O retorno de Leminski, poeta faixa-preta

O polaco está de volta. O poeta, judoca faixa-preta, monge iniciante, compositor de música popular, trotskista, tradutor, biógrafo e contista curitibano Paulo Leminski (1944-1989) tem uma parte fundamental de sua obra relançada nos próximos dias, incluindo o romance cult Catatau (1975), pela Travessa dos Editores. Também terá um livro de contos inéditos, que ele mesmo deixou pronto para ser editado pouco antes de morrer, finalmente lançado. Trata-se de Gozo Fabuloso, que será editado pela DBA, de São Paulo. Outros lançamentos estão previstos. A editora Brasiliense, que publicou a maior parte da obra do autor, reedita duas biografias escritas por Leminski, da coleção Encanto Radical: Jesus ? a.C. e Cruz e Sousa ? O Negro Branco. Há um ?gancho? ? jargão jornalístico que designa um interesse factual, pontual ? nos eventos leminskianos. Nesta terça, dia 24, ele completaria 60 anos. Morto há 15 anos, Paulo Leminski foi um cometa literário de múltiplas faces. Teve relações estreitas (e fecundas) com a vanguarda, mas dirigiu boa parte dos seus esforços no sentido de tornar a poesia uma expressão popular. Nessa ambição, flertou com a MPB (teve parcerias com Caetano Veloso e Itamar Assumpção), fez argumentos para histórias em quadrinhos, manteve colunas em jornais. Os textos, haicais e poemas de livros como Caprichos e Relaxos, Agora É Que São Elas, Distraídos Venceremos e La Vie en Close mostram uma busca consciente e articulada de uma linguagem fácil (sem ser vulgar), musical e fluida. Era uma espécie de embate para mostrar que, sim, a poesia seria capaz de mobilizar multidões. Nesse esforço, tornou-se uma figura midiática, um performer poético esgrimindo sua espada de samurai num mundo alheio, meio apático. Leminski era muito erudito. Traduzia inglês, hebraico, tupi, japonês, latim, russo e sânscrito. Mas gostava mesmo era do ambiente fértil dos corredores das universidades, do boteco, das possibilidades do samba e da cultura popular. Teve um fim melancólico, tornado presa do alcoolismo. Era belo e cheio de vitalidade no seu auge, e tornou-se desdentado e digno de piedade como o derradeiro Chet Baker. ?Pariso/ Novayorquiso, Moscoviteio/ Sem sair do bar./ Só não levanto e vou embora/ Porque tem países/ Que eu nem chego a madagascar.? Catatau, livro que escreveu quando tinha 30 anos, virou uma espécie de Finnegan?s Wake de uma geração no sul do País. Teve um impacto forte, pela audácia e originalidade. ?Catatau está entre aqueles romances experimentais, aquela prosa mais comprometida com a pesquisa da palavra, do texto. Ele estava influenciado pelo Finnegan?s Wake e pelas Galáxias, do Haroldo de Campos. Isso pode ter dado o start, o impulso, mas há uma grande originalidade. ?A idéia de botar o pai da lógica (o filósofo francês René Descartes, que Leminski chama de Renatus Cartesius, e que viveu de 1596 a 1650) perdendo a lógica nos trópicos foi muito boa?, considera a poeta Alice Ruiz, que foi casada com Leminski. ?A velocidade da lógica ultrapassa o limite da linguagem, atrás da linguagem, na frente de quê? Tem tudo que ser igual ao eco... só falta equar! Posso ser útil se me vendo claro mas entendo e entendendo me fazendo de meu entendedor de meias colcheias e colméias cheias. Quem dá o que falar, não dá para fazer o mesmo??, diz trecho do Catatau, muito falado e pouco lido. Autores como Wilson Bueno, Cristóvão Tezza, Ademir Assunção, Rodrigo Garcia Lopes e outros cresceram artisticamente no rastro desse ambiente literário que Leminski iluminou a partir dos anos 80 em Curitiba, e depois em São Paulo. Catatau será relançado pela Travessa dos Editores na terça-feira, no Teatro do Paiol, em Curitiba. Artistas e escritores como Carlos Careqa, Rodrigo Garcia Lopes, Ademir Assunção e Maxixe Maxine farão leituras e performances. A história de Leminski já foi contada, em 2001, numa biografia escrita pelo jornalista e antigo parceiro Toninho Vaz. Paulo Leminski ? O Bandido Que Sabia Latim, saiu pela Editora Record (378 págs, R$ 35). Em um de seus brilhantes auto-retratos, deixou a seguinte pérola: ?Paulo Leminski/ é um cachorro louco/ que deve ser morto/ a pau e pedra/ a fogo e a pique/ e senão é bem capaz/ o filha da p.../ de fazer chover/ em nosso piquenique.? Chove no piquenique literário este mês, e Leminski é de novo o anfitrião da balbúrdia.

Agencia Estado,

24 de agosto de 2004 | 17h30

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