez teve sete filhas. Nenhuma delas se interessou pela fotografia, mas como nos confidenciou sua filha Helena: "Uma das netas do Gilberto, que hoje mora em Nova York, se interessa muito por essa arte." Só nos resta torcer que ela se interesse mesmo para termos mais uma geração da família Ferrez que sempre tem trazido inovações na forma de registrar os lugares e o cotidiano.

 

QUEM É

MARC FERREZ

FOTÓGRAFO

CV: Um dos mais importantes fotógrafos do século 19, o franco-brasileiro sempre preferiu registrar as paisagens do País a fazer retratos. Pioneiro e pesquisador, trouxe várias técnicas europeias de fotografia para o Brasil.

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