O samba 'nos atalhos do roçado do bom Deus'

De repente, o saguão do Teatro Sérgio Cardoso foi invadido pelas batidas secas e compassadas da bateria da Escola de Samba Vai-Vai. Uma voz solene cantou os versos de Geraldo Filme: "Silêncio, o sambista está dormindo/ Ele foi, mas foi sorrindo.../ Escolas, eu peço o silêncio de um minuto/ O Bexiga está de luto..."

OSWALDO MENDES , ESPECIAL PARA O ESTADO, OSWALDO MENDES, JORNALISTA , E ATOR, É AUTOR DE BENDITO , MALDITO - UMA BIOGRAFIA DE , PLÍNIO MARCOS (LEYA), O Estado de S.Paulo

07 de julho de 2012 | 03h07

O adeus a Plínio Marcos na madrugada de sábado, 20 de novembro de 1999, era um tributo emocionado ao artista que mais se identificou com "o povão lesado da sociedade, que, apesar de tudo, é generoso, apaixonado, alegre, esperançoso e crente numa existência melhor na paz de Oxalá". Foram essas as suas palavras na abertura do show de título singelo Plínio Marcos e os Pagodeiros, depois trocado pelo explícito Humor Grosso e Maldito das Quebradas do Mundaréu quando estreou em agosto de 1973 no Teatro de Arte no porão do TBC na Rua Major Diogo, no coração do Bexiga. Uma estreia com gente saindo pelo ladrão, prenunciando longa e bem-sucedida temporada. Daí saiu o disco Plínio Marcos em Prosa e Verso, com a participação de Zeca da Casa Verde, Geraldo Filme e Toniquinho Batuqueiro. Mas a sua ligação com o carnaval e a fina flor do samba paulistano começou muito antes.

Ainda nos tempos de Santos no tradicional Banho da Doroteia, Plínio era figurinha fácil, mas ainda não carimbada, no Chineses do Mercado, um bloco de peixeiros "que antes de sair passava pela casa de todos os donos de barcos que tinham assinado o livro de ouro". Eram os tempos em que o carnaval era a festa dos blocos, muito antes de ser tomado pela grana, pelo marketing e pela "poluição do Trio Elétrico - o lixão sonoro", na sua definição indignada em fevereiro de 1976. Ele que tanto batalhou pelo reconhecimento do carnaval e dos sambistas já profetizava sobre os riscos que corria a festa que nasceu popular. Quando em 1969 o crítico de teatro e editor João Apolinário Teixeira Pinto lhe ofereceu uma coluna no jornal Última Hora, Plínio fez dela um espaço para os artistas populares. Carlão Costa, ou Carlão da Vila, que mantém a tradição da Banda Redonda, sucessora da Banda Bandalha criada por Plínio em 1972, responsável por aproximar o dramaturgo dos pagodeiros, lembra que o pagode daqueles tempos não tinha nada a ver com o que se tornou: "Branco não saía no samba, que era considerado coisa de malandro, de mulher à toa e da negada. Na sua coluna no jornal Última Hora, Plínio defendia o pessoal do samba e foi graças a ele que o então prefeito Faria Lima resolveu apoiar o carnaval, acabando com a repressão e a discriminação que havia."

A aproximação definitiva, e profissional, de Plínio com os sambistas foi selada na montagem da sua peça Balbina de Iansã. Misturando a tragédia dos amantes de Verona com as histórias das Quebradas do Mundaréu e da Barra do Catimbó, narradas em suas crônicas, criou um Romeu e Julieta cujo amor entrava em rota de colisão com o poder da mãe de santo no universo do candomblé. Ao dirigir a peça, entregou a parte musical aos seus amigos do samba, que integraram o elenco numeroso. Na estreia no Teatro São Pedro, em janeiro de 1971, o trânsito foi fechado na esquina das ruas Albuquerque Lins e Barra Funda, tomada por batuqueiros e passistas que antecipavam a festa no palco. "O povo dançava e cantava, enquanto artistas famosos do teatro, cinema, televisão e música popular se acotovelavam na bilheteria para conseguir ingressos", escreveu o médico e dramaturgo Roberto Freire, primeiro a reconhecer e proclamar o talento de Plínio na obscura estreia de Dois Perdidos numa Noite Suja, anos antes em um bar no subsolo da Galeria Metrópole. Porém, e como diria Plínio "sempre tem um porém", o auê inaugural não garantiu o sucesso de Balbina nem quando, em seguida, foi estrelada no Rio com um casal em evidência nas novelas da Globo, Yoná Magalhães e Carlos Alberto.

Praticando um dos seus aforismos favoritos - "um povo que não preserva a sua cultura jamais será um povo livre" -, Plínio juntou os sambistas de Balbina e criou, ainda em 1970, o seu primeiro show com os Pagodeiros da Pauliceia. Eram seis: Geraldo Filme (de Souza), Zeca da Casa Verde (José Francisco da Silva), Toniquinho Batuqueiro (Antonio Messias de Campos), Silvio Modesto, (Geraldo) Talismã, Paulo Carrera e (Marco Aurélio) Jangada.

A estreia foi em Belo Horizonte a convite do Diretório Central dos Estudantes, a quem eles entregaram a renda inteirinha para bancar os gastos na defesa de presos e perseguidos políticos da ditadura, em plena era Médici. "Foi o cachê mais alto que assinei na vida", brincava Plínio ao lembrar o episódio. O show continuou no formato improvisado em apresentações esporádicas até que em 1973 o diretor de teatro Emílio Fontana foi chamado a dar um trato no encontro Plínio Marcos e os Pagodeiros. Ele admite que fez pouco, apenas ajudou a definir o roteiro, sem tirar a espontaneidade, e o título foi mudado para Humor Grosso e Maldito. O elenco também se reduziu aos pagodeiros disponíveis: Geraldo Filme, Zeca da Casa Verde e Toniquinho Batuqueiro. No ano seguinte, a história do samba que Plínio Marcos conta foi tema de palestras em escolas da capital. Em 1976 reuniu Geraldo, Toniquinho, Zeca, Talismã e Silvio Modesto para uma temporada na Igrejinha, casa de música popular na esquina das ruas Santo Antonio e Treze de Maio, no Bexiga.

Ao crítico Walter (Pica-Pau) Silva, Plínio relatou que "a estreia foi ameaçada, o público cantou junto com a gente e melhor". Mas você é cantor?, provocou o amigo. "Não. A bem da verdade, eu não sou nada. Mas tenho comigo compositores e cantores da pesada que garantem o sucesso e permitem que no meio disso tudo eu arrie minha cascata." Talvez aí esteja a síntese do que significou o samba na carreira de Plínio Marcos, uma forma de continuar a inquietar as pessoas e dar o seu recado em defesa da arte da sua gente que vive "nos atalhos esquisitos, estreitos e escamosos do roçado do bom Deus".

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