O satirista Sinclair Lewis

Apesar de ter sido o primeiro americano a ganhar o prêmio da Academia Sueca - há 80 anos -, o autor de Babbitt era mal interpretado pela crítica

John Nist, O Estado de S.Paulo

13 de novembro de 2010 | 00h00

20.6.1959

Em 1930 um homem alto e desengonçado das planicies setentrionais da America do Norte foi a Stockolmo, Suécia, receber o premio Nobel de Literatura. Ao fazê-lo admitiu ele, com caracteristica integridade de espirito e humildade de coração, que havia outros escritores em seu país natal mais merecedores da honra (afinal, não recusara ele o premio Pulitzer concedido a ARROWSMITH em 1926?). Porém, a despeito de sua modestia, e de sentir-se ele indigno, voga nos Estados Unidos, acharam que essa distinção (que pela primeira vez recaia sobre um autor norte-americano) era um ultraje ao senso comum e ao julgamento estetico. O homem alto e desengonçado, de cabelos ruivos com prenuncios de calvicie, limitara-se a fornecer combustível aos preconceitos europeus contra as maneiras, a moral e o materialismo dos norte-americanos. Seu realismo de uma só dimensão, sua visão fotografica, seu estilo jornalistico (segundo os tais criticos) eram na verdade de segunda mão e decididamente superados. De modo que, para muitos dos seus colegas literatos dos Estados Unidos, a outorga do premio Nobel a Sinclair Lewis (1885-1951) foi um anacronismo horrivel e uma prova cabal de mau gosto.

Anacronismo, sim: Sinclair Lewis deveria ter ganho o premio Nobel uns sete ou oito anos antes. Mau gosto, não. Apesar do declinio gradual do seu poder criador depois de 1930, apesar da rapida diminuição da sua fama, Sinclair Lewis merecia muito melhor tratamento dos criticos seus compatriotas. A Academia Sueca agiu com muito mais discernimento em sua escolha do que muitos americanos queriam admitir. O homem alto e desengonçado, que recebeu um convite ao seu proprio linchamento, por ter exposto a hipocrisia de boa parte do clero americano em ELMER GRANTRY (1927); o satirista de cabelos ruivos que retratou a desolada monotonia e a esterilidade sem paixão da classe media do Centro Oeste em MAIN STREET (1920); o caricaturista discipulo de Dickens e Mencken, que destilou a um puro elixir de arte a propria essencia da "booboisie" em BABBITT (1922); o profeta do ridiculo de Sauk Center, Minnesota, que contrastou nitidamente o idealismo pratico da America com o realismo teorico da Europa em DODSWORTH (1929) e depois mandou os fariseus bajuladores da Universidade de Yale para o inferno; esse Sinclair Lewis de sarcasmo candente e espirito burlesco, de coração singelo e cara triste, foi relegado à obscuridade no momento exato do seu apogeu - não porque tivesse malogrado como romancista, mas porque acertara a tal ponto que os que compreenderam a sua mensagem sentiram-se superiores às suas advertencias. (...)

 

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