O ritmo cardíaco de Maceo

Saxofonista de James Brown lidera desembarque da lendária banda do Padrinho do Soul, em junho

JOTABÊ MEDEIROS, O Estado de S.Paulo

22 de abril de 2012 | 03h10

A fama de autoritário de James Brown se devia ao esforço descomunal que ele despendia para parecer perfeito, diz o saxofonista Maceo Parker, de 69 anos, um dos mais próximos músicos e colaboradores do Padrinho do Soul. "Não podia se atrasar, não podia vir sem o uniforme, não podia se envolver em problemas. Mas era um sistema que funcionava. Ele também detestava que você dissesse amém o tempo todo. Se fizesse isso, também não teria dado certo."

A pegada distintiva de Maceo Parker é um dos sons mais influentes na história da música negra desde que foi ouvida pela primeira vez em Papa's Got a Brand New Bag, em 1964. Mas ele não tem a menor intenção de tirar um milésimo dos créditos do seu mestre. "James Brown era dinamite. Ele não inventou o funk, mas foi um inovador do funk. Seu estilo o precedia. O jeito como ele o fazia, como dançava, como gritava, uivava, como extravasava suas emoções, tudo isso gerou uma revolução", disse o saxofonista, em entrevista ao Estado. Maceo Parker está a caminho do Brasil para o BMW Jazz Festival. Ele toca no sábado, 9 de junho, às 20h30, no Via Funchal (no dia seguinte toca no Parque do Ibirapuera, de graça).

Ao convidar Fred Wesley e Pee Wee Ellis (o resto da seção de metais da banda The J.B.'s, que acompanhava o veterano mestre do funk) para fazer uma "funky fiesta" em São Paulo, Maceo se prepara também para reviver uma mística da música negra americana. "Digamos que eu seja 98% funky, e 2% outras coisas. Quando eu me encontro com esses caras, Pee Wee e Fred, a mágica acontece. A gente sempre teve as nossas próprias bandas, mas quando estamos juntos tudo volta", ele anuncia.

"Nós vivemos uma época em que todo mundo ia a James Brown. Era como um oráculo. Eles vinham ao estúdio e ouviam e queriam gravar o funk. É o que acontecia com todos eles - Brian Ferry, Rod Stewart, Jane's Addiction, Living Colour, Keith Richards. Eles ouviam e depois vinham atrás de mim e perguntavam: você pode vir com a gente para gravar alguma coisa? Eu sempre dizia: sim!", conta o saxofonista.

"Quando James Brown me procurou, ele ouviu minha música e disse: 'O estilo de Maceo complementa meu estilo.' Ele me usou da forma que achava adequada e aquilo funcionou magnificamente. Sou grato a ele e a todos que decidiram colocar Maceo Parker em seu som", afirma. Esse amálgama já desembarcou no Brasil uma vez: foi em 2001, no Olympia, há 11 anos, e Maceo não tem mais lembranças daquela apresentação.

A banda que Maceo traz consigo para tocar os hits de James Brown é o que ele chama de "um time familiar", e não é força de expressão. Seu filho, o cantor Corey Parker, está nos vocais. Seu sobrinho, Marcus Parker, é o baterista. O baixista é ninguém menos que Rodney "Skeet" Curtis, que tocou no Parliament-Funkadelic. Completam o time Dennis Rollins (trombone), Ron Tooley (trompete), Will Boulware (teclados) e Bruno Speight (guitarra). A visão dessa gente toda junta, mais The J.B.'s, deverá ser histórica.

Maceo Parker também trabalhou com outras duas lendas da black music, George Clinton e Bootsy Collins. Hoje, ele diz que sedimentou um tipo de música que define apenas como "Maceo sound", que se pode resumir como sua contribuição ao soul de James Brown nos anos 1960, o soul de George Clinton nos anos 1970 e uma pitada de jazz e até de hip-hop.

"Eu sou grato a ele, mas agora tenho minha própria obra", disse o saxofonista. Sua gravação mais recente foi o disco Roots & Grooves, de 2008, no qual, surpreendentemente, aparece cantando. "Quando eu soube que meu manager tinha arrumado uma big band para gravar, com 15 metais, eu me lembrei de um velho sonho: eu queria cantar músicas do Ray Charles. Eu já tinha feito isso de forma casual, e descobri que tinha uma voz parecida. Minha voz não é estável. Às vezes eu gravo e depois a gente ouve e diz: Uau!. Mas aí, de tempos em tempos, ela sai minguada, eu pareço que estou uivando no microfone. É uma contribuição que depende de sorte", ele diz, às gargalhadas.

Maceo discorda das teses históricas que colocam James Brown como o originador do rap. Poucos músicos foram tão sampleados quanto Brown e George Clinton. "Não acredito. Rap é poesia e rimas com uma base musical. É só o cara falando. James Brown não falava, ele sempre colocava ritmo na voz. Ele sempre usava a letra como um elemento dramático, com seu balanço e seus gritos. Acho que o scat do jazz é algo mais próximo da origem do rap", disse.

"Eu gosto de Kanye West e Jay-Z. Adoro. Mas o que eu faço não é isso. Não gosto de falar mal de nenhum gênero, sempre reconheço qualidades em todos. Não gosto das coisas negativas. Há um tipo de rap que tem coisas negativas em sua estrutura, mas eu pessoalmente não adoto coisas negativas em minha música", diferencia. "Quando a gente fica mais velho, fica mais cuidadoso com as palavras. Eu perdi esse ímpeto de falar o que me vem à cabeça, de ofender pessoas. Não gosto de insuflar o ódio. O que eu digo agora, e é a minha verdade, é sempre 'nós amamos vocês'. É o que estamos indo fazer no Brasil."

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