O Schumann perfeito de Claudio Abbado

Gravação da Sinfonia nº. 2, do compositor com Orquestra Mozart de Bolonha, marca os 80 anos do maestro italiano

JOÃO MARCOS COELHO, ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

12 de agosto de 2013 | 02h10

"Fala-se sempre da Quarta Sinfonia", diz Claudio Abbado no encarte do CD comemorativo de seus 80 anos recém-completados, no qual grava pela primeira vez a Segunda Sinfonia de Robert Schumann com a Orquestra Mozart de Bolonha. O registro foi feito ao vivo, em concerto no Musikverein de Viena, em 2012. "A quarta é certamente maravilhosa, mas a segunda é provavelmente a mais inovadora das quatro. Schumann a escreveu numa época em que estava mais apaixonado do que nunca... Esta sinfonia é de uma riqueza espantosa".

Apaixonado e mentalmente doente. Ela foi escrita entre 1844 e 1845, numa das frequentes crises bipolares de Schumann. Trabalhar na sinfonia foi uma catarse. Daí talvez a orquestração pesada, com pares de flautas, oboés, clarinetas, fagotes, trompas, trompetes e três trombones, além das cordas e do tímpano. Em geral, critica-se seu talento de orquestrador e exalta-se sua produção pianística e de lieder. Em geral, também, os maestros atenuam a orquestração, buscam uma transparência na cor da orquestra... das quais Schumann fugia como o diabo da cruz.

Abbado acerta em cheio. Não retoca a partitura nem amacia na dinâmica. Atenua, sim, o contraste exagerado que se imprime aos andamentos: em geral, tira-se o 'ma non tropo' do "Allegro" inicial ou então o scherzo, marcado "Allegro vivace", vira prestíssimo. Abbado não quer apostar corrida.

Ele prefere ressaltar as "encantadoras mudanças de sensibilidade", ou acentuar o "colorido até as menores nuances" e "a expressão mais aguda do detalhe" - atributos que Schumann aprendeu estudando a Sinfonia no. 9, de Schubert, e a obra de outro compositor, Bach, para sair do seu "buraco" mental. Assim, se o Allegro ma non tropo constrói-se com um tema simples que é quase uma citação da abertura da Sinfonia 104, a última, de Haydn, o scherzo cita o nome Bach, segundo a notação alemã, num dos temas deste movimento dançante por excelência, que jamais é acelerado indevidamente por Abbado e sua excepcional Orquestra Mozart.

No Adagio expressivo, além de tecer um tema muito afim com um da Oferenda Musical, mergulha nas líricas águas sonoras de Schubert. Sem exagerar no romantismo, Claudio Abbado dá o tom exato de alguém que luta com seus demônios para voltar à lucidez.

Regente e orquestra superam-se no finale, um Allegro molto vivace extraordinário, em que Schumann retoma o tema do Adagio e o acelera vertiginosamente; em seguida, quase sem transição (como gostava Schubert), um intermezzo é anunciado pelo oboé, e o que era vigoroso transmuda-se num lirismo inesperado (entre os 4 e os 5 minutos).

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