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O rio da consciência

Avançar num trabalho de arte ou num problema matemático requer uma pausa

Milton Hatoum, O Estado de S.Paulo

01 Dezembro 2017 | 02h00

É o título do livro póstumo do neurologista britânico Oliver Sacks. Nesses ensaios, escritos com uma linguagem clara e uma erudição generosa, ele recorre à arte, à literatura, à história e à filosofia para analisar aspectos genéticos, anatômicos e fisiológicos do complexo e misterioso funcionamento do cérebro.

Tudo conflui para a compreensão do rio da consciência, cujas águas agitadas deságuam no vasto mar da memória. Os temas são tão variados quanto fascinantes: Darwin e o significado das flores, O outro caminho: Freud neurologista, Enganos auditivos, Uma sensação generalizada de desordem…

Não menos fascinantes são os ensaios A falibilidade da memória, O eu criativo e O rio da consciência. Neles, as análises científicas sobre memória, esquecimento, e as relações entre criatividade, tempo e (in)consciência são aprofundadas por reflexões filosóficas, musicais, literárias.

Ele nos lembra que as pessoas aprimoram suas habilidades pela imitação, e só depois encontram sua voz própria. Nesse sentido, a criatividade, segundo Sacks, requer um longo tempo de preparação e exercício conscientes, mas também inconscientes. Ele menciona dois casos exemplares: a abertura da ópera Rienzi, de Wagner, em que é possível identificar as imitações, paráfrases e ecos de vários compositores na obra wagneriana; e a peça Uma espécie de Alaska, de Harold Pinter, inspirada em um dos casos clínicos relatados em Tempo de despertar.

Em 1973, Pinter leu o então recém-publicado livro de Sacks, mas só oito anos depois o dramaturgo britânico encontrou a primeira imagem e a primeira fala da peça, que “escreveu a si mesma” nas semanas seguintes. Isso acontece com poetas e ficcionistas, que, por um longo tempo, pensam num poema, conto ou romance e, de repente, são movidos por uma emoção súbita (o instante de alumbramento, como dizia Manuel Bandeira), e o texto “escreve a si mesmo”.

O neurologista cita o contraste entre o texto de Harold Pinter e o de outro autor, influenciado pelo mesmo relato de Tempo de despertar. O texto desse autor (não nomeado) pareceu a Sacks “um plágio ou uma paródia, em vez de uma peça original, pois em alguns trechos copiava sentenças inteiras do meu livro sem ao menos transformá-las”.

Sacks enumera possíveis razões pelas quais aquele autor, ao contrário de Pinter, não conseguiu transformar o relato do caso clínico num texto teatral de qualidade.

“Todos nós, em algum grau, fazemos empréstimos de terceiros, da cultura à nossa volta. O que está em questão não é ‘emprestar’ ou ‘imitar’, ser ‘derivado’, ser ‘influenciado’, e sim o que se faz com aquilo que é tomado de empréstimo ou derivado, a profundidade em que a pessoa assimila, absorve, combina com suas próprias experiências, pensamentos e sentimentos, situa em relação a si mesma e expressa, de novo modo, o seu modo particular” (p. 107, trad. Laura Teixeira Motta).

Portanto, não se trata apenas de plágio ou imitação. Os avanços da tecnologia e dos estudos científicos ajudam a compreender o funcionamento do cérebro, mas “o fluxo da consciência, em constante mudança”, ainda é, segundo Sacks, um grande mistério. Daí a importância do tempo e do “esquecimento”: “um período de incubação que é essencial para permitir que o subconsciente assimile e incorpore as influências e fontes, que as reorganize e as sintetize em algo pessoal”.

Isso vale igualmente para artistas, cientistas, matemáticos, físicos. Avançar num trabalho de arte ou num problema matemático requer uma pausa, um período de incubação. As atividades científicas e artísticas não se ajustam à pressa nem devem ceder à pressão do mercado. São atividades que, cada uma a seu modo, pedem paciência, longos períodos de reflexão, noites de insônia, e lances tão inesperados quanto iluminadores do inconsciente. São esses lances que conformam o “Eu criativo”, belamente analisado por Sacks neste rio da consciência. 

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