O samba mestiço de Curumim

O artista fala dos diálogos étnicos e retrô em seu novo disco, Arrocha

ROBERTO NASCIMENTO , O Estado de S.Paulo

27 de maio de 2012 | 03h11

A busca por "uma produção de beats que não seja americana" já tirou o sono de Curumim, cantor, produtor e baterista de destaque na cena paulistana. Um dilema justo para um artista que na época (2003) ainda tateava sua identidade musical com o elogiado Achados e Perdidos. Queria descobrir onde se situava entre influências internas e externas. Entre hip-hop e samba rock.

Pesou para o samba de violões benjorianos (Vem Menina), arranjos afro-brasileiros (Tudo Bem Malandro) e letras sobre relacionamentos (Samba Japa). Mas embora a receita apontasse para o mainstream brasuca, como se Curumim almejasse ser um Seu Jorge de sangue nipo-brasileiro, o músico manteve-se fiel à exploração de sua própria linguagem. "Hoje em dia eu desencanei dessa história de colocar um sample de pandeiro. Isso ficou um pouco mais abstrato. Posso fazer do jeito que quiser. A única coisa que permanece é que faço questão de samplear música brasileira", explica.

Os recortes do cânone da MPB são praticamente indecifráveis em seu novo disco Arrocha, lançado no final de abril e que pode ser ouvido no site soundcloud.com/curumin-oficial/. E a abstração de qual fala o levou de encontro com uma paleta sonora em sincronia com expoentes da MPB contemporânea, como Lucas Santtana, Marcelo Jeneci e Kassin. Hip-hop feito em uma MPC, o lendário instrumento associado à época áurea do gênero, dub e ecos de jovem guarda dão o tom de Arrocha, disco de sonoridade caseira que dá sequência à estética lo fi do disco anterior, Japan Pop Show.

"Recentemente, o DJ Paulão, lá de Campinas, que mora perto de casa, me deu uma máquina de rolo, daquelas antigas, que estava meio encostada. A gente passou várias coisas por ela no novo disco. Bateria, voz. Tudo para dar um som mais sujo e saturado às gravações. Usei isso bastante no novo disco", explica.

Há também uma sonoridade essencialmente paulistana, resultado das colaborações do disco. Jeneci toca aquele órgão tremido tão em voga com produtores brasileiros nos últimos anos. Gui Amabis, marido e produtor de Céu, toca guitarra e ajuda na produção. Anelis Assumpção e a mulher de Gui Amabis acompanham Curumim com vocais delicados (até o próprio canta de forma mais recatada que em seus primeiros discos, trocando a dicção malandra, com lampejos de soul, por uma mais low profile).

Um dos destaques menos conhecidos é o MC e compositor baiano Russo Passapusso, que canta em duas - Afoxoque, a faixa inicial, e em sua própria Passarinho. Esta última traz a melhor melodia do disco, acompanhada por Curumim na bateria. "O BNegao tinha me falado dele", conta. "Nos conhecemos, ele mostrou umas coisas de voz e violão e virei fã. É um cara autodidata, um clássico da Bahia, supertalentoso, com uma sonoridade impressionante", completa.

Além da máquina de rolo, da MPC e da busca por uma linguagem brasileira, Curumim também traz na bagagem influências de música japonesa. Em Arrocha, isso é menos óbvio que em Japan Pop Show, que traz músicas como Sambito, em que Curumim canta em japonês. Quando começou a usar a máquina de rolo, encontrou dentro dela gravações de música japonesa que foram sampleadas e coladas em faixas como Tupãzinho Guerreiro, do novo trabalho. Mas colar música japonesa sobre beats, qualquer um faz. Quando o nipo descendente Luciano Nakata Albuquerque responde sobre a influência do Japão em sua música, diz: "Acho que tem essa coisa de tentar fazer um som antigo. O respeito à tradição com o pé na tecnologia. É o jeito que eu faço a minha música, aceitando muito das coisas novas que vêm. Tem também o minimalismo deles. Aquela coisa de não colocar nada a mais nas produções. Quando estávamos produzindo, chegávamos ao mínimo de elementos, passávamos para o próximo", conta.

Embora Curumim não fale japonês, a herança nipônica ainda tem forte influência em sua vida. Seus avós maternos nasceram no Japão, mas vieram no berço para cá. "Mesmo não sendo uma descendência tão próxima, a família ainda guarda muito da cultura japonesa. E isso tanto nos costumes quanto no jeito de ser", explica o músico. Os avós, tios e tias de Curumim falam "japo-português" (misturam as duas línguas e falam o alfabeto japonês mais básico). A disciplina japonesa casou com o balanço daqui para dar o samba de Curumim.

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