O rio da dúvida

Imagine um ex-presidente americano, eleito duas vezes, e tão popular que chega próximo a derrotar os eternos partidos Democrata e Republicano em uma tentativa de terceiro mandato. Pouco antes de um discurso de campanha é baleado no peito, no seu lado direito, e mesmo assim, com a camisa manchada de sangue, fala ao público que o esperava em um estádio.

Matthew Shirts, O Estado de S.Paulo

29 de agosto de 2011 | 00h00

Acaba em segundo lugar na eleição, à frente dos republicanos, mas atrás dos democratas. Derrotado e sem mandato nenhum, decide fazer uma visita longa à América do Sul, onde é visto por muitos como um imperialista feroz. É que, quando estava na Presidência dos Estados Unidos, dividiu o continente americano pelo meio, com a construção do Canal de Panamá. Alguns acharam a obra presunçosa.

O motivo oficial para a travessia do Equador era um convite bem pago para palestrar a um grupo de empresários em Buenos Aires. O ex-presidente aceitou-o pelo dinheiro, que precisava, para poder visitar o filho, Kermit, que trabalhava no Brasil, e, sobretudo, para conhecer a Amazônia, um sonho antigo de Theodore Roosevelt, grande aventureiro e naturalista amador. Isso em 1913.

É preciso lembrar que, nessa época, a Amazônia era, com exceção dos polos, a região menos conhecida do mundo. Nenhum avião a havia sobrevoado, nenhum satélite, que até onde sei, sequer fora imaginado. A região, como escreve Candice Millard em O Rio da Dúvida: A Sombria Viagem de Theodore Roosevelt e Rondon pela Amazônia "era uma mancha indistinta e inexplorada no mapa da América do Sul, do tamanho da Alemanha".

Não sei como este livro passou debaixo do meu radar quando foi lançado no Brasil pela Companhia das Letras em 2007. Faz tempo que não leio nada tão empolgante. Se eu fosse você, sairia na primeira oportunidade para comprá-lo. Enquanto durou a minha leitura fiquei feliz que nem um porco na lama. Compre o livro. Vá por mim. Você vai me agradecer.

A ideia de descer o Rio da Dúvida foi do ministro do Itamaraty na época, Lauro Müller. A equipe de Roosevelt havia elaborado um itinerário já conhecido por brasileiros, menos perigoso. Segundo a autora, editora no passado da revista National Geographic (trabalho na edição brasileira), o ministro do Itamaraty entendeu o espírito aventureiro de Roosevelt e lhe ofereceu a oportunidade de uma viagem histórica, de descoberta, inédita. Mentes maldosas poderiam desconfiar das suas intenções e enxergar na sugestão da rota nova um impulso anti-imperialista.

Mas não é o meu caso. Afinal, Müller arrumara para comandar a viagem ninguém menos do que coronel Cândido Mariano da Silva Rondon, o maior explorador da Amazônia de todos os tempos e, para mim, o maior herói do Brasil, depois do Pelé. Se alguém poderia trazer Roosevelt de volta à chamada civilização, depois de uma viagem dessas, era Rondon, antigo colega de academia militar de Müller (o mundo é uma Kombi).

Mesmo assim, a ideia era uma loucura, convenhamos. Imagine Bill Clinton descendo, hoje, uma parte remota e desconhecida da Amazônia com o sertanista Sydney Possuelo. Era mais ou menos isso, em uma época sem helicópteros, telefones de satélite ou GPS.

Muitos não completaram a expedição Rondon-Roosevelt. Alguns foram obrigados a voltar antes, por falta de comida, enquanto ainda dava tempo. Outros morreram pelo caminho. Passaram fome todos. Quase todos sofreram com a malária. Roosevelt perdeu uns 15 quilos e por pouco não pereceu em território brasileiro. Tiveram de fabricar barcos improvisados pelo caminho e carregá-los inúmeras vezes, por subidas e descidas, quando o rio se tornava inavegável. Encontraram índios desconhecidos.

O livro, no entanto, traz mais do que uma história fascinante de aventura. Encontraram-se nessa viagem louca - de pedra - um dos maiores expoentes dos valores americanos e um brasileiro excepcional. Rondon era uma espécie de Gandhi da exploração. É dele a instrução linda e heroica, seguida ainda hoje pela Funai no encontro com índios: "Morrer se preciso for, matar jamais". Se há ainda índios vivos e bem no Brasil, isolados até, isso se deve, em parte, à atuação do Rondon.

E cá entre nós: sou grande fã de Jimmy Carter e Bill Clinton. Mesmo. Mas já não se faz ex-presidente americano como antigamente.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.