O samba e sua economia

Semanas atrás, por ocasião de três eventos que se realizavam simultaneamente - a inauguração do Centro Cultural Wilson Moreira, o show comemorativo do aniversário do portelense Monarco e o início de uma série de rodas de partido-alto (samba em versos de improviso) lideradas pelo autor destas linhas - um jornal carioca assim iniciava matéria a respeito: "Faltam seis meses para o carnaval, mas o samba já está nas ruas..."

Nei Lopes, O Estado de S.Paulo

10 de setembro de 2011 | 00h00

Essa abordagem, reincidente em certa imprensa, retrata ou desinformação ou tendência deliberada a limitar o samba e sua cultura ao universo das escolas e ao período carnavalesco. E isso é incômodo, já que o alcance mercadológico do samba e as possibilidades de sua economia, como já dissemos neste espaço, são muito mais amplos.

Imaginemos, por exemplo, um investimento econômico-financeiro que interligasse, numa cadeia, todos os itens que compõem o fazer do samba, desde criação de obras intelectuais (músicas, espetáculos, documentários), a produção industrial e comercialização dos respectivos suportes, tais como CDs, DVDs, etc., além de veiculação no espaço virtual. Como outros itens dessa economia, incluamos espetáculos ao vivo (recitais, montagens de musicais, shows de variedades); publicação de jornais, revistas, livros e partituras; desfiles, festivais gastronômicos; moda; exposições artísticas, etc. Não temos dúvida de que, bem e profissionalmente feito, o investimento teria excelente retorno; pois o samba, como produto, dispõe, sim, de importante público consumidor.

Agora, projetemos para o investimento imaginado uma estrutura compartimentada em setores: música, teatro, cinema, artes visuais, etc. Nela, teríamos salas de espetáculo e exposição, estúdios de gravação, biblioteca, videoteca, etc. Como núcleo da estrutura, teríamos um centro de memória, com o objetivo imediato de resgatar, recompor e preservar para a posteridade todo o acervo identificador da expressão cultural denominada "samba", compreendendo criação artística, técnicas de trabalho, conhecimentos, linguagem, lendas, mitos, histórias de vida, rituais, festas, folguedos, jogos e, primordialmente, a música e a dança. Para tanto, constituir-se-ia, além de um arquivo de som e imagem, um museu de objetos representativos da cultura material do samba, tais como fotografias, símbolos, instrumentos, trajes, adereços, etc.

Pretensão demais, não?

Então, deixemos um pouco de lado a economia e caiamos na batucada "à vera"; para lembrar que, até ali por meados dos anos 60, o mundo do samba tinha hábitos de lazer e socialização muito peculiares. E que essa alegre e exuberante sociabilidade era expressa em visitas, congraçamentos de toda espécie e, sobretudo, muita festa.

Os locais dessas festas eram gafieiras e clubes sociais de classe média que funcionavam como salões de festas do samba (samba "de salão", com par enlaçado). E o formato das festividades se estendia do baile até os piqueniques praianos, diversificando-se em carreatas, "passeios marítimos" na Baía de Guanabara, festas juninas à caipira, torneios de partido-alto, batismos de "alas"; e até ecléticas programações que mesclavam futebol, brincadeiras infantis, concursos de beleza e farta comezaina.

No samba, sempre se comeu bem, com cardápios tão "suculentos" quanto variados, a cargo das famosas "tias" (num tempo em que cozinheira usava mesmo era pano na cabeça e não dólmã militar), herdeiras da velha tradição. E em quase todo baile, havia sempre o peru assado que, geralmente à meia-noite, era oferecido como prêmio à mesa que melhor "se destacasse no bufê", ou seja, que consumisse mais cervejas, refrigerantes e salgadinhos.

O núcleo irradiador dessa efervescência cultural eram as escolas de samba, que hoje, salvo raras exceções, vivem exclusivamente para a competição carnavalesca. E essa opção foi que gerou a percepção, expressa no texto comentado: "samba é carnaval, e pronto, acabou!"

Mas não é bem assim: carnaval são só três dias de folia; e samba é música, dança teatro, filme, livro, comida, bebida, consumo, etc., o ano inteiro. Quem é do samba sabe.

NEI LOPES É COMPOSITOR E ESCRITOR

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