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O saco de Papai Noel

Ganhei a bicicleta e com ela tenho percorrido muitos caminhos, alguns esburacados pela má-fé

Roberto DaMatta, O Estado de S.Paulo

27 Dezembro 2017 | 02h00

Foi num Natal da minha meninice que meus tios Silvio, Mario e Marcelino revelaram o segredo: Papai Noel não existia! Senti o choque tantas vezes renovado quando uma ilusão é arruinada.

Só os retardados acreditavam, diziam meus tios, naquele velhinho americano milionário, imperialista, gordo que voava em trenós, usava uma roupa de rei e tinha o mau gosto de morar no gelo. Meus tios amazonenses detestavam o inverno de Niterói!

Todos cobriram o bom velhinho Noel com um traço negativo, e meu Tio Marcelino, o comunista da família - toda família brasileira tem um dissidente, um doente, um rico, um louco e um boçal simpático ao Bolsonaro ou ao Lula -, destacava o saco de brinquedos de Papai Noel. Símbolo privilegiado dos que davam presentes. Só os trouxas acreditavam nesse Papai Noel que encarnava um dos mais perversos tentáculos do capitalismo, do mercado e da propaganda. Se eu começava a duvidar de coisas mais reais e sérias, como Deus e milagres, agora descobria que Papai Noel era mais um engodo.

O que vai acontecer com a bicicleta que eu havia pedido a Papai Noel?

Em plena contradição, realizei o doloroso diálogo interno inexistente entre os políticos que abundam entre nós, cuja psicopatia jaz nessa ausência de conflito interno.

Claro que você vai ganhar a bicicleta, disse meu lado inocente. Ainda mais agora que você sabe que Papai Noel não é aquele f.d.p. capitalista e deve ser o seu pai! Fique tranquilo, o seu Papai Noel não vai lhe negar a tão esperada bicicleta. Afinal, o Natal é uma festa de Igreja e não um comício populista contra o capitalismo.

Na sala de jantar, encontrei vovó e mamãe armando a árvore de Natal e falando do presépio da igreja do Ingá. A singeleza do Menino Deus na manjedoura; da devoção de Maria, José, dos pastores pobres e dos Reis Magos, que testemunhavam o milagre da encarnação daquele que veio ao mundo para nos salvar de nós mesmos, aplacou minha decepção.

É claro que vovó e mamãe não falaram com essa presunção de cronista, mas disseram mais do que isso por meio de sua fé e de seu amor. Fé, amor, beleza e verdade estão ligados, queridos leitores.

Elas resolveram uma oposição que, anos depois, fui ler num ensaio como sempre sábio de Claude Lévi-Strauss, escrito a propósito de um Papai Noel supliciado no adro da igreja de Dijon, França, no Natal de 1951. Pois avó e mãe mostraram para o menino que a oposição entre o presépio e um Papai Noel capitalista era aparente. No fundo, ambas diziam uma mesma coisa: eram rituais de esperança e troca. Ambas religavam o céu e a terra, o passado e o presente, a morte e a vida, adultos e crianças que o cotidiano obrigava a apartar na sua obrigação de nos tornar humanos. Na manjedoura, o Menino Deus abençoava, do mesmo modo que o grande saco de presentes de Noel renovava a fé na generosidade.

Mas será que eu vou ganhar a bicicleta?

Ganhei a bicicleta e nela eu dei muitas voltas. Cheguei à ousadia de ir ao centro da cidade. E com ela eu tenho percorrido muitos caminhos. Alguns esburacados pela má-fé, pela desonestidade e pela burrice. Mas eu vou tocando a mesma bicicleta numa estrada pavimentada pelos meus sentimentos de gratidão por ter tido aquele Natal avuncular tão revelador.

E você, leitor? Você ainda acredita em Papai Noel? A propósito: você tem tios?

Minha vivência foi a do lado sobrenatural do Natal, simbolizado pelo presépio e o seu lado, digamos, social (mas não menos mitificado) representado pelo saco de brinquedos que foi importado por difusão dos Estados Unidos, o qual é acompanhado de todo o cenário de produtos industriais natalinos como árvores, luminárias, papéis especiais e, acima de tudo, os maravilhosos presentes que fazem com que o Natal moderno se assemelhe - como me revelou esse mesmo Lévi-Strauss no seu genial As Estruturas Elementares do Parentesco (traduzido publicado pela primeira vez no Brasil numa coleção dirigida pelo prof. Castro Faria e pelo vosso cronista) - a um ritual dos nativos da Columbia Britânica, o potlatch, no qual se realizava uma troca avassaladora e agnóstica de presentes entre chefes tribais.

No caso do Natal, há igualmente uma intensa troca. Desta vez entre gerações que se dão mutuamente nos regalos que os mais velhos dão aos mais novos - Deus permitindo e querendo - de modo mais amoroso e sofisticado. No meu tempo de menino, o máximo era uma bicicleta. Hoje, o repertório incluiu viagens, automóveis e cargos públicos, dinheiro e empreiteiras. Neste sentido, o Natal dos presentes e o dos presépios são rituais que unem gerações abolindo o tempo pela repetição dos presentes. O saco de Papai Noel concretiza elos de sangue e espírito com os quais nos damos uns aos outros.

O simbolismo e o ritual revestem a crueza do mundo. Papai Noel, é claro, existe e não existe. Falar disso, porém, é uma outra croniqueta...

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