O Rio por Debret

Chamado tantas vezes de etnógrafo e historiador, o artista Jean-Baptiste Debret, autor de Viagem Pitoresca e Histórica ao Brasil (já publicado no País pela editora Itatiaia), poderia, também, receber a alcunha de repórter. Seria tão fora do lugar quanto a de etnógrafo está fora de seu tempo, mas talvez seja até mais exata - ou mais útil para pensar sua obra. A edição de parte de seu trabalho, sob o título de Rio de Janeiro - Cidade Mestiça (Companhia das Letras, 198 págs., R$ 78,50, organização de Patrick Straumann), ajuda a entender como é possível a associação entre seu trabalho e o do jornalista. De certo modo, está ali o melhor que produziu Debret, em sua passagem de 15 anos pelo País: um painel, feito de imagens e de textos, da vida cotidiana do Rio de Janeiro, especialmente da relação entre senhores e escravos. Como lembra o historiador Luiz Felipe de Alencastro, autor de O Trato dos Viventes, em texto publicado no volume, em 1849, o Rio contava com uma população de 266 mil habitantes, 41,3% deles escravos. Embora o trabalho de Debret seja anterior (foi publicado na França entre 1834 e 1839), e as estatísticas dos anos precedentes sejam menos precisas, "as proporções não deviam ser muito diferentes". Devemos a Debret, portanto, o registro de muito do cotidiano trágico e aberrante que a escravidão e o contrabando de escravos (em 1831, o tráfico é oficialmente banido, "para inglês ver") impunham à capital, primeiro do Reino Unido, depois do jovem Império. Debret veio ao Brasil, em 1816, a convite do rei d. João VI, como integrante da missão francesa. Como ´pintor da história´, foi nomeado professor da Academia Real de Ciências, Artes e Ofícios - que, no entanto, demorou a sair do papel, por causa de problemas burocráticos e divisões políticas. Já era um pintor da corte de Napoleão, e o que o traz ao Brasil é exatamente o oposto do que fez o príncipe português deixar a Europa. D. João deixa Portugal quando está sob a ameaça de invasão de tropas napoleônicas. Já Debret, um protegido da corte do imperador francês, decide deixar a França quando Napoleão perde o poder, numa das várias restaurações da monarquia após a Revolução Francesa. CensuraComo não se contenta em ser apenas um pintor oficial, Debret passa, pouco a pouco, a registrar a vida nas ruas e nas casas da cidade. Percebe que só as imagens (o pitoresco, em seu sentido primeiro, ainda não contaminado pelo mal uso da expressão, mas que já adianta um pouco da imagem do jornalismo nos dias de hoje) não são suficientes para explicar o que vê, daí a decisão de fazer textos acompanharem as litografias. Nem por isso deixa de cumprir suas funções primeiras, às vezes, com um pequeno contragosto, evidente no texto de Pano de Boca Executado para a Representação Extraordinária Dada no Teatro da Corte por Ocasião da Coroação de d. Pedro I, imperador do Brasil: "Essa composição foi submetida às observações do primeiro-ministro José Bonifácio, que a aprovou. Ele apenas me pediu que substituísse as palmeiras naturais por um motivo arquitetônico regular, para afastar toda idéia de estado selvagem." Há muita nuance no que Debret descreve. Na imagem do alto desta página, por exemplo, ele explica por que razão o escravo à frente está vestido de modo diferente do que segura a rede atrás: "Aqui, o traje dos carregadores indica que podem variar de roupa de acordo com o calor que sentem." Debret também está atento às diferentes origens africanas dos escravos, e faz, tanto para homens quanto para mulheres, bustos que identificam os tipos principais. Também conta a evolução dos costumes: em Uma Senhora Brasileira em Seu Lar, coloca "a moça da casa, pouco adiantada na leitura, conquanto já bem grande", esforçando-se "para soletrar as primeiras letras do alfabeto". Ao final, faz uma ressalva: "Devo acrescentar com justiça que em 1830, ao contrário, não era raro ver as filhas de um simples funcionário já se distinguirem pela dança, pela música e por vagas noções de francês, educação que as fazia brilhar nos saraus e dava-lhes possibilidade de realizar um casamento mais vantajoso." Ainda há em Debret um olhar atento para as manifestações culturais, como o carnaval, a venda de refrescos e frutas pelas ruas do Rio de Janeiro e a organização de ordens religiosas pelos negros, que contribuíram para a construção de várias igrejas na cidade. Vale destacar, ainda, a imagem Sapataria, que consegue dar conta da violência e do sadismo da escravidão, da divisão entre negros e mulatos, muito bem orquestrada pelos brancos, e da miscigenação que comporia um quadro racial típico. Como ela não está nesta página, compensa reproduzir todo o trecho selecionado pelo organizador Straumann, com itálicos do resenhista: "O desenho representa a loja opulenta de um sapateiro português, castigando seu operário escravo; sua mulher mulata, embora ocupada em aleitar o filho, não resiste ao prazer de ver um negro ser castigado." Mas não são apenas as qualidades que aproximam Debret do jornalismo. É preciso olhar também para seus defeitos. Não fosse sua passagem pelo Brasil, certamente Debret entraria para o grande buraco negro dos pintores franceses medíocres (talvez até um pouco menos que isso) do início do século 19. Seus desenhos são freqüentemente desproporcionais, sendo, muitas vezes, difícil diferenciar os homens das mulheres. Embora artista, não produzia exatamente obras de arte, no sentido estrito do termo. Além disso, Debret coloca em duas de suas pranchas ciganos no comando do negócio de escravos, o que é um pequeno delírio histórico - ou porque Debret não viu o óbvio, ou seja, que a elite brasileira comandava o negócio, ou porque o óbvio não podia ser visto. Discutindo a obra de Debret e de outros viajantes, como Rugendas e Eckhout, o historiador francês Serge Gruzinski pergunta num subtítulo: "Obra de arte, folheto turístico ou documento histórico?" Ele escreve: "Vê-se que não é tão fácil contrapor o testemunho do artista romântico ou clássico do século 19 ao dos antropólogos e fotógrafos do século 20." E continua: "Quantas imagens fotográficas ou filmadas dos índios da Amazônia ainda estão repletas de preconceitos, acima dos quais continua a pairar o sonho de uma utopia primitiva? Quantas imagens da população brasileira de hoje - a começar pelas de Sebastião Salgado - são marcadas por um miserabilismo mais suspeito ainda na medida em que se acompanha de um formidável sucesso midático e comercial?" Se Debret não conseguiu escapar de todos os preconceitos e pressões de sua época, foi capaz de indicar caminhos que a ciência só seguiria muito depois, como também observa Gruzinski. A falta de uma abordagem sistemática o afasta, contudo, da ciência etnográfica, colocando-o entre o autor do folheto turístico e o do documento histórico. Mas que bom jornalista não se sentiu mais ou menos nesse lugar, entre uma ou outra crise de melancolia?

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.