O samba-rock do chinês doido

O grupo Clube do Balanço foi mostrar sua música aos chineses. E a plateia urrou

, O Estado de S.Paulo

24 Julho 2010 | 00h00

E não é que o samba-rock foi parar na China. O gênero nascido e criado nas periferias de São Paulo foi apresentado aos chineses há um mês, durante um evento em que os asiáticos queriam conhecer as proezas paulistanas da lei Cidade Limpa. De quebra, a Secretaria Municipal de Cultura levou também os músicos do Zimbo Trio, do Barbatuques e do Clube do Balanço para shows rápidos. A pedido do C2+música, Marco Mattoli, líder do clube, descreveu como foram os dias de China com sua frenética banda.

PRIMEIRO DIA

Saímos do nosso ponto de encontro tradicional, no Memorial da América Latina. Só que desta vez, em vez de irmos tocar em um baile no interior de São Paulo, o Clube do Balanço ia encarar dois dias de viagem para um show na China. Alguém lembrou que a poltrona da classe econômica do avião era um pouco pior do que a poltrona da van e assim encaramos as 22 horas de "van a jato" e 5 horinhas de rodoviária aérea na conexão em Dubai.

SEGUNDO DIA

Chegamos a Xangai, e de cara o Regis 16 (trompetista) levou uma geral da simpática polícia aeroportuária chinesa. Enquanto esperávamos nosso amigo sair da imigração, começamos a conversar em "inglês frango xadrez" com umas moças que faziam promoção de celular num quiosque do aeroporto. Encantadas com aquela turma de músicos exóticos, elas perguntaram se éramos uma banda de rock. Disse que éramos brasileiros, e que tocávamos samba. Vendo o ponto de interrogação na cara da moça eu apelei para o ícone maior da nossa música, e disse "bossa nova, Brasil, garota de Ipanema sabe?" O ponto de interrogação não sumiu, e ela me perguntou "Ba-xi fica na América não é?" Comecei a perceber que a China era mais longe do que eu pensava. A caminho do hotel ficamos impressionados com o tamanho da cidade, com as avenidas enormes e limpas, com a quantidade de bicicletas e motos elétricas, e os arranha-céus modernos. Cadê o tal do comunismo? Escolhemos o restaurante menos esquisito das redondezas do hotel e comemos alguma coisa muito apimentada.

TERCEIRO DIA

Ainda zonzos por conta do fuso horário, aproveitamos nosso dia livre, e numa enorme comitiva fomos explorar o bairro antigo de Xangai. Chamamos muita atenção, apenas a nossa aparência não chinesa seria o suficiente, mas além disso a nossa digamos "exuberância natural" marcou presença. A Ana Paula, nossa dançarina, negra e linda, era parada pelos chineses a cada 10 passos, e obrigada a tirar fotos. Muitas compras e negócios da China. Mais desespero com a comida no jantar. Reparamos que o taxista chinês buzina uma média de 45 vezes a cada dez minutos.

QUARTO DIA

Dia de trabalho. Conversando com nosso intérprete, me parece que a China começou a conhecer mais da música popular ocidental há pouco tempo e que não passaram como nós pela evolução natural da música popular mundial deste século. Começo a entender por que a moça do aeroporto nunca ouviu falar de bossa nova. De que maneira essas pessoas vão receber uma música regional como a nossa? Após o número de abertura do Balé da Cidade, o Barbatuques se apresenta. A música experimental e inusitada, feita com percussão corporal, encanta e surpreende os chineses. Não acredito que eles conheçam o xaxado, o coco, o xote, o baião e os sambas de onde os Barbatuques se inspiraram pra fazer o seu batuque, mas a música nos dá esse mole de passar por cima do idioma e da convenção. O Zimbo Trio é um caso à parte. Todos os músicos presentes bateram cabeça pro mestre Amilton Godoy, pois não é todo dia que se divide o palco com alguém que você ouviu e que te influenciou a vida inteira. Dá- lhe bossa nova à prova de bala. Se o pessoal na plateia não sabia o que era bossa, teve um resumo do que há de mais fino. Nossa vez. Sempre que tocamos no exterior, temos o cuidado de colocar uma ou duas músicas das quais alguém mais informado sobre música brasileira já ouviu falar. Por exemplo, o Mas Que Nada, do Jorge Ben. Mas, pelo que havíamos sentido nas conversas, tudo era absoluta novidade ali. Então, novidade por novidade, fizemos um show autoral, e eu acho que funcionou. Segundo a turma que organizou o evento, eles nunca tinham ouvido os chineses gritarem em nenhum show que chegara ali. No nosso, eles urraram.

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