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O ritual para se abrir a cesta de Natal

Quem compra tais cestas? Indagávamos e ficávamos peruando, indo de lá para cá a olhar para as caras de possíveis compradores

Ignácio de Loyola Brandão, O Estado de S.Paulo

21 de dezembro de 2018 | 02h00

Todos os anos, chegam em casa duas cestas de Natal, às vezes ao mesmo tempo, às vezes com diferença de dias. Uma vem da Global que publica meus livros há 35 anos. A outra de uma amiga, Lygia Carvalho, autora de um delicioso livro sobre Santos, mulher que discorda de mim em muitas coisas, principalmente em política, mas somos a prova de que opostos podem conviver, com respeito. O importante é que nestes dias as duas cestas provocam minha memória afetiva. Trazem de volta um dos rituais mais encantadores de minha infância. A abertura da única cesta de Natal que tivemos.

Araraquara, anos 1940, plena guerra. A Mercearia Lauand deixava a mim e ao Luiz Gonzaga, meu irmão mais velho, deslumbrados com a decoração natalina e com as cestas de Natal abertas, revelando tesouros como figos secos, tâmaras, nozes, castanhas de Portugal, latas de sardinha, vinhos (de onde seriam?), torrones, damascos (só sabia que existiam pelos filmes sobre o Oriente, estrelados por Maria Montez e John Hall), passas americanas em caixinhas vermelhas, caixas de bombons, vidros de azeitonas, latas de marmelada, pessegada, goiabada, azeite, temperos.

Quem compra tais cestas? Indagávamos e ficávamos peruando, indo de lá para cá a olhar para as caras de possíveis compradores. Certa vez, um senhor, nos disseram que da família Lia, entrou e escolheu duas. Quase caímos de costas. Nas nossas cabeças só quem podia comprar aquilo seria um Morganti, um Lupo, um Gravina, um Albiero, um Blengini, um Tedde Neto, um Chiquinho Vaz, um Dindin Garita, um Rubinho Lombardi, um Zaramella, um Somenzari, um Vono, um Barbieri. Cestas eram inacessíveis a gente como eu. 

Até o dia em que meu pai chegou em um carro de aluguel do Ponto da Matriz, ouvi barulho, corri abrir e ele entrou majestosamente com uma cesta de Natal nas mãos, depositou-a sobre a mesa da sala. Mamãe veio da cozinha, enxugando as mãos no avental. Havia sempre uma sopa à tarde, substanciosa e barata. Quente, queimava a língua naqueles dias causticantes de dezembro na cidade onde mora o sol.

“Que loucura é essa Totó?” Era o apelido de meu pai, de nome Antônio.

“Comprei!” Meu irmão veio afobado: “Vamos abrir logo, ver o que tem”.

“Nada disso”, disse mamãe, imperativa. “Primeiro, todo mundo toma banho, põe roupa limpa, janta. Depois arrumamos a cozinha e vamos abrir. Uma cesta de Natal, e esta é a nossa primeira, é muito importante, coisa séria.”

Desta vez, Luiz e eu brigamos para entrar correndo no banheiro, quando sempre era o contrário – vai você; não, vai você; não, pode ir. Banho tomado, sabonete Gessy, todos vestidos, bonitos, engolimos a sopa velozmente, vendo que papai fazia o mesmo, tão ansioso como os filhos. Não teve sobremesa, aliás nem se usava, a não ser em certos dias. Papai tomou leite frio com farinha de milho, um hábito da vida inteira. Cozinha limpa, portas abertas, o ar parado, cigarras cantando, revoada de andorinhas (desapareceram da cidade), papai ligou o rádio, ouvia-se a Hora do Brasil, odiosa e chata desde aquela época.

“Como conseguiu comprar, Totó? Nunca me disse nada.”

“Surpresa. Desde janeiro, a cada mês separei um dinheiro. Ficou naquela caixa de sapatos da Casa Barbieri no fundo do guarda roupa. Quando chegou novembro, tinha o dinheiro, fui lá, escolhi.”

Claro que não existia poupança, nada disso, cada um guardava seu dinheiro como podia, quem tinha conta no banco recebia um juro por mês, e somente os chiques tinham conta. A verdade é que, retiradas as finas fitas de papel e uma palha que protegia tudo, as maravilhas foram saltando. Meu pai sabia fazer suspense e criar clima, afinal, o irmão dele, tio Geraldo, era o melhor rádio ator da PRD-4, Rádio Cultura, que para orgulho geral nasceu antes da Rádio Nacional do Rio de Janeiro.

Para desespero nosso, não pudemos tocar em nada daquilo espalhado sobre a mesa, iluminado por lâmpadas de 50 velas, afinal era tempo de guerra e devíamos economizar energia. Teríamos de esperar oito dias até o Natal. Anos mais tarde quando vi o filme Os Últimos Passos de Um Condenado à Morte, soube o que é esperar dia a dia, contando horas, minutos, segundos, até sentar-se na cadeira elétrica ou na câmara de gás. Segundo a segundo até colocar a mão em uma passa, uma castanha, um chocolate, um damasco, uma castanha assada, um torrone Montevergine. Para enfim atirar-nos com volúpia às delicias da cesta que, esgotada, ficou no alto de um guarda-roupa na casa dos meus pais, por anos e anos, guardando recortes de jornal, papel de presentes, contos que meu pai vez ou outra mostrava, fotos de mamãe solteira, uma carta dela para ele, em que as palavras estavam escritas com as silabas todas ao contrário, um código pessoal, que nunca deciframos. Quais segredos eram trocados por um casal que vivia junto o tempo inteiro, nunca se desgrudava? Um dia, a cesta desapareceu. 

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