O Rio de Janeiro não continua sendo

Depois que mexeram nas entranhas do crime do Rio, algo mudou. Há uma sensação de segurança que há muito não se sentia.

MARCELO RUBENS PAIVA, O Estado de S.Paulo

15 de janeiro de 2011 | 00h00

Antes, na entrada da cidade, pela Via Dutra, as preces começavam. Era nela que ocorria a maioria dos arrastões. Três carros com bandidagem armada reduziam a marcha até parar, interrompendo o fluxo. Desciam aos gritos com armamento pesado e granadas nas mãos. Afanavam bolsas, dinheiro, celulares. Eventualmente, uma vítima levava um tiro na cabeça, para que a autoridade ficasse explícita.

Levavam dez minutos. Tomavam as chaves dos primeiros carros e se mandavam, entrando pelas vias tortuosas da Baixada.

Mas se caso nada ocorresse na estrada, tinha ainda pela frente a Linha Vermelha, Via Expressa Presidente João Goulart, sob a mira e o humor do Complexo da Maré.

Exigia um exercício de autocontrole ao motorista: pensar positivo, seguir em frente, torcer para não ser mais uma vítima de uma bala perdida.

E torcer os dedos, ao cruzar a blitz policial na via, que, dia e noite, dava as boas-vindas com rifles automáticos apontados. Afunilavam os carros. Não paravam suspeitos. Preferiam paulistas em férias, para uma geral e mãos no capô, em busca de uma pequena irregularidade (a ponta de um baseado, um documento ou extintor vencidos), e garantir a féria da corporação.

Rosana, uma amiga, sofreu ameaças, depois de encontrarem uma semente de maconha no carpete. Foi obrigada a seguir uma viatura até o shopping mais próximo, em que PMs, com as senhas dos cartões dela, rasparam suas contas bancárias.

Cidadã indignada, denunciou o caso para a ouvidoria local, até descobrir que não existia nenhuma viatura com o número e a placa que decorara. Repórter da ISTOÉ, restou-lhe apenas a tarefa de denunciar nas páginas da revista o abuso.

O carioca teme a polícia tanto quanto teme a bandidagem. É constantemente vítima de extorsão. Nas blitze da Lei Seca, que virou uma febre na cidade, por 50 pratas consegue se livrar de uma ida à "delega".

Se sobrevivíamos à Dutra e Linha Vermelha, havia os túneis, verdadeiras armadilhas para arrastões, emboscadas construídas pela natureza carioca.

E mesmo se tudo desse certo, havia ainda os ratos de praia, as trocas de tiro, as balas traçantes e os arrastões nas areias. Vivia-se com a rotina da violência como se fosse algo indissolúvel à essência da cidade mais linda do mundo; um pedágio a se pagar pela beleza.

Mas um simples blindado que ultrapassa qualquer obstáculo, e uma operação conjunta entre as forças de segurança, mudou a realidade.

A tal blitz da Linha Vermelha não está mais lá. Há paz nas ruas. O Complexo do Alemão e seu teleférico viraram ponto turístico. As escadarias da Igreja da Penha voltaram a receber pagadores de promessa. Até a pivetada do asfalto anda mais relaxada, menos ameaçadora.

A cidade se sente vitoriosa. A polícia anda orgulhosa. E já sabe qual o próximo passo: a tomada da Rocinha e Vidigal, comandadas hoje pela mesma organização criminosa.

Aí, sim, a chapa esquenta. Cercada pela mata, será preciso uma tropa de 20 mil homens para ocupar o reduto mais lucrativo e bem armado do tráfico. E onde moram os serviçais da zona sul. A pergunta não é se vai ocorrer, mas quando.

Já há investimentos imobiliários na favela, que esperam pela instalação de uma UPP (Unidade de Polícia Pacificadora) em breve. Até a elite carioca olha para a Rocinha com outros olhos. Como o preço dos imóveis da zona sul explodiram, e ameaça expulsar moradores tradicionais, é para lá que a classe média vítima da especulação pode se mudar. Para uma das melhores vistas da cidade.

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Tomar o território é a palavra de ordem das forças policiais. O que não se entende é por que não o fizeram antes, se vimos pela TV que pareceu tão fácil.

Por um detalhe estúpido que agora se revela: a falta de blindados capazes de vencer os obstáculos instalados pela bandidagem. O Caveirão, anacrônico veículo blindado da polícia, com seus pneus de borracha, chegava só até a metade. Bastava atirar no pneu, ou uma barricada mais eficiente, e a tropa voltava.

Durante décadas, viu-se a incompetência e a fragilidade dessa batalha. Traficantes nos pontos altos atiravam em policiais nos baixos, que recuavam.

Apenas seis blindados da Marinha, com lagartas, não pneus, foram suficientes para tomar o que parecia impossível. E só agora o Bope vai ganhar o mesmo tipo de blindado, mais estreito que o Caveirão, o que possibilita entrar pelas ruelas das comunidades.

Outra explicação. Foi uma operação constitucionalmente ilegal. Pois, para as Forças Armadas entrarem numa batalha contra o crime, é preciso que haja intervenção Federal no Estado.

Encontraram a brecha na lei: os carros foram apenas emprestados para a polícia carioca, o que botou a bandidagem para correr. Mas vai o Comando Vermelho entrar com uma ação no Supremo contra a Secretaria de Segurança do Rio de Janeiro, para contestar a legalidade da operação?

Ela foi um sucesso, recebeu um inédito apoio popular, especialmente dos moradores das favelas, tomou o território, minou a engrenagem do crime.

Mas, em bom carioquês: Caraca, como não se pensou nisso antes? Como a polícia carioca não adquiriu blindados que subissem as favelas? Como não se mudou a Constituição, para permitir que se encerrasse um ciclo de décadas de império do tráfico, detonando a economia de uma cidade tão maravilhosa? Incompetência ou interesses?

Lamenta-se que parte da bandidagem negociou em ouro com a própria polícia a fuga. Que muitos traficantes saíram em porta-malas de viaturas policiais. Que o tráfico parece que já voltou a atuar.

Mas a fórmula para levar paz ao Rio foi descoberta. Há vontade política e apoio popular. Algo mudou. E para melhor. O carioca, enfim, sente que existe um Estado por trás dos impostos que paga. E o turista se sente seguro para gastar sua bem-vinda moeda. Chegando pelo ar ou pela Dutra. Para descobrir que o Rio de Janeiro continua lindo.

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