O Rock está salvo de novo

Fazendo de conta que várias das músicas de Angles já não estavam circulando na internet em versão ao vivo ou de programa de TV ou mesmo algumas "reais" de estúdio, você aperta play para ouvir o álbum do quinteto nova-iorquino desde sua faixa 1 carregando as seguintes expectativas: 1) Dez anos depois de "salvar" o rock com um entusiasmante sangue novo, atitude "suja" de garagem transmitindo encantamento fashion para a velha jaqueta de couro e camisetas de brechó, a feliz coincidência de surfar a mesma onda do começo da era do MP3, além de, claro, muitas músicas boas, os Strokes ainda interessam em 2011? 2) Cinco anos depois de seu último disco de estúdio e um esgotamento criativo que levou seus integrantes a aventuras solo, essa nova reunião em disco dos Strokes faz sentido hoje em dia?

Lucio Ribeiro, O Estado de S.Paulo

15 de março de 2011 | 00h00

Aí, então, você aperta o play e ouve Machu Picchu. Na sequência, o novo hit Under Cover of Darkness. E, depois, a bela Two Kinds of Happiness. Pronto, você está arrebatado. O novo Strokes é, sim, o resgate do velho Strokes. O rock está salvo novamente.

Depois vêm os problemas, se é que são problemas. Se as três primeiras trazem o rock simples e direto que deu fama aos Strokes-2001, a banda cede à esquisitice e aos experimentalismos até a música 10, Life Is Simple in the Moonlight, uma... bossa nova.

As primeiras audições de Angles não deixa muita chance para dúvidas: quando os Strokes tentaram ser Strokes, mesmo que com isso não necessariamente mostra uma evolução, eles acertaram. Quando assumiram uma postura "precisamos andar para a frente", caíram ou na eletronice anos 80 que é perfil do vocalista Julian Casablancas solo ou na malemolência bossa-novista que vem das experimentações do baterista brasileiro Fabrizio Moretti com os amigos brasileiros do Los Hermanos.

É mais ou menos isso: depois da trinca vencedora que abre o novo álbum, o resto de Angles, com algumas exceções como talvez Taken for a Fool, parece o segundo disco solo de Casablancas e de Moretti, misturados.

O que não significa exatamente um resultado ruim, mas, cadê os Strokes-2001? Ou, entenda, cadê os Strokes-2001 em 2011?

Com a excitação da espera e a série de shows que a banda iniciou no último sábado em Las Vegas e vai correr mundo até o ano que vem, o próprio Strokes vai botar o disco em xeque. O quanto das novas músicas vai estar presente no setlist das apresentações e o quanto o público vai dar bola mais para os antigos hits do que os novos determinará a importância de Angles para uma das bandas mais importantes dos anos 00.

"I"ve been all around this town/Everybody"s been singing the same song for 10 years (algo como "todos têm cantado a mesma música pela cidade por 10 anos)", canta Julian Casablancas no single Under Cover of Darkness, o carro-chefe de Angles.

Julian aqui é auto-irônico. Diz que não saiu de circulação, observou a cena de perto e que todo mundo no rock parece cantar a mesma música desde que os Strokes gritaram Last Nite em 2001, chacoalhando lá atrás essa mesma cena que ele diz não ter mudado. Então, pelo menos com as três espertas primeiras faixas de Angles, Julian e amigos vêm com mais do mesmo, já que o mesmo, no caso dos Strokes, é muito bom. O resto do álbum deve ser posto de lado na hora de escolher as músicas para seus shows lotados de fãs ávidos pelo Strokes-2001.

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