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Leandro Karnal
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O rio da minha aldeia

No Rio Grande, o caqui é cáqui e o kiwi (‘quiuí’ em todo o País) é, no Sul, 'quívi'

Leandro Karnal, O Estado de S.Paulo

22 de agosto de 2018 | 02h00

Fernando Pessoa expressou uma identidade local poética. O rio da sua aldeia não era o Tejo, porém era o anônimo e pequeno curso d’água que ele conhecia e amava. Como diz com a voz de Alberto Caeiro: “O rio da minha aldeia não faz pensar em nada, quem está ao pé dele está só ao pé dele”.

É quase um “cacoete” regional. Sim, o Estado mais rico é importante, sim a metrópole tem mais luzes do que o centro urbano do meu vale, porém... não são minha aldeia ou meu local de identidade.

Nasci e cresci no Rio Grande do Sul. A identidade gaúcha é forte e fornece amplo material de humor para muitos brasileiros mais ao norte. Eu diria até que meu Estado natal tem hipertrofia de identidade. Muitas unidades da Federação têm uma identidade em torno das suas virtudes reais ou imaginadas. Há orgulho imenso em ser mineiro, pernambucano, paulista, baiano ou paraense. As piadas criam tipos ideais a partir das idiossincrasias regionais: “Um gaúcho encontra um mineiro na estrada e...”. Parece haver menos anedotas sobre o povo do Amapá ou de Rondônia.

Na infância, eu pensava coisas como: “Nossa, como os cearenses têm sotaque”, incapaz de perceber o meu. Há dados mais curiosos. O tomate é uma fruta domesticada no México. Desde criança aprendi o que me parecia óbvio: o tomate grande (tipo caqui) é conhecido no Rio Grande do Sul como “tomate gaúcho”. Surgiu no pampa? Foi criado no Rio Jacuí? Não, mas é gaúcho. O pequeno (tipo italiano) é comprado nos supermercados meridionais como “tomate paulista”. Chamar o pão pequeno de “cacetinho”, o doce pastoso para passar no pão de “schimmier”, “pardal” para radares na estrada e identificar uma colisão de carros como “pexada” era, para mim, o mais normal e tradicional dado da natureza. Voltamos à hipertrofia da identidade. Funciona como o brasileiro que estranha que um português chame a fruta caqui de dióspiro e se pergunta o motivo de usarem palavra tão estranha. Aliás, como os gaúchos sabem e os paulistas não imaginam, no Rio Grande o caqui é comprado como cáqui e o kiwi (pronunciado em todo o País como “quiuí” oxítono) é, nos pagos do Sul, “quívi”, paroxítono e com um V bem sonoro.

Veja, querida leitora e estimado leitor: não se trata de identificar apenas o regionalismo: come-se aipim em Porto Alegre e no Rio de Janeiro, mandioca em grande parte do Sul e do Sudeste e macaxeira em quase todo o Nordeste. Não temos apenas a constatação de que a mandioquinha vire batata-baroa ou batata-salsa a depender da região. A hipertrofia da identidade ocorre quando você acha errado ou estranho que o outro tenha um nome “incorreto” para algo que você conheça de outra forma.

A identidade regional é, muitas vezes, positiva. Em um mundo cada vez mais globalizado e uniforme, é motivo de um lucrativo turismo a presença da diferença como fator atrativo. Ter orgulho da sua terra é importante para que não se vire um macaco de grandes centros ou imite modas externas apenas por conferir maior valor ao que é, simplesmente, de fora. As diferenças, dentro dos limites da lei e da ética, são saudáveis e estimulam o pensamento, impedindo que eu funda meu ser ao universal ou que, dizendo de forma mais técnica, combine o significado com o significante. Uma rosa continua sendo uma rosa, mesmo que tivesse outro nome, pondera a sábia Julieta na peça de Shakespeare. Um sinal, semáforo ou sinaleira continua sendo uma peça com eletricidade e três cores para fins de organização do fluxo no trânsito.

A riqueza da língua é parte da história e sua variedade local precisa ser mantida. Reconheço os regionalismos brasileiros por viajar muito, inclusive seus desvios da norma culta. Sei que cheguei a um lugar específico quando se usa o tu sem concordar com o verbo. O mesmo ocorre quando encontro expressões da laia de “com nós” ou “a janta está servida”: são bússolas que indicam em qual local aterrissei. Apenas o “mim fazer” é fator de união nacional. O mim fulgura soberano, sem preferência específica por uma capital. Língua também é identidade.

A identidade regional é faca de dois gumes afiados. Positiva, como já identifiquei, atrai turistas e marca uma fronteira para que eu seja mais autêntico e não um papagaio do que imagino ser o correto dos grandes centros. Negativa, ela protege preconceitos graves, inventa glórias e importâncias inexistentes e pode até oprimir terceiros. Identidade une e pode conter ódios para serem projetados na diferença.

Curiosamente, foi um gaúcho de São Borja que proibiu o orgulho de identidades locais e eliminou bandeiras estaduais, hinos e até impostos regionais. Getúlio Vargas queria enfatizar o nacional e a unidade durante a ditadura do Estado Novo. Afastado o ditador, voltaram a florescer a celebração de datas locais, sendo todas derrotas diante do nacional. Assim, celebramos Guerra dos Farrapos no Sul, o Movimento Paulista de 1932, a Cabanagem no Pará ou a Balaiada no Maranhão. Todos eram separatismos que foram sufocados pelo poder central. A linda bandeira de Pernambuco remete a uma sedição esmagada e vencida pelo Império. Todos celebramos a independência da parte que não continuou.

O rio da minha aldeia é tributário do Tejo, dissolve-se nele e tem destino óbvio dos regatos: perder-se nos grandes caudais. O equilíbrio pode estar aí: perceber o caráter único do meu rio e não supor que ele mova o mundo todo ou seja o ponto mais importante da grande bacia hidrográfica universal. Tudo flui, como desejava o bom Heráclito. O que fica parado apodrece, seja o Guaíba, o Amazonas ou o Tietê. O rio da minha aldeia é sempre lindo, basta eu entender o possessivo “minha” sem confundir a parte e o todo. É preciso ter esperança. 

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