"O Santo e a Porca" assimila linguagem de HQ

Conhecido pelas expedições teatrais multimídia Viagem ao Centro da Terra (1992) e A Grande Viagem de Merlin (1995), o diretor Ricardo Karman retoma agora o palco italiano no seu próprio espaço, o Teatro do Centro da Terra, para estrear sua versão de O Santo e a Porca, farsa filosófica do dramaturgo e escritor paraibano Ariano Suassuna. Escrita em 1957 e montada pela primeira vez no Rio de Janeiro, em 58, com Cacilda Becker, Cleyde Yaconis e Ziembinski, a peça retrata a avareza humana por meio de símbolos antagônicos: de um lado, a porca de barro, onde o velho Euricão guarda seu precioso dinheiro; de outro, o santo (Santo Antônio), grandemente festejado durante as festas juninas do Nordeste.A chave para se entender melhor essa farsa, com evidente moralidade filosófica (materialidade versus espiritualidade), está no subtítulo da peça: Imitação Nordestina de Plauto. Ao se basear na comédia de Titus Plauto, Aululária, escrita 2 mil anos atrás (a que Molière também recorreria para criar seu O Avarento), Ariano Suassuna transpôs os símbolos da cultura e a estruturação dos personagens da comédia romana para o Nordeste brasileiro. Daí que o velho avarento Euclião, que descobre na lareira de sua casa uma panela cheia de moedas de ouro, transforma-se no Euricão Árabe, que guarda seu dinheiro avidamente numa adorada porca em forma de cofre."Querem levar meu sangue, minha carne, meu pão de cada dia, a segurança de minha velhice, a tranqüilidade de minhas noites, a depositária de meu amor", diz o protagonista de O Santo e a Porca, referindo-se ao cofre-animal. A comicidade, extraída dos arquétipos perfeitamente construídos, também se ampara nos qüiproquós desencadeados pelo tema do casamento da jovem filha do protagonista com um velho rico.Na farsa de Suassuna, o fazendeiro Eudoro diz a Euricão que quer roubar seu tesouro, referindo-se à filha do avarento, Margarida. O árabe entende literalmente o roubo a seu dinheiro e trata de escondê-lo num vão de cemitério, próximo ao túmulo de sua mulher. Margarida, por sua vez, está apaixonada pelo primogênito do fazendeiro, Dodó. Caberá à esperta criada Caroba tramar para que o casamento da jovem se realize a contento e ela própria tire proveito da situação.Ricardo Karman, que integrou o Centro de Pesquisa Teatral (CPT) de Antunes Filho, como ator e discípulo de direção, entre 1985 e 89, concebe sua montagem à luz dos desenhos animados. "Tanto nos desenhos como na farsa não há pathos (conseqüência, gravidade emocional). Isso possibilita uma aproximação de linguagens, com mise-en-scènes e vinhetas divertidas", explica o diretor, que dirigiu uma versão de O Santo e a Porca, há dez anos, para o público estudantil.O cenário integra uma versão grafite, com imagens pontuadas de certa iconoclastia, entre o sacro e o folclórico, criadas pelo artista gráfico Carlos Delfino (do ex-grupo de grafiteiros Tupinãodá). A concepção do cenário e figurinos são de Otávio Donasci, o artista plástico e videoperformer que integra as parcerias multimídia de Karman. Recentemente, a dupla ganhou o prêmio Shell nas categorias melhor realização e melhor produção para Viagem ao Centro da Terra, apresentada no Rio de Janeiro no ano passado. A montagem convidava o público a "itinerar pelo espetáculo", percorrendo cerca de um quilômetro dentro de tubos infláveis. O Santo e a Porca. De Ariano Suassuna. Direção Ricardo Karman. Duração: 1h30. Sábado, às 21 horas; domingo, às 19 horas. R$ 20,00. Teatro do Centro da Terra. Rua Piracuama, 19, tel. 3675-1595. Até 28/4. Hoje, somente para convidados.

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