O Rio, em imagens inéditas

A exposição Visões do Rio na Coleção Geyer, a partir dessa terça-feira, no Centro Cultural Banco do Brasil, traz ao público 180 obras inéditas. Elas ocuparão o primeiro andar do CCBB até 12 de dezembro. A coleção é uma brasiliana: elenco de peças feitas por estrangeiros sobre o Brasil. Entre as 5 mil peças do acervo da família Geyer, a curadoria privilegiou um olhar sobre o Rio de Janeiro. Toda a coleção foi doada ao Museu Imperial de Petrópolis por Paulo e Cecília Geyer, em 1999. Entre os artistas mais representativos, a coleção Geyer tem Rugendas, Taunay, Henry Chamberlain e Victor Meirelles, em obras até hoje desconhecidas do grande público. Além de pinturas a óleo, aquarelas, desenhos, álbuns raros e livros ilustrados fazem parte do catálogo. "Esta coleção deve ser a maior brasiliana em mãos privadas do País", diz a curadora Maria de Lourdes Horta, que providenciou um serviço de guia sonoro com fones de ouvido para a exposição. Ela também avisa que a parte do acervo relativa ao Rio de Janeiro é, possivelmente, a maior que uma coleção possa ter. "Há peças sobre o Rio na coleção Geyer que nem a Biblioteca Nacional tem em seus arquivos", conta. A exceção ao ineditismo fica por conta de cinco pinturas de Righinni, pintor italiano que viajou pelo norte do País, que estiveram na Mostra do Redescobrimento. Maria de Lourdes, que também é diretora do Museu Imperial, diz que as obras não ficarão em exposição permanente em Petrópolis: "a oportunidade é única". E, pelo que diz, uma boa oportunidade. "O que diferencia uma coleção de arte brasiliana de outra é a abrangência e a raridade", diz, lembrando que esta compreende visões do País desde o início do século 18 até o fim do século 19. Raridades não faltarão nas galerias do CCBB a partir de terça-feira. Retratos de escravos feitos pelo português Joaquim Cândido Guillobel, arquiteto do Museu Imperial, e Vista da Enseada de Botafogo, de Thomas Ender, são exemplos da arte de registro feita por muitos pintores viajantes ao longo das descobertas e conquistas marítimas européias. Uma das peças de genuína curiosidade é o Panorama do Rio de Janeiro do Morro do Castelo ao Morro de São Bento, cuja autoria é discutida. A tela mostra a baía de Guanabara em retrato fiel, mas com embarcações típicamente chinesas. Parece que Sunqua, um pintor chinês, teria acrescentado esse detalhe da sua terra à paisagem carioca, mas muitos discutem se o pintor realmente esteve no Brasil. Se Sunqua não tiver passado por aqui, fica a dúvida de quem teve a exótica idéia de povoar com barcos orientais a baía que conheceu naus e caravelas portuguesas. Isso levanta um tema recorrente quando uma brasiliana é exposta ao público. Longe da atitude submissa que toma quando vê a obra "de um artista", o público costuma encarar a arte de registro como mera documentação e passa a cobrar dela a exatidão da fotografia. "Vamos ver representações, e não fotografias", diz a curadora Maria de Lourdes, "são paisagens construídas, com todo o background do artista e um certo espírito romântico que dominava a época". Obras documentais - Para provar que, mesmo documentais, as obras continuam a esconder domínios artísticos, Maria de Lourdes ressalta o trabalho do artista ao fazer a tela. Primeiro desenhava-se, às vezes em vários papéis. Quando chegava ao ateliê, o artista redefinia proporções a fim de encaixar a paisagem no tamanho da tela. "Assim, temos por exemplo as montanhas com formas um pouco diferentes", diz Maria de Lourdes, para quem "as paisagens sempre ficam mas bonitas do que são". Curiosamente, conforme ficavam mais tempo no Brasil, artistas como Eduard Hildebrandt e Vinet iniciaram um movimento rumo ao realismo, e nem por isso foram mais ou menos documentais. "Eles chegavam com suas concepções acadêmicas e lembranças de uma Europa sem cor", diz Maria de Lourdes. "Mas quando notaram que a luz do Rio de Janeiro é extraordinária, tiveram que se render a isso, e assim participam da gênese do impressionismo", esclarece. Outra discussão sempre levantada quando uma brasiliana está em questão é o olhar exótico dos artistas europeus. "Para eles, o exótico estava no Brasil", explica a curadora. "Eles buscavam o pitoresco e o diferente, mas não faziam caricatura". Nos séculos 18 e 19, certamente devido a influências iluministas, saber desenhar era condição para classificar-se como alguém culto. Daí haver nas famílias reais o artista oficial, que ministrava aulas práticas de desenho aos príncipes. No caso dos viajantes, a pintura tinha o mesmo uso do diário de viajem. Onde quer que parassem, os pintores rascunhavam as paisagens e registravam a lápis os rostos populares, o que equivalia a descrever o cotidiano da viajem. Isso explica o grande número de obras. Assim como explica a tentativa de fidelidade na representação do lugar e de seus habitantes. Apesar de numeroso, o acervo dos pintores viajantes voltou quase inteiramente para a Europa já em fins dos século 19. "Um dos méritos da família Geyer é justamente ter trazido parte deste patrimônio de volta ao Brasil", diz a curadora Maria de Lourdes. Paulo Geyer é empresário do ramo petroquímico e sócio majoritário da Unipar. Os objetos e obras levados por comerciantes para países da Europa e até para a África e Austrália foram recuperados pelo empresário em leilões de casas prestigiadas mundialmente, como Christie´s e Sotheby´s. Desde os anos 30, quando provavelmente as obras deste período feitas no Brasil tinham um valor bem menor, os Geyer circulam por leilões com um sonho, agora próximo de realização: a criação do museu Casa Geyer. A doação do patrimônio ao Museu Imperial foi recebida com festa. Em meio às 5 mil peças do acervo, os Geyer doaram sua própria residência, um casarão do século 18, no bairro do Cosme Velho, no Rio de Janeiro. Visões do Rio na Coleção Geyer - de 12 de setembro a 12 de dezembro, das 12h às 20h. CCBB: Rua 1.º de março, 66, Centro. Entrada franca. 808- 2500

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