O risco de uma contaminação especulativa

Análise: Maria Hirszman

O Estado de S.Paulo

20 de setembro de 2012 | 03h08

Que o mercado dita as ordens no cenário artístico internacional, todo mundo sabe. O que parece surpreender cada vez mais é seu fôlego aparentemente inesgotável. Volta e meia leem-se nos jornais informações sobre recordes de preços. E nos mais diferentes segmentos. Recentemente, tivemos a venda para o Catar de uma das versões de Jogadores de Cartas, de Cézanne, por US$ 250 milhões; O Grito, de Munch, levou 15 minutos para ser arrematado por US$ 120 milhões. No campo brasileiro, as notícias também são impressionantes, como os preços astronômicos obtidos de duas artistas ainda jovens, Beatriz Milhazes e Adriana Varejão. A proliferação de galerias nas principais cidades brasileiras, bem como a vitalidade das SP-Arte e da ArtRio são indicativos de que a crise aparentemente passa ao largo da arte.

Uma das explicações mais evidentes é a de que a crise não afetou os mais ricos, que procuram avidamente novas formas de investimento, em mercados menos afetados do que o sistema financeiro americano e europeu e voltam naturalmente seus olhos para os mercados ditos emergentes: em primeiro lugar a China, cujo mercado de arte apresenta valorizações astronômicas; e, evidentemente, o Brasil. Além de porcentagens e cifras animadoras, é preciso estar atento para a contaminação especulativa cada vez mais evidente do mercado. Esse sentimento foi expresso de forma precisa pelo agente da Bonhams, Anthony McNerney, em depoimento ao jornal The Independent: "Quando há muitos anos comecei na Christie's, os clientes perguntavam-me sobre o trabalho e o artista. A partir de finais de 2007, começaram a perguntar: quanto é que isto me vai custar e quanto é que vai valer". Triste sina para um país com instituições culturais frágeis, que ficam à mercê de um sistema, cuja dinâmica ávida e concentradora está muito além de suas possibilidades.

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