O samba dos reis

'Estado' junta Martinho da Vila e Zeca Pagodinho, os dois maiores bambas do Brasil

INES GARÇONI , ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

20 de abril de 2013 | 02h11

Se o enredo de uma conversa entre Martinho da Vila e Zeca Pagodinho rendesse samba, seria uma canção em branco e preto, gravada em vinil, tocada na vitrola em 33 rotações, recheada de expressões como "antigamente", "tempos que não voltam mais", "saudade". Eles são de gerações diferentes: Martinho tem 75 anos, 45 de carreira; Zeca, 54, acaba de completar 30 anos de profissão - comemorados em abril, mês de São Jorge, Ogum, seu santo de devoção -, mas têm histórias de vida intimamente ligadas, costuradas por sambistas destes e de outros tempos, pelas rodas de pagode do Rio, por encontros tão memoráveis quanto este numa churrascaria da Barra da Tijuca. O Estado usou como pretexto os novos CD e DVD de Zeca, Vida Que Segue - Multishow Ao Vivo, e o lançamento do samba book de Martinho - um gigantesco projeto que inclui CDs (dois volumes), DVD, Blu-Ray, livro-disco biográfico, fichário de partituras em formato digital e aplicativos para smartphones que será lançado em 10 de maio e vendido separadamente - para juntar os dois maiores bambas do Brasil.

Martinho foi uma das principais influências do cantor do Irajá. Quando chegou, ouviu a convocação: "Vamos animar essa tendinha!" E não deixou por menos: "Vamos nessa, Jessé", nome verdadeiro de Zeca, Jessé Gomes da Silva Filho. No minuto seguinte, uma taça do vinho pedido por Martinho está nas mãos do amigo. O brinde é a deixa: "Faaala, da Vilaaaa...".

Talvez a efeméride tenha obrigado Zeca a mergulhar no passado. O novo repertório é composto por sambas que o marcaram ao longo da vida, como Aquarela Brasileira, de Silas de Oliveira, e Trem das Onze, de Adoniran Barbosa - o show estreia em São Paulo, nos dias 28 e 29 de junho. Mas embora gostem de olhar para trás, nem Zeca nem Martinho estão parados no tempo: "Ontem mesmo estava pensando num samba, falei 'vou fazer esse pro Martinho'. Quero voltar à atividade". A resposta foi imediata: "Estou às ordens".

Zeca: Faaala da Vilaaaa... Antigamente os sambistas tinham nome de sambistas, né? Sidnei da Conceição, Joãozinho da Pecadora, Candeia, Toco de Padre Miguel, Waldir 59... Waldir, aliás, que acabou de entrar para a Velha Guarda Show (da Portela).

Martinho: Muitos não queriam ser da Velha Guarda Show, Argemiro também não. Queriam ser só da Velha Guarda, que não fazia show.

Zeca: Isso porque ninguém esperava fazer do samba profissão. Me perguntaram se eu esperava chegar onde cheguei. O verdadeiro artista, como eu, Martinho, não espera. A vida vai levando a gente. Você não chega numa loja e diz 'olha, me dá aí uma estrela'. Você é escolhido. Tem tanta gente que batalha, batalha e a vida não escolhe. Pode até navegar por ali e tal, mas imaginar que vai ser aquilo, não imagina. Tem que ter verdade, tem que estar no sangue. Antigamente todo mundo trabalhava. Martinho era do Exército. O samba era paixão. Neste meu disco tem duas que Martinho gravou, Aquarela Brasileira e Batuque na Cozinha.

Martinho: Batuque... de João da Baiana.

Zeca: Pai do Nelci, o cara que me botou na música. Nelci era aquele cara que selecionava os bons. 'Você vai comigo amanhã em tal lugar', e pegava uma fita minha: 'Vou levar pra Beth (Carvalho)', levava para a Alcione, dizia 'esta música do Zeca é f...'.

Martinho: Ele sabia música que não acabava mais. Não eram músicas gravadas, a gente só cantava em roda de samba. E todo mundo cantava sem objetivo de gravação. Era cantar por cantar.

Zeca: No Cacique (de Ramos) mesmo tinha essa coisa, né? Vocês já estavam mais à frente, mas a minha geração queria ouvir a nossa música tocar. 'Pô, Martinho vai gravar minha música', e você ouvia tocando na rua. Às vezes, dentro do ônibus, via um cara com radinho e sua música tocando: 'Tá ouvindo essa música aí? Sou eu o autor'. E o cara respondia: 'É, eu também gravei com o Roberto Carlos' (Risos).

Martinho: Acho que foi lá no Cacique que te conheci.

Zeca: Não, Arlindo (Cruz) me apresentou a você no Pavilhão de São Cristóvão. Você passou e ele te chamou, 'olha aqui, este é Zeca Pagodinho, meu parceiro'. No Quizomba, lembra? Você fez uma feira lá. Tinha barraca, comida, samba...

Martinho: Isso, isso. Lá pelo final dos anos 70. Não, não, foi em 1984. Mas eu acho que te conheci no Cacique.

Zeca: Não, eu já tinha falado com você. Arlindo me apresentou rápido e fomos embora. Mas no Cacique eu comecei a versar.

Martinho: Exato, você versava lá. Era menino, lembro bem disso. No Cacique todo mundo ia para cantar. Ele era metido a versar, versava bem, ficava difícil de versar com ele (risos). E só tinha fera dos improvisos.

Zeca: E eu batia de frente com aqueles caras! O Nelci cantava assim: 'Vou dar um pagode lá em casa, comida e bebida vai ter de montão. Cada um desta rapaziada que for tem que mostrar que é bamba, para levar no meu pagode um personagem do mundo do samba'. Aí ele olhava na roda e escolhia um: 'Se eu perguntar a você, me diga quem é que você vai levar'. E ele me pegou de surpresa. Eu disse: 'Se eu já sou convidado, convidado não me convém, se eu for na tua casa, não vou levar ninguém!' Foi a minha saída. Eu me consagrei ali.

Martinho: O Cacique mudou muito.

Zeca: Mudou muito!

Martinho: O tempo é outro. Nada fica igual, né, Zeca? O Cacique, quando surgiram os acontecimentos do samba, ficou ruim. Os caras iam lá para cantar o samba no nosso ouvido, para a gente gravar. Eu não deixava ninguém cantar samba no meu ouvido, 'cara, canta para lá!'

Zeca: E tem aqueles que batucam em você, né? (risos) Batem no teu peito! (ele imita) 'Vai bater em mim? Bate em você mesmo, pô'. Ficou chato isso. O Cacique era bom porque reina-va uma disciplina. Lá de fora você escutava a batucada rasteirinha, muito violão, Jorge Aragão, Nilton Barros, Hélio, Sereno. Tinha pandeiro, mas sem estardalhaço.

Martinho: Ninguém queria bater mais forte que o outro.

Zeca: Era lindo. A primeira vez que fui no Cacique, me arrepiei. Ali era amor. Os caras cantavam e choravam. Hoje vejo assim: 'vou fabricar um cara aqui'. O pai ou a mãe querem que o cara seja jogador de futebol ou 'pagodeiro'. Aí fica complicado. O sujeito lança um disco só e já está de brinco, dez seguranças. Não pode nem pagar os seguranças, coitadinho.

Martinho: Por falar nisso, Zeca, vou falar algo que nunca falei. Na história da música, nunca vi um artista como você. O sucesso muda o cara, e é normal mudar, porque o cara muda de vida. Mas nunca vi alguém igual a ele. O Zeca que está aqui é o mesmo Zeca que conheci há 30 anos.

Zeca: É mesmo... Eu só digo o seguinte: no Natal, lá em casa, a gente sempre comprava Martinho, Clara Nunes, Roberto Carlos e João Nogueira. Tudo à prestação. Aprendia os sambas do Martinho para cantar na rua. Cantava na Abolição e, no outro dia, no pagode do Arlindo, todo mundo já sabia cantar. Era um boca a boca legal. (...)

Martinho: E a gente tinha quase obrigação de mandar um samba novo quando chegava no pagode. 'Zeca, manda um novo aí', e se ele não tinha, preparava um mais ou menos, terminava ali na hora. (...)

Zeca: Era um verso bonito demais. Hoje não vejo criatividade, não vejo poesia. Tem muito aquele negócio de 'ah, você sentou na boneca e não quer se levantar'. Não tem mais poesia. Eu gostava de versar com Arlindo, a gente falava bonito. Era muita namorada, a gente ficava inspirado. Via uma menina nova chegar e dizia, 'vou fazer um samba para a blusa daquela menina, para a flor no cabelo dela'. Agora está meio água barrenta.

Martinho: Teu primeiro disco estourou antes em São Paulo, não foi?

Zeca: Sei lá, essa p... aí...

Martinho: Foi. Eu não sabia que você tinha gravado, estava em São Paulo quando alguém botou um disco na vitrola e, quando fui ver, era o Zeca.

Zeca: E eu que ficava aprendendo as músicas do Martinho para cantar nas festas dos vizinhos, hoje sou parceiro dele. O verdadeiro artista nunca imagina nada. Pergunta se Martinho imaginava alguma coisa? P... nenhuma. (...)

Martinho: Aí, Zeca com 30 anos de carreira, que beleza.

Zeca: E tinha gente que dizia que eu não chegava aos 30 anos de idade...

Martinho: Antigamente, 30 anos já era assim meio...

Zeca: Estou falando assim pela vida que eu levava. 'Esse aí não dura...'

Martinho: Podia não chegar, podia. Porque do jeito que tu andava, pela... mas não estava na hora, só sobe na hora, só sobe na hora.

Zeca: E tinha gente que dizia assim: 'Coitada da mulher que casar com esse rapaz'. E hoje meus filhos todos na faculdade, trabalhando. Por isso que eu te falo, não pode prever nada, a vida é que vai dizer o que vai ser.

Martinho: No passado, não se pagava sambista. Eu mesmo era uma estrela número 1 do Brasil e ninguém queria me pagar para cantar. (...) Eu fiz um movimento grande para o sambista não cantar na casa dos outros de graça. (...)

A pedido do Estado, Zeca encontra Martinho para falarem dos dois inabaláveis reinados da música brasileira

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