O retorno do valoroso D. Quixote, em três versões

Um paranóico poderia identificar uma invasão de moinhos de vento. Ou de Sanchos. Como mesmo os paranóicos podem ser perseguidos, há, de fato, uma enorme presença cervantina: O Engenhoso Fidalgo D. Quixote de La Mancha acaba de ganhar o primeiro livro de uma nova tradução, assinada por Sérgio Molina (Editora 34, 734 págs., R$ 57; o segundo deve ser publicado em 2003). A edição é bilíngüe e sua chegada ao mercado coincide com o relançamento, pela Nova Cultural (610 págs., R$ 9,90 nas bancas), da tradução dos viscondes de Azevedo e Castilho. Também a Ediouro a reeditou, numa caixa em três volumes, toda a obra, com tradução de Almir de Andrade e Milton Amado.Não há explicação fácil para tanto quixotismo. Nem mesmo uma data redonda (o livro foi impresso no fim de 1604, com data de 1605, e Miguel de Cervantes nasceu em 1547 e morreu em 1616) que o justifique. Mas o fato aí está e por si pode ser comemorado.Quantas leituras pode render D. Quixote? Obra fundadora do romance moderno, seus personagens são conhecidos, conhecidíssimos. De Dostoievski, que afirmou que a obra "representa até hoje a mais grandiosa e acabada expressão da mente humana", ao grupo Barão Vermelho (que canta: "Mas quem tem coragem de ouvir/ Amanheceu o pensamento/ Que vai mudar o mundo com seus moinhos de vento"), todo mundo tem, no imaginário, uma dívida para com o romance, mesmo que não o tenha lido.Se este for, aliás, o seu caso, não se incomode. Veja o que diz Maria Augusta da Costa Vieira, professora de letras da USP, que apresenta a tradução de Molina: "Se você se enquadra entre aqueles que sabem muito bem da importância do Quixote como verdadeiro patrimônio da humanidade, mas, ao mesmo tempo, se inclui entre os que confessam a falta quase irreparável de ainda não ter lido a grande obra de Cervantes, abandone o constrangimento e considere-se um eminente leitor privilegiado." Por quê? "Afinal", continua ela, "não deixa de ser grande vantagem poder ler o Quixote somente com idade mais madura, livre das idéias preconcebidas, carregadas muitas vezes de interpretações motivadas pela vontade dos tempos que atravessam os seus 400 anos de existência".Mas que interpretações seriam essas? A mais comum, pelo menos depois do romantismo, é a que deságua na música do Barão - a do sonhador e idealista que sonha em mudar o mundo, em torná-lo mais justo, buscando um reconhecimento por suas façanhas e jurando amor por Dulcinéia d?El Toboso.Outra, num outro extremo, é a do personagem apenas louco e cômico. De uma a outra, há um mundo a ser reinventado. Entre os ainda citados por Maria Augusta, vale destacar a famosa leitura de Miguel de Unamuno, que afirma não se importar com "o que Cervantes quis ou não pôr ali", e que "o vivo" é o que ali ele, leitor, descobria, e a do britânico Peter Russell, que lembra que é preciso levar em conta o fato de que a obra foi concebida para provocar risadas. Como o próprio livro deixa claro muitas vezes, trata-se de uma obra feita contra - contra os romances de cavalaria, obras cuja leitura obsessiva leva Quixote à loucura e que o faz desejar se transformar num cavaleiro. Seus adversários ajudam progressivamente a mostrar um mundo bem diferente daquele que, quase conscientemente, vai construindo.Se há uma qualidade rapidamente identificável na tradução de Molina é o fato de ela ser agradável e leve. E de conseguir, ao contrário da dos viscondes, provocar risadas sem que o leitor precise se esforçar para interpretar o português ali usado. Segundo Molina, sua grande dificuldade foi achar múltiplos tons para a obra. O resultado é que a tradução tem um leve cheiro machadiano. Molina afirma que procurou, na verdade, no português do século 17, elementos como a colocação dos pronomes. Machado o teria influenciado indiretamente (até porque essas também eram fontes do romancista no século 19).Molina não foi sempre um apaixonado por Cervantes. Nascido em Buenos Aires, mudou-se para o Brasil ao 10 anos. Segundo ele, o peso do cânone literário hispânico o afastava da obra. Na reaproximação, colaborou um texto de Carlos Fuentes, em que o mexicano mostra como Machado de Assis recuperou a tradição do romance de Cervantes, fazendo uma ficção que se queria ficção, contra uma outra tradição, inaugurada por Stendhal, a que chama de "tradição de Waterloo", mais "realista", num outro sentido.Em 1997, Molina foi convidado por Maria Augusta a conduzir uma oficina num curso de especialização em tradução da USP. "Desde então, a vontade de me dedicar a esse livro só fez aumentar", conta. E, em 2000, acabou sendo convidado pela editora a traduzir a obra, a partir de uma recente versão crítica espanhola.Como a edição, além de muitas e boas notas, é também bilíngüe, é possível comparar o trabalho de Molina com o original. A primeira frase do romance propriamente dito salta aos olhos - as outras versões relançadas preservavam mais radicalmente a original. Molina conta que sua tradução começou literaríssima: "Em um lugar de La Mancha de cujo nome não quero lembrar-me", mas que a solução "não dava conta" do significado de "lugar" e "querer". "Do primeiro, porque Cervantes usa o termo quase exclusivamente na acepção de aldeia, vilarejo. Embora a palavra também comporte esse sentido no português d?antanho, achei que valia dar a dica de interpretação, pelo menos na primeira ocorrência; nas seguintes, o contexto ajudaria."O problema envolvido no verbo "querer" é bem mais complicado, reconhece Molina. "Há uma grande discussão em torno desse ponto." Resumidamente, Molina identificou-se com quem defende que o "querer", no caso, é mais um auxiliar que um verbo que expressa a vontade, e optou por "que ora me escapa".

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