O rico acervo de Décio de Almeida Prado

O crítico e ensaísta Décio de Almeida Prado (1917-2000) escreveu durante 22 anos no Suplemento Literário do jornal O Estado de S.Paulo, de 1946 a 1968, do qual foi criador e editor. Nesse período, correspondeu-se com quase toda a intelectualidade do País e editou textos, ensaios, contos e poemas. Recebia esse material manuscrito ou datilografado, com anotações e apontamentos, sugestões e pilhérias, confidências e gracejos. E, o que é melhor, costumava guardar isso.Parte dessas "gavetas" de Almeida Prado está agora em poder do Instituto Moreira Salles, que assumiu, na semana passada, a guarda do acervo do crítico. O conteúdo desse legado - são cerca de 6 mil livros, 50 volumes de manuscritos e centenas de discos e CDs - guarda preciosidades.Algumas dessas preciosidades garimpadas pela reportagem no material revela que Almeida Prado manteve boa parte dos originais que lhe chegavam para publicação no jornal, de gente como Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, Guilherme de Almeida, Cecília Meireles, João Cabral de Melo Neto e outros.Os originais contam histórias saborosas. Almeida Prado recebeu de Manuel Bandeira, em 1935, a primeira versão do poema Primeira Canção do Beco, manuscrita e datilografada, trabalho que só veio a ser publicado na década de 60, no livro Estrela da Vida Inteira. Bandeira considerava o poema pornográfico e chegou a escrever uma nota (no original datilografado que enviou para publicação no jornal O Estado de S. Paulo), dizendo que tornava Almeida Prado "cúmplice" da sua "blasfêmia".O original recebido por Almeida Prado revela uma curiosidade extra: a última estrofe do seu poema "pornográfico" foi suprimida quando da publicação. Bandeira não a quis em livro, mas ela chegou a ser publicada integralmente pelo Suplemento Literário. A estrofe suprimida é esta: "Se não queres que eu dê minh´alma/ Ao rei de todos os demônios/ Em troca da felicidade/ Da menina, tua filha única!".Entre os poemas originais (revelados em apenas uma das pastas adquiridas pelo instituto) estão os poemas As Horas Mágicas, O Deus Mal-informado, A Palavra e a Terra, Halley e Rua da Madrugada (Carlos Drummond); Balada Livre em Louvor de Carlos Drummond de Andrade, Canção do Mais Triste Maio e Primeira Canção do Beco (Manuel Bandeira); Líquido Cântico e Posse (Guilherme de Almeida); Rondó do Muito Triste e Uma Mulher Vestida de Gaiola (João Cabral de Melo Neto); e Canção do Sabiá (Cecília Meireles)."A colaboração desses autores dessa importância era uma coisa corrente, natural, quase corriqueira", diz Antonio Fernando De Franceschi, diretor-superintendente do Instituto Moreira Salles. "E mostra que o Décio era uma pessoa que fazia por merecer a confiança desses autores", pondera.Segundo ele, o material que foi "adotado" pelo instituto traz material suficiente para tornar-se - após pesquisa e organização - referência fundamental no teatro brasileiro. O trabalho de organização contará com a colaboração do Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) da Universidade de São Paulo (USP) e terá como curadora Mariângela Alves de Lima, ex-colaboradora do próprio Almeida Prado.História do teatro - Décio Almeida Prado morreu em fevereiro, aos 82 anos. Escreveu mais de dez livros a respeito do teatro. Em três deles - Apresentação do Teatro Brasileiro Moderno, Teatro em Progresso e O Exercício Findo - já reunia seu trabalho como crítico de jornal. Esse material está sendo reeditado pela Editora Perspectiva e será lançado no próximo ano."São livros importantes para se conhecer a história do teatro", diz o crítico Sábato Magaldi, que foi colaborador de Décio no Suplemento Literário e escreve o prefácio da nova edição da Perspectiva. "Nesses três volumes, ele reuniu uma síntese do que foi sua atividade crítica, e não era tudo que ele aproveitava", lembra.Segundo Magaldi, Décio de Almeida Prado guardava todo o material de edição com muito carinho. E não havia pompa ou circunstância em receber um texto, por exemplo, de Manuel Bandeira. "Era uma coisa simples, tranqüila, sem nenhum problema", lembra. "Era todo mundo amigo, todos se conheciam, eu já tinha vivido no Rio, conhecia Drummond", recorda. "O que posso dizer é que o suplemento era extremamente respeitado, tanto em São Paulo quanto no Rio."Magaldi conta que recebeu, por exemplo, para ser guardado pelos arquivos do jornal, uma pasta das mãos de Procópio Ferreira, no qual ele próprio fazia um inventário de toda sua carreira no teatro, com textos, anotações e fotografias.Uma das boas lembranças daqueles tempos do Suplemento era o esforço em se publicar, no dia seguinte a uma estréia teatral, uma crítica do espetáculo. Décio de Almeida Prado saía do teatro e ia para casa redigir o texto. "Ele não sabia bater à máquina e era a mulher dele, Ruth, que datilografava", lembra Magaldi.Depois, Prado corria com o texto às oficinas do jornal, para fazer a composição, e esperava ali mesmo para depois revisar a crítica. Dá para imaginar o crítico vestido como um dândi, recém-saído do Sérgio Cardoso, em meio às impressoras, esperando para revisar o último texto do jornal."Dos ensaístas de sua época, o Décio era o que tinha o texto mais claro, mais elegante - talvez só o Sérgio Buarque de Holanda lhe faça frente", diz Franceschi. "O Antonio Candido me disse certa vez que o Décio era como um bom vinho; quanto mais envelhecia, melhor ficava", lembra.O Instituto Moreira Salles não guarda só o acervo de Almeida Prado. Quando o cronista Otto Lara Resende morreu, em 1992, a família confiou ao instituto a guarda de seu legado - cerca de 5 mil livros e 10 mil cartas.O Instituto de Estudos Brasileiros, sob a coordenação de Telê Ancona Lopes, passou dois anos trabalhando na correspondência de Lara Resende e, no fim do ano, ela estará à disposição para consulta.Além de Lara Resende, há o acervo de Jurandir Ferreira, o arquivo da poeta Ana Cristina César, manuscritos diversos de João Gilberto Noll, o único manuscrito original de Viva O Povo Brasileiro, de João Ubaldo Ribeiro, e um exemplar raro do Álbum de Canudos (só existem dois; o outro está no Museu da República, no Rio).Imagens do Brasil - Mas a menina dos olhos da família Moreira Salles, proprietária do Unibanco e mantenedora do instituto, é mesmo a fotografia. Em dez anos de atividade, eles converteram-se no maior colecionador privado de fotos brasileiras do século 19 e começo do século 20. Em maio de 1998, após a aquisição da coleção Gilberto Ferrez, o instituto construiu no Rio uma impressionante reserva técnica.O prédio, inteiramente projetado por Aurélio Martinez Flores para abrigar fotografia, já guarda mais de 65 mil imagens. Tem cerca de 600 metros quadrados de área construída e um desenho revolucionário, à prova de umidade.

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