Imagem Milton Hatoum
Colunista
Milton Hatoum
Conteúdo Exclusivo para Assinante

O ronco e o divórcio

Dizem que uma das causas do divórcio é o ronco. Quando o casal ronca, com timbres e em tempos diferentes, a mútua perturbação noturna soa como um pacto secreto. É um caso raro de cumplicidade, em que os amantes são cúmplices até no sufocamento. Mas quando só um dos parceiros ronca, o desamor do outro cresce.

Milton Hatoum, O Estado de S.Paulo

27 de fevereiro de 2015 | 02h07

Antes do desamor, do ódio e da separação, há várias tentativas vãs. Exemplos: dormir em quartos separados; protestar contra a falta de sensibilidade do roncador (sejamos cavalheiros nesta terra de muitos machos brutos: só os marmanjos roncam); pedidos reiterados da vítima ao roncador para que este consulte um médico, etc.

Percebi a gravidade do distúrbio do sono num hotel de Caracas, há mais de duas décadas. Meu companheiro de quarto - um gigante de dois metros de altura e cento e vinte quilos - roncou durante toda a noite. Parecia que o Monte Ávila estava estremecendo, ou que um touro resfolegava na cama ao lado. Foram três noites insones numa Caracas que mal conheci, pois durante o dia eu era um zumbi de feições sombrias.

Com o passar do tempo, eu também me tornei um touro resfolegante durante a noite e um ser sonolento durante o dia. Cheguei ao cúmulo de cochilar no meio de um almoço com amigos e emitir sons cavernosos que assustaram até os mais corajosos. Desde então, fui proibido de dirigir qualquer veículo.

Uma dentista sugeriu que eu usasse um aparelho bucal para melhorar a respiração. Mas alguma coisa não deu certo com o diabo do aparelho, cujas pontas de aço feriam minha gengiva. Além disso, acordava com o maxilar inferior projetado para frente: verdadeira experiência diurna de prognatismo involuntário.

Deixei de lado o aparelho e passei uma noite no hospital, monitorado por equipamentos eletrônicos que medem as interrupções do sono. Quando fui ver o resultado dos exames, a médica mostrou o gráfico do meu sono perturbado, que mais parecia o gráfico de um vivo-morto ou de um morto-vivo, tantas eram as paradas respiratórias. Ela me deu uma explicação complicada sobre a apneia obstrutiva, o ronco e seus riscos; no fim da consulta, me disse gentilmente que eu devia escolher entre o divórcio iminente, a morte por parada cardíaca ou a maquininha.

Maquininha?

Uma espécie de "respiradouro", ela riu.

Essa engenhoca caríssima - que nenhum plano reembolsa e o SUS ignora - foi eficaz. Mas para dormir sem distúrbios, você tem que usar uma máscara conectada a um tubo por onde passa uma corrente de ar frio. Essa respiração induzida - eu teria preferido boca a boca - transforma o rosto do roncador no de um piloto de caça que rompe a barreira do som. E som é o que não falta a essas noites de livre respiração: o ronrom agudo da maquininha e o sopro grave do fluxo de ar no tubo ligado à máscara. São dezenas de decibéis ininterruptos, pois não se debela a apneia obstrutiva em silêncio absoluto.

De vez em quando sou tomado por um inconsciente impulso de rebeldia: arranco a máscara e o tubo, e desligo a engenhoca. E por uma magia - ou por algo que desconheço - desperto com a mesma máscara ligada ao tubo, e escuto o risinho vingativo da amante que passou 1.001 noites em claro, maldizendo a roncaria e ameaçando a vida amorosa.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.